COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

REFÉNS DO VÍCIO - BANDO EXTORQUIA USUÁRIOS DE DROGAS

Operação que mobilizou cem policiais prendeu homem apontado como chefe do tráfico em bairro violento de São Leopoldo - LETÍCIA BARBIERI | VALE DO SINOS/CASA ZERO HORA, ZERO HORA 18/05/2011

Com um aparato montado com cem policiais, três cães farejadores e botes, a Polícia Civil deflagrou ontem, no Vale do Sinos, a operação Reconquista 6 e acredita ter prendido o chefe do tráfico de drogas do bairro Vicentina, um dos mais violentos de São Leopoldo. Conforme apurou o delegado Alencar Carraro, titular da 3ª Delegacia da Polícia Civil de São Leopoldo, Jurandi da Conceição, 35 anos, se apresentava como empresário, mas por trás de duas lojas administrava também um esquema fazendo com que usuários vendessem drogas para sustentar o próprio vício.

– Ele se utilizava da situação degradante dessas pessoas para que praticassem a venda das drogas e produtos de origem ilícita. Em outros casos, a quadrilha ficava com bens deles e depois extorquia. A gente sabe como é, o viciado chega lá e, se não tem dinheiro, deixa qualquer coisa de garantia – detalha o delegado.

Foi uma dessas vítimas que levou os policiais a identificar o esquema. Em troca de drogas, um usuário deixou a motocicleta e depois passou a ser extorquido para tê-la de volta. Denunciou o caso na Polícia Civil e acabou revelando uma rede de extorsão, venda de drogas, cigarros contrabandeado, CDs e DVDs falsificados.

– Assim chegamos nesse indivíduo que controlava o tráfico. Quatro ou cinco pessoas distribuíam a droga para ele em 15 bocas de fumo, sempre em poucas quantidades para que, se fossem flagrados, passassem por usuários e não traficantes – conta o delegado.

Com antecedentes por tráfico, em liberdade condicional, Conceição foi preso ontem com nove integrantes da quadrilha. Outras três pessoas já haviam sido detidas na última semana. Cerca de 500 CDs e DVDs, 50 maços de cigarro do Paraguai, dois carros, duas armas e R$ 11 mil foram apreendidos com a quadrilha em uma operação que envolveu policiais civis e militares, guardas municipais e bombeiros.

Um bote foi usado na operação para chegar até um casebre localizado nas margens do Rio dos Sinos. Segundo a polícia, era o local onde a quadrilha armazenava a droga, mas nada foi encontrado. Apenas algumas pedras de crack foram apreendidas na operação.

A Operação Reconquista 6 dá continuidade ao plano de ações da Polícia Civil nas regiões conflagradas do Vale do Sinos para restabelecer a paz nas comunidades. O delegado regional, Bolivar Llantada, estima que 40% do número dos homicídios já tenha diminuído na região nos últimos dois meses.

O ESQUEMA

- Conforme a Polícia Civil, Jurandi da Conceição liderava uma quadrilha de tráfico de drogas e uma rede de extorsão, no bairro Vicentina, em São Leopoldo. Sem tocar diretamente na droga, ele administrava o esquema liderando cinco pessoas de sua confiança.

- A droga era distribuída entre 15 bocas de fumo da região. Usuários recebiam pequenas quantidades para vender, para caracterizar uso pessoal em caso de flagrante. Em troca de drogas, alguns deixavam bens como carros e motos – depois, eram extorquidos para ter o bem de volta.

- Atrás de um bazar e uma funilaria, Conceição se apresentava como empresário, mas era visto todos os dias nas bocas de fumo negociando e dando ordens. Imagens foram feitas pela polícia e serão anexadas ao inquérito.

- Os presos foram encaminhados ao Presídio Central e à Penitenciária Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre.

OS NÚMEROS

- Cerca de cem homens entre policiais civis, militares, guardas municipais e bombeiros do Vale do Sinos se reuniram, em São Leopoldo, para cumprir 22 mandados de busca e apreensão e quatro de prisão.

- Duas pessoas foram detidas por mandados de prisão temporária e oito em flagrante com armas, munições e cigarros contrabandeados. Desde a semana passada a polícia soma 13 prisões e R$ 11 mil recolhidos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

OXI, UMA DROGA AINDA PIOR


O oxi – uma pedra tóxica feita com cal, gasolina e pasta de cocaína – se espalha pelo país e assusta as autoridades mais que o crack - HUMBERTO MAIA JUNIOR, COM RODRIGO TURRER - REVISTA ÉPOCA, 14/05/2011

Pedro tinha 8 anos quando começou a fumar maconha. Aos 14, experimentou cocaína. Com 19, foi apresentado ao crack. “Eu fumava cinco pedras e bebia até 12 copos de pinga.” Em janeiro deste ano, seu fornecedor de drogas, em Brasília, passou a oferecer pedras diferentes, com cheiro de querosene e consistência mais mole. Pedro estranhou. “Dizia a ele que a pedra estava batizada, que não era boa. O cara me dizia que era o que tinha e ainda me daria umas (pedras) a mais.” Não demorou para Pedro notar a diferença no efeito. A nova pedra era mais viciante. Para não sofrer com crises de abstinência, dobrou o consumo para até dez pedras por dia. Descobriu então que, em vez de crack, estava fumando uma droga chamada oxi. “Quando soube, vi que estava botando um veneno ainda maior no meu corpo. Fiquei com medo de morrer.” Aos 27 anos, depois de quase duas décadas de dependência química, Pedro sentiu que tinha ido longe demais. Internou-se numa clínica.

A história de Pedro (nome fictício) ilustra o terror provocado pelo oxi, droga que está se espalhando rapidamente pelo Brasil. O oxi está sendo tratado pelos médicos como algo mais letal que o crack, considerado até agora a mais devastadora das drogas. Mas é consumido por pessoas que não sabem disso, porque é vendido em bocas de fumo como se fosse crack. “O oxi invadiu os postos de venda tradicionais. Isso preocupa”, diz o delegado Reinaldo Correa, titular da Divisão de Prevenção e Educação do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil de São Paulo.

A primeira apreensão confirmada do oxi em São Paulo ocorreu quase por acaso. Em março, a polícia apreendeu 60 quilos de algo que foi classificado como crack. O equívoco foi corrigido quando esse carregamento foi usado numa demonstração para novos policiais. “Queimamos algumas pedras e, pelos resíduos, concluímos que era oxi”, afirma Correa. Quase diariamente, a polícia de algum Estado do Brasil anuncia ter apreendido a droga pela primeira vez (leia o mapa abaixo) . Em alguns casos, como em Minas Gerais, Bahia, Paraná e Rio Grande do Sul, as primeiras apreensões foram feitas na semana passada. Não é que o oxi surgiu em tantos lugares em tão pouco tempo. Ele já havia se espalhado sem ser notado.

Como o crack, o oxi é vendido em pedras que, quando queimadas, liberam uma fumaça. Inalada, em poucos segundos vai para o cérebro, provocando euforia e bem-estar. “Visualmente, são quase idênticas”, diz Correa. A diferenciação pode ser feita pela fumaça, que no caso do crack é mais branca, ou pelos resíduos: o crack deixa cinzas, enquanto o oxi libera uma substância oleosa. Por causa da dificuldade em distinguir uma droga da outra, é impossível ter exata noção da penetração do oxi entre os usuários. “Sabemos apenas que ele está aqui há algum tempo”, afirma Correa.

Recente nos Estados mais ao sul do país, o oxi é velho conhecido dos viciados da Região Norte. Acredita-se que a droga entrou no Brasil ainda na década de 1980, a partir de Brasileia e Epitaciolândia, cidades do Acre que fazem fronteira com a Bolívia. O consumo da substância foi registrado por pesquisadores em 2003, quando Álvaro Mendes, vice-presidente da Associação Brasileira de Redução de Danos (Aborda), pesquisava o uso de merla, outro derivado da cocaína, entre os acrianos. “No primeiro momento, o oxi era usado pelas classes sociais mais baixas e por místicos que iam ao Acre atrás da ayahuasca (chá alucinógeno usado em cerimônias do Santo Daime)”, diz Mendes. A droga chegou à capital, Rio Branco, de onde se espalhou para outros Estados da região. “Hoje, é consumida em todas as classes sociais”, diz Mendes.

A dentista Sandra Crivello se lembra de quando viu o primeiro caso de dependência por oxi em São Paulo. Foi no fim do ano passado, quando recebeu uma ligação de uma Organização Não Governamental (ONG) que faz atendimento a jovens viciados em drogas. Queriam que ela atendesse um rapaz com problemas na boca. Encontrou o paciente na porta da ONG. A imagem do rapaz chocou Sandra, que há mais de 20 anos atende meninos de rua viciados. Loiro, pele branca e aparentando 20 anos, chocava pela magreza e pelo cheiro quase insuportável de vômito e fezes. “Ele estava em condição de torpor, parecia viver em outro mundo.”

– Foi você que veio me ver? Olha, está doendo muito – disse o rapaz, chorando, antes de puxar os lábios com força exagerada. Sandra não se esquece do que viu. “Tinha até osso necrosado.” Perguntou ao rapaz:

– O que você usou? Não vem me dizer que é crack que eu sei que não é.
– Eu bebi.
– Bebida não é. O que você usou?
– Foi oxi.

Sandra, que já tinha ouvido falar do oxi, diz que respirou fundo. “Agora que essa porcaria chegou aqui, não falta mais nada. Só pedi que Deus nos ajudasse.” Como Sandra, vários profissionais que têm contato com o mundo das drogas temem que o oxi tome o lugar do crack. Motivos não faltam, da facilidade de fabricação ao preço baixo. O crack é feito com pasta-base de cocaína, misturada com bicarbonato de sódio e um solvente, que pode ser éter ou amoníaco. É difícil obter grandes quantidades dessas substâncias, porque a venda é controlada pela Polícia Federal. Já o oxi é feito com pasta-base de coca misturada a cal virgem e a gasolina ou a querosene. “O refinamento do crack demanda uma cozinha e um processo laboratorial mais complexo”, diz Ronaldo Laranjeira, coordenador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Para fabricar o oxi, basta misturar a pasta-base com um derivado de petróleo em qualquer panela. Pode ser feito no fundo de um quintal.” O resultado é que os traficantes podem cobrar preço menor. Se uma pedra de crack custa ao viciado entre R$ 7 e R$ 10 na “cracolândia”, região central de São Paulo onde usuários e traficantes circulam livremente dia e noite, a pedra de oxi sai por cerca de R$ 2. Esse valor torna a droga acessível a um público muito maior. “Dependentes buscam o que é mais barato”, diz Luiz Alberto Chaves de Oliveira, chefe da Coordenadoria de Atenção às Drogas da Prefeitura de São Paulo. Também procuram o que tem efeito mais forte e mais rápido. O oxi, ao que parece, atende a essas necessidades. E tem tanto ou mais poder de viciar que o crack. “O oxi parece gerar ainda mais dependência. É potencialmente mais forte que o crack, que já é muito destrutivo”, diz Cláudio Alexandre, psicólogo do Grupo Viva, que atende dependentes de drogas.

O agente penitenciário André (nome fictício), de 34 anos, morador de Rio Branco, no Acre, conhece bem os efeitos do oxi. “Quem usa chama de veneno”, diz. Como todo veneno, é traiçoeiro. André descreve o gosto da fumaça como algo “gostoso”. “Pega mais, dá uma viagem.” Não demora e surgem os efeitos adversos – dor de cabeça, vômitos e diarreias. E paranoia. André diz que ouvia vozes. “Era o demônio falando no meu ouvido.” Os efeitos também são físicos. “Via muitos usuários sujos de vômito e diarreia.” Mesmo assim, André não conseguia abandonar o uso. Vendeu o que tinha para comprar pedras. “Pedia aos boqueiros (quem trabalha nas bocas de fumo) que passassem na minha casa e pegassem tudo.” Geladeira, fogão, DVD, um a um, todos os móveis e eletrodomésticos foram trocados por pedras brancas. “Só não troquei a vida”, diz André, que está internado numa clínica ligada a uma ONG em Rio Branco. Ele afirma que só buscou tratamento porque, desempregado, não tinha mais dinheiro para abastecer o vício.

Paulina Duarte, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), diz que o governo federal está avaliando o impacto do oxi. Junto com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Senad está finalizando uma pesquisa sobre o uso de derivados de cocaína no país. O estudo incompleto sugere que, pela facilidade com que é produzido, o oxi pode subverter a lógica usual do tráfico. “Não há um fornecedor fixo que distribui um só produto”, diz Paulina. “A droga é produzida em casa, de forma primitiva e artesanal.” Uma nova organização do tráfico poderia exigir uma mudança na forma de repressão policial. “Para combater o oxi, não temos de caçar apenas grandes traficantes”, afirma Paulina. “Precisaremos de uma polícia ativa, que atue diretamente nos pontos urbanos.”

Também é preciso que o serviço de saúde tenha exata noção das substâncias que compõem o oxi, a fim de entender seus efeitos e propor tratamento adequado. Por enquanto, faltam estudos laboratoriais que atestem a composição da substância. Na década de 1980, a Alemanha queria montar uma política para diminuir as mortes provocadas por overdose de heroína. Descobriu-se que o que estava matando era uma versão da droga com aditivos. Somente a partir dessa constatação o serviço de saúde organizou a melhor forma de tratamento. O Brasil suspeita, mas não tem certeza, do que é feito o oxi. Saber é o primeiro passo de uma longa batalha contra a nova droga.


APENADOS DO RS RECEBERÃO TRATAMENTO

Presídio Central abre ala para dependentes. Em projeto pioneiro no Estado, área terá capacidade para receber até 90 detentos usuários de drogas - ZERO HORA 17/05/2011

Os presidiários dependentes químicos terão a partir desta semana três chances de tratamento, antes de voltarem ao mundo da legalidade. A nova etapa fica no Presídio Central de Porto Alegre, que deve inaugurar até o final da semana uma ala destinada a dependentes de drogas.

A primeira já existe desde 2007 e fica no Hospital Vila Nova, onde passam por desintoxicação, internados durante 21 dias, numa enfermaria com 18 leitos. A terceira etapa de tratamento, após a do Presídio Central, deverá ser no semiaberto.

O Pavilhão E do Presídio Central abriga a nova área que terá capacidade para receber até 90 detentos. Para ali serão encaminhados os que passaram pela desintoxicação na fase hospitalar. Esses presidiários não terão contato com os demais apenados. Ficarão em separado, com tratamento ministrado por uma equipe especializada, composta por psiquiatras e psicólogos.

Ontem uma comitiva composta por promotores, policiais, integrantes do sistema penitenciário e especialistas em drogadição visitou o Central para conhecer as obras do setor destinado aos dependentes de drogas. Falta concluir a pintura e instalar beliches no local, tarefas que devem ficar prontas quinta-feira.

Numa primeira etapa, serão tratados apenas 14 detentos, selecionados dentro de um grupo que ocupa hoje leitos no Hospital Vila Nova, da ala de desintoxicação dos dependentes químicos. Depois, a nova ala do Presídio Central será ocupada gradualmente.

Semiaberto também deve fazer parte de tratamento

A terceira etapa de tratamento será no semiaberto, adianta o chefe da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe), Gelson Treiesleben.

– O projeto do Central é pioneiro no Estado. Começaremos com os 14, e vamos expandir, inclusive para o regime semiaberto – relata Treiesleben.

O escolhido é o Albergue Miguel Dario, em Porto Alegre, onde uma ala já está designada. Falta instalar água e luz no local.

Integrante da comissão de Execução Criminal do Ministério Público, encarregada de zelar pelos direitos dos presos, a promotora Cynthia Jappur comemora a abertura da ala no Presídio Central e a promessa da ala no semiaberto. Mas pede mais.

– Queremos locais de tratamento também para os presos do aberto. A questão das drogas se mostra com todo seu rigor no sistema penitenciário. Quanto mais tratarmos, menos problemas a sociedade terá com esses detentos – pondera.

A abertura da ala para tratamento de dependentes químicos não implica em reabertura do Hospital Penitenciário, fechado nos Anos 90, enfatiza a Susepe. É apenas um local de resguardo de doentes.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Parabéns aos idealizadores da idéia. Já estava na hora desta providência se tornar realidade. O crescendo do consumo de drogas em todo o Brasil exige ação de Estado. Uma das medidas essenciais para deter esta epidemia é a construção de Centros de tratamento de Dependências em micro-regiões para receber as pessoas dependentes e prestar assistência e orientação aos familiares. Hoje, diante do descaso do Estado, proliferam iniciativas privadas, muitas sem capacidade e organização, oportunizando fraudes e erros.

DROGAS ENCURRALAM ESCOLAS

VIZINHANÇA PERIGOSA. Em busca de clientes ou de alvos fáceis para assaltos, viciados e traficantes se aproximam de colégios da Região Metropolitana - RENATO GAVA, ZERO HORA 17/05/2011

De um lado do muro, crianças jogando futebol no pátio da escola municipal. Do outro, a 20 metros do recreio, três viciados. Mães e filhos passam pela rua quando o trio puxa dos bolsos cachimbos improvisados e começa a tragar o crack. As mulheres só aceleram o passo.

Acena testemunhada pela reportagem do jornal Diário Gaúcho no Colégio Liberato Salzano Vieira da Cunha, no bairro Sarandi, zona norte da Capital, é comum em escolas públicas da Região Metropolitana, principais alvos dos traficantes atualmente. Dos alunos, os traficantes aproveitam tudo. São clientes para as drogas e, ainda, presas fáceis para viciados, de quem roubam seus celulares, tênis e material escolar para trocar por crack.

Diretora do colégio, Cleusa Leppa assegura que o Liberato é um colégio sem grande problemas de violência. Mas reconhece que a presença de usuários ao redor tem sido constante:

– Desde janeiro esses (viciados) ficam ali, no muro. A Brigada Militar já os prendeu, mas eles foram soltos e voltaram. Ficamos de olho neles.

– Isso não é nada. No intervalo das aulas, sobretudo à noite, tem traficante que pula o muro, oferece droga a quem quiser pegar – relata uma aluna de 16 anos.

Cleusa admite que o problema ocorreu, mas poucas vezes:

– Não temos problema de invasão. Alguns eram ex-alunos e foram retirados. É o que fazemos sempre que percebemos que há, no pátio, alguém que não é aluno.

O convívio perigoso entre traficantes, viciados e estudantes se repete na Zona Sul. Há dois anos, a dona de casa Elaine Santos, 36 anos, passou a buscar a filha de 12 anos. Sempre às 18h, ela e outras mães, que tempos atrás esperavam tranquilas pelos filhos em suas residências, hoje se encontram no portão da escola.

Não é o caminho de poucos quarteirões até em casa que as preocupa. Elas não querem é que filhos e filhas sejam abordadas no entorno da escola.

– Eles respeitam quando ela está comigo. Só não sei até quando – lamenta a mãe.

No Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini, uma mãe conta que, quando não pode levar a filha de 14 anos à escola, prefere que ela não vá.

– Fico com o coração na mão. Todo mundo aqui sabe dos traficantes, eles desfilam. A escola não deixa eles entrarem, mas eles esperam os guris saírem – conta a doméstica de 33 anos.

Na semana passada, a Brigada Militar prendeu um viciado de 22 anos que admitiu ter realizado 10 assaltos ao redor das escolas Ildo Meneghetti e Alberto Pasqualini, ambas na Restinga. Como não foi pego em flagrante, o rapaz foi solto. O delegado Luciano Coelho está concluindo os inquéritos e poderá pedir sua prisão preventiva.

– Eu disse para ele separar algumas roupas e voltar para cá no dia seguinte, pois o levaríamos a uma clínica. Chegamos a ajeitar as coisas, mas ele não apareceu e, dois dias depois, temos quase certeza que cometeu outro furto, contra um vizinho – relata o chefe de investigações da 16ª Delegacia da Polícia Civil, Sérgio Lopes.

Falta de dados dificulta ações das autoridades

Embora as autoridades reconheçam o problema da proximidade entre escolas e tráfico de drogas, não existe, oficialmente, nenhuma verba ou programa exclusivo para combatê-lo. Os criminosos sabem disso, e estão aproveitando.

A Secretaria Estadual de Educação, por meio de sua assessoria, divulgou que o órgão não sabe a quantidade de drogas e de drogados apreendidos nos estabelecimentos de ensino.

Das 2.554 escolas estaduais gaúchas, apenas 27 (1%) têm seguranças armados, contratados pela gestão anterior do governo e que só estão em atividade porque seus contratos seguem em vigor. Quando o prazo terminar, o serviço não será renovado.

Na Capital, dos 986 estabelecimentos de ensino público, 68 (6%) têm o projeto PM residente – policiais que moram na escola. Em outros 32, militares da reserva, voluntários, participam de rondas. Os demais colégios dependem de rondas esporádicas de policiais pela vizinhança.

– A segurança dos colégios é uma de nossas prioridades. Mas o ambiente escolar é um alvo de traficantes, que querem esse público para vender as drogas – admite o responsável pelo Comando de Policiamento da Capital, coronel Atamar Cabreira.

Conforme dados da Brigada, 26% dos presos por furto têm antecedentes por posse de drogas. Um crime leva ao outro.

– Quem usa seis pedras ao dia precisa de R$ 1,8 mil para sustentar o vício. Ele vai a campo, começa a fazer pequenos furtos – raciocina o coronel.

Ontem, policiais civis da 2ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) prenderam dois homens que vendiam drogas em frente a uma escola no centro de São Leopoldo.

De acordo com o delegado Rodrigo Zucco, trata-se de uma nova ação do departamento chamada Anjos da Lei. Em vigor desde a semana passada, ela visa a coibir o tráfico no entorno de locais onde há aglomeração de jovens, como escolas e praças.

domingo, 15 de maio de 2011

O ALERTA DE QUEM ENFRENTOU O "OXI"

ENTREVISTA. “O óxi não dá chance”. Denivaldo Kleper, técnico em redução de danos no Acre, um dos primeiros Estados a detectar a droga - MARCELO GONZATTO, zero hora 15/05/2011

O Rio Grande do Sul, um dos mais recentes Estados a detectar a chegada da nova droga chamada óxi, tem uma dura lição a aprender com a primeira região do país a testemunhar a devastação provocada pela mistura de cocaína, cal e querosene. No Acre, distante cerca de 4 mil quilômetros, o entorpecente mais barato e destrutivo do que o crack já faz vítimas, impulsiona a criminalidade e desafia os serviços de saúde há mais de uma década.

Confinado à Região Amazônica até poucos meses atrás, o óxi iniciou sua jornada rumo às demais regiões do país com a sanha de uma fera recém-saída da jaula. Inicialmente rumou para o Nordeste, para o Centro-Oeste, chegou ao Sudeste e, agora, mostra suas garras no extremo-sul do Brasil. Por onde passou, deixou como rastro vítimas sem dentes, desorientadas, com falência de órgãos ou mortas.

Em Rio Branco, a capital acreana, a droga mais feroz de que sem tem notícia mantém como reféns crianças, adultos, homens e mulheres de diferentes classes sociais. Conforme a gerência de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) voltado para o combate a álcool e drogas da cidade, o óxi é capaz de destruir a vida de um dependente em cerca de um mês. Danos gástricos, magreza extrema e descontrole psíquico são alguns dos sintomas mais brandos de quem chega em busca de auxílio.

Quem não tem condições nem mesmo de buscar ajuda por conta própria acaba sendo atendido por especialistas como o técnico em redução de danos Denivaldo Kleper, 35 anos. Responsável por planejar estratégias que diminuam o impacto da dependência química, Kleper conhece como poucos no Brasil o estrago feito pelo óxi no corpo e na vida de seus usuários.

Trabalhando com dependentes químicos há uma década e meia, desde antes da chegada da nova droga ao Brasil, ele confessa jamais ter visto algo igual à combinação mortífera da pedra de óxi. Ao monitorar dependentes nos locais de uso, ele relata na entrevista a seguir, concedida por telefone de Rio Branco, a degradação extrema provocada pela nova ameaça que cruzou o Brasil de um salto e chegou ao Rio Grande do Sul:

Zero Hora – Quanto o óxi é mais grave do que o crack?

Denivaldo Kleper – Em relação ao uso, a pessoa se vicia mais rápido e cada vez que fuma uma pedra quer fumar mais. As diferenças vão desde a composição, que inclui gasolina ou querosene e até solução de bateria. Por isso, chega a ser mais impactante do que o crack tanto no aspecto físico quanto no aspecto mental.

ZH – Que tipo de dano é mais comum?

Kleper – Há um emagrecimento muito rápido, diarreia instantânea...

ZH – Instantânea?

Kleper – Ao usar, dá dor de barriga, e o dependente defeca na hora. Vomita também. Defeca, vomita e, mesmo assim, continua fumando. A higiene (no local) onde se fuma é horrível. Eles pegam casas abandonadas e fazem de brete, como chamamos, para usar. Acompanhei dependentes nesses lugares. Há fezes e vômito para tudo que é lado. Eles não ligam para isso, só se importam em usar e não serem perturbados.

ZH – Qual o perfil de quem usa óxi no Acre hoje?

Kleper – Começou na periferia, mas hoje já está nas classes média e alta. Aqui nós não tivemos o crack, sempre foi o óxi. E daqui saiu para o Brasil. É que o custo de uma pedra de crack fica entre R$ 5 e R$ 10, e o óxi aqui custa apenas R$ 2. O dano social é igual ao do crack, a pessoa larga a família, vive na rua, assalta, furta para fazer uso. Tem muitos que vigiam motos na rua, conseguem R$ 2 e já saem para comprar.

ZH – Há muitos relatos de casos graves e mortes?

Kleper – Em 2003, começamos a fazer uma pesquisa na região da fronteira, que finalizamos em 2005. Depois de dois anos, voltamos a procurar as pessoas que havíamos entrevistado, e muitas delas já tinham morrido pelo uso do óxi. A nossa estimativa é de que a vida de um usuário frequente dura de um a dois anos.

ZH – Morre de quê?

Kleper – Ficam debilitados demais. A droga debilita o fígado, os rins, o estômago, sem falar no risco de infarto durante o uso, porque acelera demais o coração. Também perdem os dentes, emagrecem rapidamente e sofrem delírios de não falar coisa com coisa. Há um adoecimento mental muito rápido, e não conseguem mais organizar as ideias.

ZH – É muito difícil recuperar um dependente de óxi?

Kleper – É muito difícil por causa da abstinência. O usuário fica muito temperamental e está sujeito a criar situações de violência. Leva cinco, seis segundos para chegar ao barato, mas a sensação dura pouco, vai rápido. Aí querem usar mais, mais e mais. Quanto mais usa, mais quer. Por isso, o consumo e a dependência são muito mais graves, até em comparação ao crack. Por isso, trabalhamos com a ótica de redução de danos para que o usuário possa se reinserir socialmente e se recuperar física e mentalmente.

ZH – O senhor recorda de algum caso mais marcante?

Kleper – Acompanhei um rapaz que usava diariamente. Conseguimos fazer com que parasse por dois anos, agora voltou. Ele chegou a perder as digitais dos dedos, porque queimava as mãos com a droga ao fumar e esfregava os dedos no cimento para limpar. Tem também uma garota de 13 anos, que começou a usar com 11. Hoje fui buscá-la para levar ao Caps, e todos se surpreenderam com a debilidade física dela. Aqui já está chegando até nas crianças. Não tem mais idade ou classe social. O crack ainda te dá uma chance, o óxi é muito forte, não te dá chance. Não existe quem diga que fumou uma pedra e parou. Não existe isso.

ZH – Qual o impacto social no Acre em uma década de óxi?

Kleper – O impacto é muito grande. A massa, a população de periferia, já está em condição de vulnerabilidade e, quando começam a usar, ou vão traficar, ou roubar e furtar. Se é mulher ou travesti, vai se prostituir para conseguir meios de fazer uso. O desconhecimento da sociedade em relação à droga, mesmo aqui onde ela já existe há algum tempo, contribui para marginalizar o usuário.

ZH – Há leitos disponíveis para tratamento contra o óxi?

Kleper – Há setores de desintoxicação que funcionam nos hospitais de emergência e urgência. A pessoa vem em situação de uso abusivo e entra em um quadro agudo de intoxicação. Vai para o pronto socorro, desintoxica e vai para setor de leitos, onde fica até sete dias. Mas não é o suficiente. Muitos saem desse processo e voltam direto para o uso. O trabalho que fazemos na rua serve de porta de entrada para a rede de saúde. Agora, o Caps deve passar a abrir 24 horas para poder atender as pessoas em período de crise.

ZH – O senhor trabalha há 14 anos com redução de danos, antes mesmo da chegada do óxi. Já havia visto algo parecido?

Kleper – Trabalho com usuários de drogas há 14 anos e nunca vi nada parecido. Nem droga injetável, como heroína, ou LSD, cocaína, nada. É muito impactante. Em um, dois meses, já dá para ver a diferença no usuário, tanto física quanto mental. Nunca vi nada igual.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ÓXI - ENTRE A VELHA E A NOVA PORCARIA

SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi - Entre a velha e a nova porcaria - ZERO HORA, 13/05/2011

A droga nisso tudo desculpem a redundância é que o óxi é barato. Essa nova porcaria a assolar os pulmões dos brasileiros é isso mesmo, um coquetel de químicos de fácil carburação e difícil solução, por parte das autoridades. Se com o crack já são quase nulas as perspectivas de derrotar o vício, o que dizer de seu subproduto mais terrível e menos custoso? O melhor é, como ressaltam todas as campanhas, não testar a curiosidade, não chegar perto, não mexer.

Mas quem convence viciados a não testarem uma nova droga, ainda por cima, barata? De olho no potencial de vendas e na relação custo-benefício favorável ao comerciante, os traficantes logo vão aderir a essa novidade. E as ruas, já abarrotadas de usuários de crack, agora serão infestadas por legiões de consumidores de pedra (oxi)dável – e mortífera. Justo num momento de estabilização nos homicídios, é de se esperar que o Brasil enfrente novas ondas de assassinatos resultantes de acertos de conta entre quadrilhas que disputam o mercado dos refugos da cocaína.

Foi mesmo dia de novidades na área dos tóxicos. Além da confirmação de que o óxi desembarcou em território gaúcho, ocorreu na Serra a apreensão de cerca de 1,5 tonelada de maconha (leia mais na página 36), a mostrar que velhos hábitos persistem. Entre a nova e a antiga droga, os policiais continuam tendo muito trabalho.

ÓXI - AVANÇO RÁPIDO ASSUSTA


Avanço rápido assusta especialistas - ZERO HORA 13/05/2011

As características da nova onda tóxica que atinge o país provocam alarme entre médicos e representantes de entidades antidrogas. O receio é de que o maior poder de destruição e o menor preço coloquem em xeque os esforços feitos até o momento – e sem grande sucesso – para barrar o crack.

Um dos maiores especialistas brasileiros em dependência química, o professor de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo Ronaldo Laranjeira, se confessa estupefato com a escalada do óxi – que em poucos meses se alastrou de Norte a Sul.

– Se há dois meses me perguntassem se poderia haver coisa pior do que o crack, eu diria que não. Incrivelmente, o óxi tem uma tecnologia de produção mais tosca, é mais barato e mais potente – declara.

A previsão do especialista é de que o novo entorpecente vai se disseminar principalmente entre quem já é usuário de droga e se encontra em situação vulnerável. O problema é que a rede de atendimento terá de enfrentar, a partir de agora, um inimigo ainda mais poderoso na luta contra a drogadição.

– O que está muito ruim vai ficar pior. Em 10 anos, não tivemos um programa decente do governo federal contra o crack, então agora vamos ficar mais perdidos ainda – avalia Laranjeira.

Diretor-executivo do Instituto Crack Nem Pensar, Alceu Terra Nascimento também acredita que a versão ainda mais suja da cocaína é “uma dificuldade a mais” em um cenário já desconfortável.

– O crack continua crescendo. Melhoramos a mobilização da sociedade, a articulação dos órgãos diretamente ligados a esse problema, o que já é uma boa notícia, mas pouca coisa vem acontecendo na prática – acredita Nascimento.

O psiquiatra gaúcho Flavio Pechansky afirma que os especialistas ainda precisam estudar melhor o impacto do óxi no organismo, mas arrisca estimar o perfil dos pacientes que deverão começar a bater nas portas das clínicas em pouco tempo:

– Como a mistura é muito mais letal, provavelmente os dependentes serão ainda mais desorganizados. Terão mais lesões mentais e físicas, principalmente nos pulmões.