COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ESTADO TEÓRICO

“O Estado teoriza demais” - Luiz Vicente da Cunha Pires, prefeito de Cachoeirinha - ZERO HORA 27/04/12/2011

Citada como referência pela CNM, a Comunidade Terapêutica Pública Reviver, de Cachoeirinha, é um antigo sonho do atual prefeito Luiz Vicente da Cunha Pires. Dependente químico durante 16 dos seus 49 anos, Pires experimentou o despreparo do Estado para lidar com viciados em crack, droga que usou por três anos. Confira sua entrevista:

Zero Hora – Como o senhor conseguiu abandonar a dependência?

Luiz Vicente da Cunha Pires – Havia a possibilidade de me internar no hospital Espírita, em Porto Alegre, ou numa comunidade terapêutica, em Montenegro. Fui para o hospital, mas três dias depois decidi sair. Não era o que eu buscava. Então, procurei a comunidade terapêutica. Nove meses depois, em 1996, saí desintoxicado.

ZH – Qual a deficiência do poder público para recuperar drogados?

Pires – Não ofertar para o usuário de crack leitos suficientes para tratar a dependência. O Estado teoriza demais e oferece poucos leitos.

ZH – Como nasceu a Comunidade Terapêutica Pública Reviver?

Pires – Eu era responsável pelo “Projeto de Cara Limpa”, criado em 2002, que tratava da internação pelo município em comunidades terapêuticas por meio da compra de vagas. Enquanto fazíamos esse atendimento, nos organizávamos para criar uma comunidade pública, bancada pelo município.

ZH – Como funciona a comunidade?

Pires – Por meio de grupos de mútua ajuda espalhados no município, os usuários são encaminhados para a rede de atendimento que, por fim, encaminha para a comunidade terapêutica. Há 30 vagas para homens (jovens e adultos) que podem ficar até nove meses internados.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Venho defendendo a criação de Centros Públicos de Tratamento de Dependências e Distúrbios mentais em municípios sede de micro-regiões com investimentos pesados do poder público. O Estado não ser omisso e negligente deixando as ONGs tratarem sozinhas assuntos tão sérios como são as questões das drogas e dos distúrbios mentais que podem levar uma pessoa se aliciada pelo crime, cometer crimes hediondos ou realizar ações terroristas.

OBSERVATÓRIO DO CRACK

Observatório do Crack entra em ação. Site funcionará como banco de dados público para difundir experiências - ZERO HORA 27/04/2011

Os municípios têm, a partir de hoje, um espaço para trocar informações e boas práticas de enfrentamento ao crack. Lançado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), o Observatório do Crack – uma iniciativa inédita no país – servirá como banco de dados, alimentado pela sociedade e por órgãos públicos e privados.

O ponto de partida para o lançamento do observatório foi a pesquisa sobre a situação da droga nos municípios brasileiros, realizada em novembro de 2010, que constatou o alcance nacional do problema, disseminado em todas as regiões.

A investigação aferiu o consumo ou a circulação do crack em 98% das cidades do país.

O Observatório do Crack busca acompanhar a evolução nos municípios, as ações desenvolvidas, os investimentos realizados e os resultados alcançados pelos gestores.

Observatório do Crack pode ser acessado pelo site: http://www.cnm.org.br/crack/

domingo, 24 de abril de 2011

SEM LIMITES

Sem Limites (Limitless) é um filme muito ruim. A história envolve um escritor fracassado que passa a se drogar com uma “pílula” ilegal, adquirindo condições excepcionais de inteligência e capacidade física. O sujeito, então, sem esforço, se transforma em um “vencedor”. Fica milionário, seduz as mulheres e entra, triunfalmente, na política. O argumento sustenta o mito de que “usamos apenas 20% das capacidades de nosso cérebro”. A nova droga permitiria o uso de 100% da capacidade cerebral (a propósito: cientistas como James Kakalios afirmam que usamos 100% de nosso cérebro em diferentes momentos e que se 100% de nossos neurônios fossem “ligados” simultaneamente todo o oxigênio disponível seria consumido e o indivíduo provavelmente morreria).

Bobagens à parte, Sem Limites é um filme de inspiração fascista que renova a noção de “seres superiores” – capazes de derrotar impiedosamente a todos em um mundo avesso à solidariedade – e que vincula a promessa de uma “super-humanidade” à indústria farmacêutica. Claro, a droga é perigosa e pode matar; mas o protagonista sabe o que faz e termina encontrando a “dose certa”, garantindo suprimento para o resto da vida. Em síntese: se o tráfico de drogas estivesse na bolsa, suas ações teriam aumentado muito depois desse filme.

Uma rápida menção em uma palestra na UFRGS, sugerindo política mais tolerante com relação à maconha, rendeu ao governador Tarso Genro críticas contundentes. Reinaldo Azevedo (da Veja, claro) chegou a sugerir sua cassação. Silvio Holderbaum escreveu em ZH artigo com o criativo título (especialmente para um publicitário) “Em boca fechada não entra mosca”, criticando o governador, entre outras coisas, por ter se referido ao seu tempo de luta clandestina. Para o articulista, isto seria “um modo sutil de dizer que vivia fora da lei”, concluindo: “ou será que traficantes, assassinos e outros fora da lei também não vivem na clandestinidade?”. Uau! Tarso Genro se referiu à luta clandestina contra a ditadura militar. Uma época em que a “legalidade” era ilegal, fonte de usurpação perpetrada por golpe de Estado. Uma “legalidade” contra as eleições diretas, contra a liberdade de expressão e contra as garantias individuais. Bem, é claro que as pessoas têm o direito de usar apenas 20% de sua capacidade cerebral, mas chama a atenção o que há de desproporcional nas críticas.

Observe-se: o governador não defendeu a legalização da maconha. Afirmou que uma política de drogas não deve tratar a maconha da mesma forma como a heroína ou o crack. Posição que, aliás, é política pública em quase toda a Europa Ocidental e, mais recentemente, mesmo em alguns países sul-americanos. Detalhe: quem defende a descriminalização da maconha é o ex-presidente Fernando Henrique. Ao lado dos também ex-presidentes César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), FHC tem afirmado que, para além dos eventuais malefícios à saúde, é preciso repensar a política criminal por conta dos efeitos muito mais perversos do proibicionismo. A começar pelo tráfico, claro. Posição com a qual estou de pleno acordo. Mas Fernando Henrique não foi, não é e não será criticado por conta desta posição. Todos sabemos a razão. A escolha de Tarso pelos críticos, assim, diz muito mais sobre eles do que sobre o governador.



*MARCOS ROLIM, JORNALISTA

A MACONHA NO PODER

A medíocre constelação de políticos que nos governa só não é pior nem se exaure nas trevas porque nela despontam algumas estrelas com luz própria, em condições de apontar caminhos. Entre nós, por exemplo, Tarso Genro foi sempre uma dessas escassas figuras lúcidas e sóbrias, capazes de entender o futuro a partir das lições do passado para interpretar o cotidiano. Por isto, foi visto como aglutinador e elegeu-se por folgada maioria absoluta.

Mas, o que dizer quando o governador Tarso Genro, ao proferir a aula magna da UFRGS, faz a defesa (quase apologia) do uso da maconha e, entre risos e aplausos, tece uma frase digna da antologia da tolice: “Nunca vi uma pessoa matar por ter fumado um cigarro de maconha!”.

E quem fuma cigarro de tabaco, mata? Por isso se restringe o tabaco ou se proíbe a propaganda na TV e rádio?

Se fosse conversa em roda de bar em fim da tarde, nada a objetar. Pode-se dizer que nunca vimos ninguém matar por beber cerveja e que o alcoolismo do “happy hour” não oferece perigo letal. No entanto, aula magna de Universidade é outra coisa: busca transmitir e amalgamar conhecimento. Ali, não se opina por opinar, nem se está num comício em busca de votos, mas tentando aprofundar teses num nível científico e inteligível.

***

Os “bixos” (ansiosos em conhecer o saber novo da Universidade) o que assimilarão para o futuro ao ouvirem o governador dizer que, na mocidade, só não usou maconha por questão de segurança, pois eram tempos de clandestinidade na ditadura, mas que sabe que a Cannabis “é muito saborosa”??

O uso das drogas é tema candente e é perverso não apenas por seu “componente econômico”, que chega ao poder e à política, como sustenta o governador. A perversão vai muito além e é inumana porque a droga afeta e degrada o sistema cerebral, em maior ou menor grau. A droga é a única doença que se semeia, que se vende e se compra. Sua maldade intrínseca é ser o oposto à beleza da vida. Ao viciar, subjuga e escraviza e, assim, se opõe aos princípios da liberdade humana, da iniciativa pessoal e do livre-arbítrio.

Não entendo como o lúcido Tarso Genro escorregou nessa casca de banana e sustentou a falácia trôpega (típica de “happy hour”) de que “muitos especialistas dizem que a Cannabis sativa faz menos mal do que o cigarro”. Estes “especialistas” em nada se especializaram e ignoram que a maconha entorpece o raciocínio, torna tudo lerdo, retarda a volição e a libido.

E, pior ainda, é porta de entrada ou caminho de passagem para “subir” às drogas pesadas, como heroína ou cocaína. Ou para “descer” à crueldade do “crack”.

***

O cidadão Tarso Genro tem suficiente formação intelectual para pensar e agir como queira, consultando apenas suas inclinações. Proferiu a aula magna, porém, na condição de governador estadual e, como tal, deve ser intérprete da coletividade que governa e à qual está subordinado. Pretender o contrário (que os governados se subordinem ao governante) seria voltar à carcomida ditadura. E ele (que, como muitos de nós, se opôs aos tempos ditatoriais) sequer imagina esse absurdo.

Para marcar o fim dos preconceitos e dos absurdos, foi elucidativo que tenha citado Marx e Heidegger para falar de democracia e República. Mas foi penoso ouvi-lo dizer que não tem “nenhum preconceito” com as drogas.

Brutal é ter preconceito ou discriminar o usuário da droga, vítima num processo escabroso. Mas entre a perversão e a vida, não há escolha. A não ser que se dê todo o poder à maconha...

*FLÁVIO TAVARES, JORNALISTA E ESCRITOR

sexta-feira, 22 de abril de 2011

UNIVERSITÁRIO TRAFICAVA LSD E ECSTASY EM SHOPPING

FESTA FRUSTRADA. Universitário traficava LSD e ecstasy em shopping - ZERO HORA 22/04/2011

Uma informação impediu, na noite de quarta-feira, que mais uma festa fosse regada a LSD e ecstasy em Porto Alegre. Informados de que a droga seria entregue por um traficante no estacionamento de um shopping na Avenida Assis Brasil, na zona norte da Capital, por volta das 23h, agentes do Denarc chegaram a um homem de 20 anos com o produto em um automóvel Renault C3, preto. O nome do suspeito foi preservado pela polícia.

Com o jovem, um estudante de Análise de Sistemas em uma faculdade de Porto Alegre, os policiais encontraram 50 pontos de LSD e 10 comprimidos de ecstasy. De acordo com o delegado Márcio Moreno, a venda da droga poderia render até R$ 5 mil.

– Tínhamos a informação de que a droga chegaria àquele local e prendemos um dos suspeitos, mas a operação não está encerrada. Estamos apurando o circuito dessas drogas, que são as mais difíceis de se apreender, aqui no Rio Grande do Sul – explica o responsável pela investigação.

O jovem foi abordado quando desceu do carro e autuado em flagrante. A polícia não esclarece para qual festa a droga iria. No ano passado, duas entregas semelhantes foram interceptadas pelo Denarc no mesmo local. Nas duas vezes, porém, foi deixado crack por traficantes em carros estacionados naquele local.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A SAÚDE MENTAL DESASSISTIDA

A história das doenças mentais é tão antiga quanto a própria humanidade. Desde sempre, algumas pessoas apresentam formas peculiares de pensar, expressar emoções e comportamentos que se caracterizam por condutas estranhas e bizarras. Nos casos extremos, tornam-se até perigosas em relação ao seu próprio bem-estar e/ou das pessoas com quem convivem – familiares e sociedade em geral. Quando o comportamento delas mostra-se excessivamente inadequado e desconectado do senso de realidade comum, o convívio social em suas próprias famílias torna-se insuportável.

Como as crianças pequenas, os doentes mentais graves necessitam cuidados básicos em relação à sua rotina, higiene, alimentação, segurança e hábitos em geral. Do ponto de vista médico e psicológico, é fundamental o tratamento adequado e permanente. Muitas vezes, ao contrário dos outros doentes, que quando sentem algum problema significativo procuram alívio para seu sofrimento, os doentes mentais graves não se consideram doentes e, portanto, julgam ser desnecessária a ajuda especializada.

Nos últimos 20 anos, em diversos países do mundo, decidiu-se que o hospital psiquiátrico era o grande vilão em relação aos problemas inerentes à assistência em saúde mental. No caso específico do Brasil, aproximadamente 80 mil leitos psiquiátricos foram fechados sem que a necessária contrapartida de atendimento ambulatorial fosse construída a tempo suficiente de minimizar as consequências negativas de uma política dessa magnitude. Em vez de qualificar os hospitais existentes e também as equipes de profissionais envolvidas na tarefa de cuidar, sobretudo dos doentes mentais graves, decretou-se reformar todo o sistema.

Recentemente, o estudo intitulado Mapa da Violência, realizado pelo Instituto Sangari e pelo Ministério da Justiça do Brasil, revelou que o número de suicídios no Brasil, entre os anos 1998-2008, subiu 33,5%. Estima-se que mais de 95% dos suicídios se relacionam com as doenças mentais. A epidemia de dependentes de crack é um problema significativo de saúde pública que apresenta diversos fatores na sua origem, mas, sem dúvida, um dos principais determinantes é a dificuldade no acesso ao tratamento das doenças mentais. O aumento progressivo do número de moradores de rua nos grandes centros urbanos, desde o início dos anos 1990, é um fenômeno preocupante, que coincide no tempo com a mudança acima mencionada e, surpreendentemente, muito pouco acontece em sentido contrário.

O massacre de estudantes ocorrido no último dia 7 de abril, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro, foi conduzido por uma pessoa doente mental grave. Wellington Menezes de Oliveira vivia isolado com seus pensamentos delirantes, dominado por uma insanidade, completamente desassistido em sua saúde mental. As consequências da ausência de tratamento médico e psicológico dos doentes mentais graves são perturbadoras e cada vez mais onerosas para a sociedade.

FERNANDO LEJDERMAN, MÉDICO PSIQUIATRA - ZERO HORA 21/04/2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

TRATAMENTO - HOSPITAL OFERECE OFICINAS DE ARTE

COMBATE À PEDRA. Arte para ajudar na luta contra o crack - ZERO HORA 19/04/2011

Hospital Conceição oferece oficinas, além do tratamento médico a viciadas
No início de fevereiro, uma adolescente de 16 anos, grávida, decidiu procurar ajuda após fumar a última pedra de crack da porção que havia roubado de um namorado, que vendia a droga.

Há dias sem dormir, ela procurou o Conselho Tutelar, que a encaminhou à Unidade de Internação Psiquiátrica para Adolescentes do Hospital Conceição (HC), em Porto Alegre. Hoje, no oitavo mês de gestação, ela e outras cinco jovens entre 13 e 16 anos estão desintoxicadas e se preparam para seguir o tratamento contra o vício em outros centros.

O trabalho feito no HC é a fase inicial de uma terapia diária que pode levar anos. Conforme a psiquiatra da Infância e da Adolescência Fernanda Krieger, as pacientes passam cerca de duas semanas em desintoxicação, e tomam sedativos para controlar a abstinência. Ao longo do tratamento, a medicação vai sendo reduzida:

– O acompanhamento médico, psicológico e ocupacional dá conta da complexidade do tratamento contra o crack. As atividades que fazemos mostram às pacientes que elas podem se sentir bem sem estar medicadas – explica Fernanda, para quem as oficinas de arte permitem que as meninas desenvolvam um talento que talvez nem saibam que tenham.

Na tarde de ontem, membros do Núcleo Urbanoide ministraram uma oficina de grafite para as seis pacientes, que pintaram as paredes da sala de convivência da Unidade de Internação Psiquiátrica para Adolescentes. Animadas, cantavam enquanto pincelavam o fundo da pintura que receberia figuras de flores e outras formas.

De acordo com a terapeuta ocupacional Nátali Pfluck, as conversas, atividades manuais e de convivência ajudam asgarotas a retomar o que foi deixado de lado em razão do vício:

– Elas reaprendem coisas da vida cotidiana para cuidarem de si mesmas.

Depois que der à luz, a jovem de 16 anos deve ser transferida para uma comunidade terapêutica, onde se ocupará cuidando da filha e de si mesma:

– Não vejo a hora de ela nascer.