O filme que todos temos que assistir - VISOR, RAFAEL MARTINS, 23 de março de 2011
A dica foi enviada pelo advogado Gilberto Lopes Teixeira: um vídeo criado pela TAC (Transport Accident Commission) teve um efeito drástico na inglaterra. Depois da mensagem, eles estimam que 40% dos usuários deixaram de usar drogas e se alcoolizar pelo menos nas datas comemorativas. Os números podem até ser questionados, mas o teor da mensagem, não. Pena que não tenhamos este tipo de iniciativa aqui no Brasil. Cuidado, porque são cenas fortes.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Os governantes e autoridade policiais bem que poderiam fazer o mesmo, criando vídeos institucionais de educação e prevenção para um trânsito seguro. O Estado gasta muito dinheiro em publicidade política eleitoral, mas não tem recursos para gastar em campanhas educacionais e preventivas para o respeito às leis, defesa de direitos e segurança nas ruas e no trânsito.
COMPROMETIMENTO DOS PODERES
As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
terça-feira, 8 de novembro de 2011
ALERTA EM SC - DROGAS ATINGEM 86% DAS CIDADES
Maior preocupação revelada em pesquisa é com a presença do crack em quase todos os municípios onde há entorpecentes - GABRIELLE BITTELBRUN, DIÁRIO CATARINENSE, 08/11/2011
As drogas atingem oito em cada 10 municípios catarinenses, ou o equivalente a 86,9%. O vício mais frequente é o crack, presente em quase todas estas cidades (86%) onde há consumo de algum tipo de entorpecentes. Os dados são de um levantamento divulgado ontem pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). Apesar de índices tão altos, as iniciativas de combate às drogas ainda são tímidas. O número de municípios catarinenses com Centro de Atenção Psicossocial (Caps), por exemplo, é de apenas 6,1%
O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, lamentou a falta de investimento no país e defendeu uma política nacional.
– Muitos governos falam de enfrentamento, mas quando vamos ver a execução orçamentária e as políticas, elas são praticamente nulas.
Em SC, a coordenadora de saúde mental, Maria Cecília Heckrath, explica que tem havido investimento. O número de Caps deve passar de 78 para mais de 80 até o ano que vem. Ela defende a internação apenas para casos específicos, como o paciente que oferece risco às pessoas.
– Internação por longo tempo não trata, exclui. E se internasse todo mundo, nunca teria vaga suficiente.
Mesmo para os que precisam de internação hoje, não há vagas. Dos 11 Caps voltados especificamente para o combate de drogas, apenas dois admitem internação, o de Criciúma e Joinville. De acordo com a pesquisa da CNM, 66 cidades contam ainda com conselho municipais antidrogas, e 24 têm centros de referência especializado em assistência social, para trabalhar a prevenção às drogas.
Para Maria Cecília, a mais eficaz é a política de acompanhamento, como a de redução de danos, em que profissionais da saúde propõem medidas, como o uso de injeções descartáveis.
– O Estado não tem como obrigá-las se tratarem e não se pode excluir essas pessoas e não fazer nada.
Outros aliados no combate às drogas no Estado são instituições como igrejas e ONGs, que existem em 18 municípios. Para o presidente e fundador de uma delas, o Centro de Recuperação de Toxicômanos e e Alcoolistas (Creta) de São José, na Grande Florianópolis, Jonas Pires, a redução de danos incentiva ainda mais o uso das drogas. Para ele, é preciso investir em locais de internação e na prevenção.
– Precisa ter informação desde a infância, a adolescência e um movimento para se conscientizar do mal que faz a droga na sociedade.
As drogas atingem oito em cada 10 municípios catarinenses, ou o equivalente a 86,9%. O vício mais frequente é o crack, presente em quase todas estas cidades (86%) onde há consumo de algum tipo de entorpecentes. Os dados são de um levantamento divulgado ontem pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). Apesar de índices tão altos, as iniciativas de combate às drogas ainda são tímidas. O número de municípios catarinenses com Centro de Atenção Psicossocial (Caps), por exemplo, é de apenas 6,1%
O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, lamentou a falta de investimento no país e defendeu uma política nacional.
– Muitos governos falam de enfrentamento, mas quando vamos ver a execução orçamentária e as políticas, elas são praticamente nulas.
Em SC, a coordenadora de saúde mental, Maria Cecília Heckrath, explica que tem havido investimento. O número de Caps deve passar de 78 para mais de 80 até o ano que vem. Ela defende a internação apenas para casos específicos, como o paciente que oferece risco às pessoas.
– Internação por longo tempo não trata, exclui. E se internasse todo mundo, nunca teria vaga suficiente.
Mesmo para os que precisam de internação hoje, não há vagas. Dos 11 Caps voltados especificamente para o combate de drogas, apenas dois admitem internação, o de Criciúma e Joinville. De acordo com a pesquisa da CNM, 66 cidades contam ainda com conselho municipais antidrogas, e 24 têm centros de referência especializado em assistência social, para trabalhar a prevenção às drogas.
Para Maria Cecília, a mais eficaz é a política de acompanhamento, como a de redução de danos, em que profissionais da saúde propõem medidas, como o uso de injeções descartáveis.
– O Estado não tem como obrigá-las se tratarem e não se pode excluir essas pessoas e não fazer nada.
Outros aliados no combate às drogas no Estado são instituições como igrejas e ONGs, que existem em 18 municípios. Para o presidente e fundador de uma delas, o Centro de Recuperação de Toxicômanos e e Alcoolistas (Creta) de São José, na Grande Florianópolis, Jonas Pires, a redução de danos incentiva ainda mais o uso das drogas. Para ele, é preciso investir em locais de internação e na prevenção.
– Precisa ter informação desde a infância, a adolescência e um movimento para se conscientizar do mal que faz a droga na sociedade.
A EPIDEMIA DO CRACK
EDITORIAL ZERO HORA 08/11/2011
A disseminação do crack pela quase totalidade dos municípios gaúchos confirma que o uso dessa droga assumiu proporções de epidemia. A questão, portanto, exige uma preocupação mais firme por parte do poder público, que em muitos casos ainda não sabe lidar direito com o problema. Como a dependência, nesses casos, tem implicações que se ampliam de forma acelerada em áreas como saúde e segurança pública, além de afetar atividades como o ensino, as tentativas de solução precisam ser colocadas logo em prática. Quanto mais tempo passar, maior ficará o problema e menores serão as chances de atacá-lo.
Divulgado agora pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), o levantamento demonstrando que em praticamente nove de 10 municípios gaúchos o uso do crack é uma realidade apenas confirma nas estatísticas o que as comunidades já constatam na prática há algum tempo. Cada vez mais, essa droga letal deixa de se constituir unicamente num problema do usuário, de seus familiares e das pessoas mais próximas.
O crack, hoje, está associado diretamente ao aumento da criminalidade pelo simples fato de os dependentes não hesitarem em cometer qualquer tipo de crime com o objetivo de conseguir dinheiro para bancar o entorpecente. Sem a massificação de políticas preventivas, baseadas na informação sobre os riscos desse derivado da cocaína, e sem um ataque eficaz ao tráfico, portanto, dificilmente haverá avanços que impliquem menos insegurança para a sociedade. E o poder público precisa encontrar logo formas de tratar quem já se viciou, para evitar que mais usuários continuem colocando a sua própria vida e a de outros em risco.
Felizmente, enquanto boa parte dos governantes continua insistindo em enfrentar o problema mais com discursos do que com ações práticas, começam a surgir exemplos bem-sucedidos nesta área. Um deles é o da Comunidade Terapêutica Pública Reviver, da prefeitura de Cachoeirinha, transformada num modelo de centro de recuperação depois de demonstrar que é possível, sim, com um mínimo de investimento financeiro e o máximo de vontade política, recuperar quem caiu na droga.
A disseminação do crack pela quase totalidade dos municípios gaúchos confirma que o uso dessa droga assumiu proporções de epidemia. A questão, portanto, exige uma preocupação mais firme por parte do poder público, que em muitos casos ainda não sabe lidar direito com o problema. Como a dependência, nesses casos, tem implicações que se ampliam de forma acelerada em áreas como saúde e segurança pública, além de afetar atividades como o ensino, as tentativas de solução precisam ser colocadas logo em prática. Quanto mais tempo passar, maior ficará o problema e menores serão as chances de atacá-lo.
Divulgado agora pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), o levantamento demonstrando que em praticamente nove de 10 municípios gaúchos o uso do crack é uma realidade apenas confirma nas estatísticas o que as comunidades já constatam na prática há algum tempo. Cada vez mais, essa droga letal deixa de se constituir unicamente num problema do usuário, de seus familiares e das pessoas mais próximas.
O crack, hoje, está associado diretamente ao aumento da criminalidade pelo simples fato de os dependentes não hesitarem em cometer qualquer tipo de crime com o objetivo de conseguir dinheiro para bancar o entorpecente. Sem a massificação de políticas preventivas, baseadas na informação sobre os riscos desse derivado da cocaína, e sem um ataque eficaz ao tráfico, portanto, dificilmente haverá avanços que impliquem menos insegurança para a sociedade. E o poder público precisa encontrar logo formas de tratar quem já se viciou, para evitar que mais usuários continuem colocando a sua própria vida e a de outros em risco.
Felizmente, enquanto boa parte dos governantes continua insistindo em enfrentar o problema mais com discursos do que com ações práticas, começam a surgir exemplos bem-sucedidos nesta área. Um deles é o da Comunidade Terapêutica Pública Reviver, da prefeitura de Cachoeirinha, transformada num modelo de centro de recuperação depois de demonstrar que é possível, sim, com um mínimo de investimento financeiro e o máximo de vontade política, recuperar quem caiu na droga.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
UM FLAGELO QUE SE ALASTRA PELO RS

GEOGRAFIA DO CRACK. Estudo da Confederação Nacional de Municípios aponta que cerca de 90% dos municípios gaúchos registram vício da pedra entre seus habitantes - MARCELO GONZATTO, ZERO HORA 07/11/2011
Um levantamento inédito a ser divulgado hoje pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) indica que o consumo de crack já assola nove entre 10 cidades no Rio Grande do Sul.
As respostas a um questionário sobre o impacto da droga no Brasil revelam que 405 das 452 prefeituras gaúchas participantes do estudo registram o vício da pedra entre seus habitantes – um índice de 89,6%. O estudo também avalia o impacto da dependência sobre áreas como a educação e a segurança pública em todas as regiões do país.
A pesquisa, que será apresentada às 14h30min, na Câmara dos Deputados, em Brasília, demonstra que a droga se universalizou no Estado. Conforme a assessoria técnica do CNM, que no ano passado começou a coletar informações sobre a epidemia tóxica ao lançar o chamado Observatório do Crack, esse é um trabalho mais detalhado em relação a outras iniciativas anteriores.
Até ontem, com base em dados do ano passado, o mapa disponível no site da entidade informava que 377 municípios gaúchos haviam percebido de alguma forma a presença do crack em seu território – mas não especificava se as ocorrências envolviam consumo, tráfico, rota de passagem ou alguma outra modalidade. A partir de hoje, a geografia do entorpecente ganhará contornos novos e mais precisos.
Além de determinar que 405 cidades já registraram o consumo da pedra por meio de serviço municipal como o atendimento em unidades de saúde, a pesquisa informa que em 390 municípios há a circulação dessa e de outras drogas por meio do tráfico.
– Essas informações são alarmantes. Não há parte onde o crack não esteja sendo consumido. Não queremos empurrar o problema para ninguém, mas os governos estaduais e federal deveriam olhar para isso com mais cuidado, porque na situação atual são os municípios que acabam enfrentando o caos nos serviços de saúde – afirma o presidente da CNM, o gaúcho Paulo Ziulkoski.
Relatório mostra que prefeituras têm problemas na área da saúde
O questionário respondido pelas prefeituras também investiga o grau de dependência da população. De acordo com a percepção das autoridades gaúchas, em 242 municípios ele foi descrito como “médio” ou “alto”. O psicólogo Lucas Neiva-Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande e especialista na área de dependência química, afirma que os números condizem com o que tem visto pelo Estado:
– Municípios grandes, pequenos, todos relatam dificuldades para lidar com o crack.
O trabalho completo deverá oferecer informações sobre o impacto do crack em áreas e a escassez de infraestrutura nos municípios para fazer frente à escalada da pedra. Com base nas respostas enviadas por mais de 4,4 mil prefeituras de todo o país, o relatório mostrará que 63,7% delas enfrentam problemas na área da saúde devido à sobrecarga provocada pelo vício da droga.
Em relação à violência urbana, praticamente seis em cada 10 cidades brasileiras apontam transtornos causados diretamente pelo crack – a exemplo de furtos e roubos cometidos para financiar a compra da substância. Um capítulo especial também deverá ser dedicado à relação entre o crack e a situação vivida em escolas do país corroídas pelo consumo do entorpecente, pela presença de traficantes e até de alunos armados.
Exemplo nacional
A CNM considera o modelo e o trabalho da Comunidade Terapêutica Pública Reviver, de Cachoeirinha, exemplos a serem seguidos. Confira a iniciativa:
- Em uma área verde de 11 hectares foi implantado um centro de recuperação para 30 adolescentes, jovens ou adultos.
- Como a estrutura conta com psiquiatra e clínico, quando necessário é possível ministrar medicamentos – o que diferencia a Reviver de outras comunidades terapêuticas, que não usam remédios. O tratamento de nove meses inclui atividades como estudos, oficinas e trabalho.
- Como o atendimento é bancado pela prefeitura, o trabalho é uma forma de contrapartida dos internos à sociedade. Produtos agrícolas vão para a mesa da própria unidade e para creches e escolas municipais. Está em fase inicial uma oficina de jardinagem que produzirá flores para embelezar os canteiros públicos do município.
- A prefeitura de Cachoeirinha é responsável por todo o processo. Uma equipe composta por médico, psicólogo, psiquiatra, enfermeiro, nutricionista, técnico agrícola e assistente social acompanha os internos. O centro de reabilitação foi idealizado pelo prefeito Vicente Pires, 49 anos. Dependente químico recuperado, ele assumiu o projeto como compromisso depois dos problemas que enfrentou por causa das drogas.
- Foram investidos R$ 1,2 milhão para a aquisição da área na Avenida Frederico Ritter por meio de permuta com outras áreas, e R$ 380 mil com a compra de móveis, equipamentos e utensílios. Por mês, o custo de manutenção fica ao redor de R$ 43 mil. Desde abril, apenas cinco internos desistiram do tratamento.
“Morte expõe drama em Rio Grande” - JOICE BACELO
Depois de quase seis anos de luta contra o vício das drogas, a história de Alex da Silveira Mendonça, 23 anos, chega ao final de maneira trágica. No início da manhã de sábado, ele foi morto com um tiro no peito dentro da casa onde morava com a família, em Rio Grande. O autor dos disparos, Romano Marin, 55 anos, era padrasto do jovem.
Para a família, um ato de desespero teria motivado a ação do padrasto, funcionário público aposentado casado há 13 anos com a mãe do jovem. Em depoimento à polícia, Romano Marin disse que disparou para se defender. Em um momento de surto, o jovem teria quebrado equipamentos dentro de casa e tentado agredir a mãe, Wilca da Silveira, 63 anos.
– O Alex foi morto por causa das drogas. O Romano é uma pessoa íntegra, tratava o Alex como filho – disse Dilon Alberto Brião, 60 anos, padrinho de Alex.
Abalada, Wilca não quis falar sobre o caso, mas, por meio de Dilon, mandou um recado: “se o Romano não tivesse feito isso, o Alex poderia ter matado nós dois”.
O padrasto chamou a polícia, entregou a arma do crime e confessou o disparo. Preso em flagrante, foi encaminhado para a Penitenciária Regional de Rio Grande.
Filho único de uma família de classe média, Alex deixa Tales, o filho que completou três anos ontem, no dia de seu enterro.
ENTREVISTA. “Meu filho morreu por causa das drogas”
Pai de Alex, o motorista aposentado Pascoal Mendonça, 52 anos, conta como foram os últimos seis anos na família e lembra do apego que o filho tinha pelo padrasto.
Zero Hora – O senhor acompanhava as crises que o Alex tinha quando consumia drogas?
Pascoal Mendonça – Eu e a mãe do Alex nos separamos quando ele ainda era muito pequeno. Cada um refez a sua vida, mas nunca deixamos o nosso filho de lado. Ele era um guri trabalhador, agora mesmo estava empregado, era auxiliar de mecânica em uma empresa grande. Durante a semana, ele era uma pessoa normal, mas no final de semana saía de si.
Zero Hora – Como foram esses seis anos de luta contra o vício?
Pascoal Mendonça – Ele tinha muito respeito por mim. Sempre que acontecia algum problema, a Wilca me chamava. Estive presente em todas as vezes que tentamos as internações. O Alex sofreu dois acidentes de moto, em um deles esteve à beira da morte, perdeu a carteira de habilitação, até que confisquei o veículo. Faz seis meses que a moto está na minha casa, essa era uma das grandes revoltas do Alex. Sempre que consumia drogas falava disso e brigava com a mãe, queria que ela me convencesse a devolver a moto.
Zero Hora – Como era o comportamento do Alex em casa?
Pascoal Mendonça – O Alex nunca roubou, mas vendia tudo o que tinha, roupas, computador... ele recebeu o salário na sexta-feira, justamente na véspera em que tudo aconteceu. Pelo que eu soube, ele chegou em casa transtornado na manhã de sábado, dormiu na frente de casa e, quando acordou, quebrou o contador e tentou agredir a mãe.
Zero Hora – Qual o seu sentimento em relação ao padrasto do Alex?
Pascoal Mendonça – O Romano (Romano Marin) sempre tratou o meu filho muito bem, tanto que na primeira vez que tentamos interná-lo, ele se abraçou no padrasto e chorou muito. Eram amigos, o Romano chegou a pedir licença do trabalho, certa vez, para cuidar do meu neto, que estava doente. Apesar de não convivermos, sei que ele é uma boa pessoa. O meu filho morreu por causa das drogas.
domingo, 6 de novembro de 2011
ESTUDANTES NO CAMINHO DOS DEPENDENTES DE DROGAS

ALVO EM POTENCIAL - MARCELO GONZATTO, ZERO HORA 06/11/2011
Imediações de escolas na Capital viraram área de ação de assaltantes que acreditam que atacar alunos é uma maneira rápida e fácil de conseguir dinheiro, roupas de marca e aparelhos eletrônicos
Estudantes da Capital se transformaram em alvo de roubos praticados nas imediações de escolas, quando termina a aula e tem início o caminho de volta para casa.
A vizinhança de colégios particulares é a área de ação preferida dos assaltantes que veem nos alunos uma maneira rápida e fácil de conseguir dinheiro, roupas de marca e aparelhos eletrônicos como celulares e tocadores de música. Conforme a Polícia Civil, uma das principais razões do cerco aos adolescentes é a busca de recursos para o consumo de drogas como o crack.
A estudante do 3º ano do Ensino Médio Paula Scherer, 17 anos, no final do último ano letivo aprendeu a dura lição que a criminalidade vem impondo ao universo escolar. Em um final da tarde, ela saiu do colégio onde estuda, na Zona Norte, e começou a andar em direção à parada de ônibus onde pegaria condução para casa. A caminhada foi interrompida pelo cano de uma arma.
– Entra nessa rua – ordenou um criminoso, pressionando o revólver na cintura da aluna.
Ele determinou que a adolescente entregasse a mochila escolar, onde imaginava que se encontravam objetos de valor. Tinha razão: Paula carregava, além de cadernos e livros, um celular e um aparelho de MP3. A adolescente ainda implorou:
– Deixa eu ficar com os livros, por favor. Tenho prova amanhã.
O bandido tirou os livros da mochila, mas, antes de sair correndo, arrancou uma corrente de ouro que a vítima trazia no pescoço – presente da família pelo aniversário de 15 anos.
– Já tinha sabido de outros colegas que foram roubados, mas foi a primeira vez em que eu fui assaltada. Passei a me cuidar mais – afirma a adolescente.
Pequena parcela registra queixa
A repetição de casos como esse não é representada nas estatísticas oficiais porque se estima que apenas uma pequena parcela das vítimas registra queixa. Conforme o delegado Cleber Ferreira, diretor da Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, a carência de dados fidedignos dificulta a elaboração de investigações mais profundas. A Divisão de Planejamento e Coordenação da Polícia Civil registra 42 “roubos a pedestre escolar” este ano em todo o Estado – dos quais 19 na Capital (45%). Acredita-se, porém, que o número real seja muito superior.
– Muitas vezes, fica sem o registro (de ocorrência). Aí não tem estatística para poder desenvolver um trabalho – avalia Ferreira.
Apesar dessa limitação, o acúmulo de relatos semelhantes feitos nos últimos anos por famílias já colocou em alerta a Federação das Associações de Pais e Mestres das Escolas Particulares do Rio Grande do Sul (Federapars).
– Os estudantes viraram uma opção certa para o meliante, pelo fato de carregarem objetos de valor. É uma coisa contagiosa porque, se está rendendo, só tende a aumentar se não houver formas de coação – sustenta o presidente da Federapars, Richer Kniest.
ALVO EM POTENCIAL. Jovem foi assaltada na parada de ônibus
Nem mesmo a luz do sol ou a presença de outras pessoas livra estudantes do cerco dos criminosos. A estudante Bruna, 19 anos (prefere não ser identificada por sobrenome ou foto), é uma testemunha da ousadia dos bandidos que agem nas proximidades de colégios.
Por volta das 17h de um dia de aula, ainda com a roupa da educação física recém-concluída e mochila às costas, ela imaginava estar segura em uma parada de ônibus da Avenida Assis Brasil onde havia pelo menos uma dezena de outras pessoas. Atraído pelo perfil da vítima – mulher, adolescente, recém-saída do colégio –, um homem jovem se aproximou e perguntou se ela tinha algum dinheiro para dar a fim de que ele pudesse voltar para casa.
– Ingenuamente, eu falei que não tinha nem R$ 1, mas que, se tivesse, daria com certeza – conta Bruna.
Quando se deu conta, um segundo homem aparentando 20 e poucos anos se uniu ao primeiro e apontou um revólver para a cintura da aluna do 3º ano de uma escola particular. O primeiro rapaz anunciou o assalto e ordenou que ela entregasse todo o dinheiro que tinha sem manifestar qualquer tipo de reação. Como realmente não tinha dinheiro, ela ofereceu que levassem a mochila – o que não foi aceito.
A dupla então determinou que a jovem embarcasse em um ônibus com eles. Bruna disse que não iria, o que levou os criminosos a se contentarem em levar um telefone celular e um aparelho MP4 que se encontravam dentro da mochila da escola. Os dois mandaram que ela permanecesse imóvel, sem chorar ou gritar, enquanto eles pegaram o primeiro ônibus e foram embora.
– Eles disseram que se eu chorasse ou demonstrasse qualquer reação, iriam atirar em mim de dentro do ônibus mesmo – recorda a vítima.
Quando os bandidos enfim partiram, ela ao menos pôde cair no choro. Aí teve uma segunda surpresa: nenhuma das pessoas que estavam na parada e perceberam o ataque à adolescente se aproximou para prestar qualquer auxílio. Em prantos, esperou outro ônibus e se refugiou na casa da avó:
– Eu chorava bastante e ninguém me ajudou. Não cheguei a ficar traumatizada, mas hoje tomo muito mais cuidado.
Caminho rápido para as drogas
Quando criminosos tiram dinheiro, roupas ou aparelhos eletrônicos de adolescentes, na verdade não estão em busca de dinheiro, roupas ou equipamentos modernos. Buscam apenas um caminho rápido para a boca de fumo mais próxima, onde entregam o fruto dos roubos em troca de doses de droga.
Conforme o delegado Cleber Ferreira, diretor da Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, quando o assaltante busca dinheiro ou objetos de valor, quase sempre a intenção do crime é garantir recursos para a compra de tóxicos. O crack é a principal alavanca desse tipo de crime, na avaliação da polícia.
– Depois de assaltar, trocam por maconha, cocaína, mas, principalmente, crack – avalia Ferreira.
Assim, quando se intensifica a fissura pela droga, o assaltante vê o adolescente como uma espécie de “caixa-rápido” para financiar a dependência ao entorpecente. Por essa razão, a delegada da 17ª Delegacia da Polícia Civil, Shana Luft Hartz, responsável por uma área onde se localizam alguns estabelecimentos privados da cidade, afirma que é fundamental a vítima manter a calma em caso de assalto.
– Nos casos em que o ladrão está sob efeito da droga, pode atirar por qualquer razão. É muito importante ficar tranquilo – observa.
Além do tóxico, outro fator que motiva os ataques aos escolares é o desejo de ostentação de roupas e acessórios da moda. Nesse caso, é mais comum o roubo de peças de vestuário, tênis e artigos como bonés e relógios para serem usados pelos próprios assaltantes. Na maior parte das vezes, quem comete esse tipo de ação é mais jovem e pode agir em conjunto com outros comparsas, em uma espécie de arrastão.
Para reduzir o risco de se transformar em vítima desses tipos de ataque, os policiais orientam os alunos a não andar com objetos de valor à mostra, evitar comportamentos como falar ao celular enquanto caminham ou andar sozinhos por áreas remotas ou mal iluminadas.
A orientação
- Federação das Associações de Pais e Mestres das Escolas Particulares do Rio Grande do Sul costuma orientar as associações de pais de cada escola para que, em caso de problemas envolvendo assaltos à saída das aulas, procurem a unidade de policiamento ostensivo mais próxima a fim de buscar uma solução específica para cada região da cidade.
- O comandante do 11° Batalhão de Polícia Militar (BPM) da Brigada Militar, tenente-coronel Toni Robilar Pacheco, responsável por uma área onde se encontram algumas das principais escolas particulares da Capital, afirma que os colégios fazem parte das rondas.
– Não recebemos muitas denúncias sobre isso, mas fazemos policiamento em volta das das escolas – afirma.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
ALICE NO PAÍS DAS PEDRAS
Alexandre Dido Balbinot, professor - ZERO HORA 03/11/2011
O advento da vasta propagação do uso de substâncias psicoativas tanto lícitas quanto ilícitas pela sociedade, que ceifa vidas e desestrutura inúmeros lares, tem preocupado a sociedade em geral. Não à toa, pois nossos jovens estão suscetíveis, e em risco constante. Muitos fazem o uso em determinada situação para poder ingressar em determinado grupo social; ou por curiosidade; ou até mesmo como alívio para sofrimentos cotidianos.
Este último aspecto lembra Alice no País das Maravilhas, no qual a jovem Alice (como tantas outras moças, e rapazes também), num momento de forte estresse, utilizou como estratégia a fuga, através do país das maravilhas. Isto parece familiar, quando nossos jovens buscam conforto e alívio pelo uso de substâncias psicoativas, podendo criar seus mundos e se fortalecerem.
Outro aspecto que aproxima essa história da rea-lidade é a existência de poções. Poções essas com as mais diversas funções. Pode-se virar um gigante, ou ao contrário, ficar tão diminuído ao ponto de quase desaparecer. Espere aí, através das drogas os sujeitos que fazem o uso também ficam mais fortes; somem; ganham superpoderes; viram heróis... (mesmo que seja apenas uma percepção singular e momentânea).
Mas poções existem várias, e para ser ainda maior, ou ter outra supercaracterística, é preciso utilizar algo que seja mais forte. Nessa progressão por algo mais forte, muitos acabam encontrando o mundo das pedras, do crack e do óxi, que dão superpoderes, mas, ao contrário das poções de Alice, cobram um preço às vezes caro demais. Além disso, as poções têm tempo limitado de efeito, e é necessário utilizar mais... e mais... e mais...
Na história de Alice (como em tantas outras da literatura), observamos um final feliz, com Alice saindo sozinha desse seu mundo, retornando à sociedade sem prejuízos e fortalecida. Já em nossa sociedade, observamos que nem é possível dizer, ao final, “...e viveram felizes para sempre...”, ao contrário, observamos perdas e sofrimento, não só do sujeito que realiza o uso, mas da sociedade que o cerca.
Talvez já tenha passado o momento de cada um procurar ser um tanto quanto fora a Rainha Branca, e utilizar-se de engenhocas e apetrechos para auxiliar a quem necessite sair desse país das pedras, que, ao contrário do mundo de Alice, não é assim maravilhoso. Ou ser como o Chapeleiro Louco, que, além de proteger, também busca mostrar o caminho mais sadio a ser seguido. E assim poderemos também comemorar um final mais alegre e digno para a sociedade.
O advento da vasta propagação do uso de substâncias psicoativas tanto lícitas quanto ilícitas pela sociedade, que ceifa vidas e desestrutura inúmeros lares, tem preocupado a sociedade em geral. Não à toa, pois nossos jovens estão suscetíveis, e em risco constante. Muitos fazem o uso em determinada situação para poder ingressar em determinado grupo social; ou por curiosidade; ou até mesmo como alívio para sofrimentos cotidianos.
Este último aspecto lembra Alice no País das Maravilhas, no qual a jovem Alice (como tantas outras moças, e rapazes também), num momento de forte estresse, utilizou como estratégia a fuga, através do país das maravilhas. Isto parece familiar, quando nossos jovens buscam conforto e alívio pelo uso de substâncias psicoativas, podendo criar seus mundos e se fortalecerem.
Outro aspecto que aproxima essa história da rea-lidade é a existência de poções. Poções essas com as mais diversas funções. Pode-se virar um gigante, ou ao contrário, ficar tão diminuído ao ponto de quase desaparecer. Espere aí, através das drogas os sujeitos que fazem o uso também ficam mais fortes; somem; ganham superpoderes; viram heróis... (mesmo que seja apenas uma percepção singular e momentânea).
Mas poções existem várias, e para ser ainda maior, ou ter outra supercaracterística, é preciso utilizar algo que seja mais forte. Nessa progressão por algo mais forte, muitos acabam encontrando o mundo das pedras, do crack e do óxi, que dão superpoderes, mas, ao contrário das poções de Alice, cobram um preço às vezes caro demais. Além disso, as poções têm tempo limitado de efeito, e é necessário utilizar mais... e mais... e mais...
Na história de Alice (como em tantas outras da literatura), observamos um final feliz, com Alice saindo sozinha desse seu mundo, retornando à sociedade sem prejuízos e fortalecida. Já em nossa sociedade, observamos que nem é possível dizer, ao final, “...e viveram felizes para sempre...”, ao contrário, observamos perdas e sofrimento, não só do sujeito que realiza o uso, mas da sociedade que o cerca.
Talvez já tenha passado o momento de cada um procurar ser um tanto quanto fora a Rainha Branca, e utilizar-se de engenhocas e apetrechos para auxiliar a quem necessite sair desse país das pedras, que, ao contrário do mundo de Alice, não é assim maravilhoso. Ou ser como o Chapeleiro Louco, que, além de proteger, também busca mostrar o caminho mais sadio a ser seguido. E assim poderemos também comemorar um final mais alegre e digno para a sociedade.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
CAMPANHAS ANTIDROGAS MENTEM

Isabel Clemente é editora-assistente de ÉPOCA em Brasília. ARQUIVO PESSOAL - REVISTA ÉPOCA, 31/10/2011
No final dos anos 80, o médico Cláudio Lorenzo fazia residência médica no Hospital das Clínicas de Salvador. Uma de suas incumbências era acompanhar testes em seres humanos. Estava em curso o uso de um medicamento para insuficiência cardíaca num grupo de pacientes com problemas no coração. A nova terapia substituía seis comprimidos por um. E surtiu efeito. Todos apresentaram melhora. Findo o teste, os pacientes tiveram que retomar o tratamento anterior, correndo os riscos associados à desestabilização do coração submetido, novamente, aos remédios retirados. Quando o novo e promissor medicamento foi lançado comercialmente, o preço estava tão alto, relembra Lorenzo, que os pacientes submetidos ao teste jamais teriam acesso a ele.
Naquele momento, o médico viu que havia um grupo destinado a usufruir dos benefícios, e outro condenado aos riscos. Pior: ninguém parecia preocupado em debater e jogar luz sobre isso. Esse fato mudou a percepção e a carreira de Lorenzo, que decidiu se especializar em bioética, um ramo acadêmico que visa construir a idéia do que é o certo e o errado nas questões ligadas à vida e à morte.
Professor, pesquisador, membro da REDBIOÉTICA da UNESCO para América Latina e Caribe e presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Claudio Lorenzo concedeu uma entrevista esclarecedora, franca e polêmica para o 7×7. Nesta conversa, Lorenzo teoriza sobre temas que costumam ficar à margem dos debates públicos. Abaixo, as opiniões do pesquisador, por temas. É o início de um bom debate. Boa leitura.
“Do conflito medicina e sociedade surgiu a Bioética”
“A Bioética é uma ética aplicada às ciências da vida. A ética aplicada não se limita a uma investigação filosófica sobre os valores morais e centrar-se, sobretudo, na resolução prática de conflitos reais através de análises contextuais e proposições de normas e ações. Ganhou força nos anos 60, com episódios conflituosos entre a medicina e a sociedade, como o da invenção e uso das primeiras máquinas de hemodiálise em Seattle, nos Estados Unidos. Os médicos anunciaram que o uso dessas máquinas seguia critérios médicos, mas dois repórteres tiveram acesso às listas de usuários e descobriram que, na verdade, o primeiro critério era que eles fossem brancos e o segundo, que fossem ricos. O artigo saiu na Life sob o título “Eles decidem quem vive e quem morre”. Começaram intensos debates sobre a ética nas decisões relacionadas ao uso de tecnologias que abriam novas perspectivas de sobrevivência e houve quase um consenso de que estas decisões não podiam estar apenas nas mãos dos médicos. Surgem os primeiros comitês de ética hospitalar com participação da sociedade civil, advogados e sociólogos. É importante entender que não há um método teórico para determinar o que é certo e errado por parâmetros universalmente aceitos. Assim os indivíduos precisam construir, juntos, essas decisões sobre a forma correta de agir. De certa forma, a Bioética brasileira no campo teórico é mais avançada que a anglo-saxônica. Temos uma visão mais crítica, por exemplo, sobre as influências do mercado na produção nas decisões em torno da oferta de bens e serviços de saúde. Por outro lado, estamos atrasados, por não termos ainda uma Comissão Nacional de Bioética. Existe um projeto de lei em tramitação desde 2005, mas que parece fora da pauta e do interesse dos parlamentares.”
”Leis não têm como acompanhar a ciência”
“Há uma medida social incontornável que são as leis. E a autoridade maior nesse caso é o Supremo Tribunal Federal, onde têm ido parar vários dilemas bioéticos, como a interrupção de gravidez em caso de anencefalia. O melhor é que essas discussões no Supremo estivessem também sedimentadas em discussões mais amplas na sociedade. O problema é que as leis não conseguem acompanhar o avanço da ciência e os conflitos éticos por ela gerados. A bioética, com uma Comissão Nacional de Bioética, poderia se apresentar como uma forma alternativa de regulação social até que os novos problemas fossem abarcados pelas leis, cujo processo de elaboração é bastante lento. Do contrário, os problemas vão ficando sem solução e sem regulação. Problemas nos hospitais São poucos os hospitais que têm um comitê local de bioética para respaldar decisões complicadas. É um trabalho a mais a ser feito. As pessoas têm que se reunir.
Precisam ser capacitadas para conduzir as discussões. E isso não costuma significar nenhum ganho profissional ou de progressão de carreira. Não precisa ser um incentivo financeiro, mas há que se incentivar essa participação. O médico está habituado a um certo poder de decisão na relação com o paciente, mas muitos querem partilhar decisões que dizem respeito à vida e a à morte das pessoas. Se chega uma parturiente com insuficiência cardíaca grave, em que o parto pode matá-la, a cesárea também. O que o médico faz? Tira o bebê antes, sabendo que ela não sairá da mesa de operação? É uma responsabilidade enorme. Quando há um coletivo para ajudar a decidir, botando os familiares nisso, dá tranqüilidade ao médico e produz uma solução partilhada. Infelizmente são muito poucos os hospitais com comitês locais de bioética”.
“Famílias negam a doação de órgãos em função do tratamento que recebem nos hospitais”
“É uma típica situação de conflito ético. Toda campanha de doação visa sensibilizar a família do doador e parece transferir exclusivamente para ela a responsabilidade sobre esse sim ou não. Mas qual é a realidade da maioria das famílias dos doadores? Em geral são pessoas de classes sociais mais baixas, onde incidem com maior freqüência as mortes violentas. Só de motoboys, morrem três por dia em São Paulo. As famílias vêem o ente querido na UTI, onde quase não têm contato com médicos e enfermeiros. Em algumas unidades, os familiares recebem apenas um pequeno relatório diário sobre o paciente. Aí, quando esse paciente morre, aparece psicólogo, cafezinho, chocolate e todo o carinho para solicitar a doação. Ou seja, não há acolhimento aos familiares na hora do tratamento, só na hora da solicitação de doação. A forma como essa família foi acolhida durante o tratamento influencia obviamente em sua decisão. Por isso, não adianta apenas campanha se as relações entre a equipe de assistência e os familiares não melhorar. Esse exemplo da doação é um dos campos em que a Bioética pode trazer elementos novos, que a sociedade ainda não percebeu, contribuindo para o debate”.
Anencéfalos: “os valores de um só grupo social não podem virar lei para todos”
“Quando o ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, deu uma liminar, em 2005, permitindo a interrupção de gravidez em caso de feto anencéfalo, ele entendia que não havia abortamento porque, na anencefalia verdadeira, não há vida esperada. É mais que uma situação de morte cerebral porque o cérebro sequer existe. A morte cerebral deflagra a doação de órgãos porque esse é o conceito de morte que usamos desde os anos 50. Se não existe fluxo sangüíneo e atividade cerebral, tendo testes realizados e checados comprovando, acabou. O coração pode parar de bater sem que o indivíduo esteja morto e continuar batendo em pessoas mortas. Mais de 90% das crianças com anencefalia verdadeira morrem na primeira hora pós-parto. A mulher precisa partilhar de uma fé no valor essencial da vida em si mesma, nesta sacralidade, para dar algum significado ao sofrimento de vivenciar uma gravidez inteira que culminará na morte do concepto. Essa mulher não será prejudicada em nada se a interrupção nestes casos for aprovada pelo Supremo. O que não se pode é permitir que os valores de um só grupo social sejam colocados como lei para todos e que mulheres que não partilhem dessas crenças sejam obrigadas a vivenciar essa experiência de frustração e dor”.
“O status moral do embrião está acima da vida da mulher?”
“É muito mais complexa a discussão ética do abortamento de embriões e fetos viáveis, mesmo que até as primeiras 12 semanas, quando o tubo neural ainda não está formado. Porque aqui há um potencial de vida que não existe na morte cerebral nem no anencéfalo. Existe, portanto, um status moral diferenciado desse embrião determinado por esse potencial de desenvolvimento, mas que seguramente não é o mesmo status moral de um bebê com sistema nervoso formado esteja ele dentro ou fora do útero. Tanto não é que podemos legalmente congelar embriões ou eliminá-los em caso de estupro e não podemos fazer o mesmo com bebês. O que precisamos investigar do ponto de vista bioético é se esse status moral do embrião é superior ao status moral das vidas reais e concretas das mulheres em risco de submeter-se a um abortamento inseguro, quarta causa de mortalidade materna no Brasil. Nenhuma lei jamais conseguiu impedir as mulheres de praticar o abortamento quando a gravidez constitui um transtorno à sua vida concreta. Só no Brasil são mais de um milhão ao ano, dos que conseguem ser notificados. Um exemplo: quando uma mulher vítima de violência pelo marido, com quem já tem quatro filhos, engravida, às vezes sob violência, ela aumenta a dependência do agressor e reduz sua capacidade de trabalho através da qual ela pode se livrar da condição. Essa mulher, em geral, vai praticar um aborto inseguro pondo sua vida em risco. O status moral daquele embrião está acima do status moral da vida dessa mulher e de seus outros quatro filhos? A maior pesquisa nacional com mulheres que já fizeram aborto demonstrou que metade delas é católica ou evangélica e contra a descriminalização do aborto. Quer dizer, ela se perdoa, na relação íntima dela com Deus, mas não admite o direito da outra de fazer o mesmo. É preciso discutir isso. É necessário que as pessoas ouçam outras idéias. Mas, infelizmente não há vontade política”.
“É preciso falar sobre cada droga, álcool é pior que maconha”
“Estão transformando o efeito em causa. O problema do crack é um exemplo típico. Não é o seu uso que gera o problema social, mas o contrário. É o fato dessas crianças terem famílias desestruturadas pelas condições sociais, não terem acesso a educação e saúde de qualidade que as levam ao consumo de drogas destrutivas, a mergulharem nessa relação perversa entre prazer e destruição. Essa forma de solução que o Rio adotou é típica de quem busca limpar as ruas da visão incômoda dos usuários e não de construir um verdadeiro programa de intervenção. Recolhimento não é acolhimento. Tem que capacitar as clínicas, gerar políticas mais focadas nos indivíduos vulneráveis e nas condições de vida cotidiana desses indivíduos. Não estou querendo dizer com isso que a internação compulsória não seja recomendada às vezes, mas, é preciso compreender que quando essas pessoas saírem da internação, as condições que as empurraram para as drogas continuarão lá aguardando por elas. A sensação que se tem não é de que estão protegendo as crianças, mas protegendo a cidade de um incômodo, sobretudo, em tempo de copas e olimpíadas. Campanhas mentem O crack é conseqüência de um longo período sem política clara de prevenção de drogas. O Estado mente a todo momento. Os médicos mentem. A sociedade mente para os jovens com uma série de informações sobre drogas. É preciso falar claramente sobre cada uma delas, seus riscos, seus graus de atenção. É uma estupidez colocar todas as drogas no mesmo saco. Existem drogas e drogas. Atribuir a drogas mais leves como maconha, por exemplo, a mesma nocividade da cocaína, heroína e crack é uma mentira que tira dos adolescentes a capacidade de se proteger. Claro que a maconha oferece também riscos importantes para o adolescente, mas estes riscos precisam estar dimensionados com base nos dados científicos e não em valoração moral. Porque um adolescente que conhece alguém em sua rua que fuma maconha, mas trabalha todo dia, ajuda a família e etc, sem parecer ter desajustes, pode achar que isso aconteceria com esse conhecido independentemente da droga que ele usasse, já que são todas iguais. Aí ele acha que pode usar tudo. Ele não sabe se defender. Não sabe diferenciar os malefícios. Tem que deixar isso claro. Por ter feito esse discurso usando a verdade e dizendo que a maconha é uma droga leve em comparação com álcool e as outras aqui citadas logo vai aparecer quem diga que estou fazendo apologia. Não estou. Vejo um risco real nessa pasteurização”.
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