COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

CAPITAIS BRASILEIRAS TÊM MAIS DE 370 MIL USUÁRIOS DE CRACK

R7 - 19/9/2013 às 12h08

Capitais brasileiras têm mais de 370 mil usuários de crack, diz pesquisa. Estimativa é que total de usuários de drogas ilícitas ultrapasse 1 milhão de pessoas no País

Kamilla Dourado, do R7, em Brasília



Regiões Nordeste e Sudeste têm maior número de usuários de crackWerther Santana/14.01.2012/Estadão Conteúdo

O número de usuários de crack e similares (pasta-base, oxi e merla) soma 370 mil usuários nas capitais do País e no Distrito Federal. As capitais nordestinas lideram o ranking com quase metade dos usuários da droga (148 mil). Em seguida vêm as capitais da região Sudeste, com 113 mil dependentes. Depois, aparecem no ranking as regiões Centro-Oeste, com 51 mil usuários; Sul, com 37 mil; e Norte, com mais 33 mil usuários de crack. A pesquisa divulgada nesta quinta-feira (19) foi feita nas 27 capitais brasileiras pelo Ministério da Justiça em parceira com a Fundação Osvaldo Cruz.

O levantamento foi feito com base em informações locais, como secretarias de Saúde, Assistência Social, Segurança, organizações não-governamentais e relatos de usuários da droga. O estudo faz parte das ações do programa do governo federal "Crack, É Possível Vencer". A pesquisa considera usuário de drogas quem fez uso do entorpecente por pelo menos 25 dias nos últimos seis meses.

A pesquisa aponta que os usuários têm, em média, 30 anos de idade, mas a maioria dos dependentes tem entre 18 e 24 anos. De todos os usuários, 78,7% são homens e 80% são pretos e pardos.

A maioria dos usuários de crack declarou ser solteira — mais de 60%. A baixa escolaridade também é comum entre os usuários — 55% deles cursaram entre a 4ª a 8ª série do ensino fundamental, 5% não completaram nenhuma série e cerca de 3% estão no ensino superior ou cursaram faculdade.

Mais de 65% dos usuários declararam que sustentam o vício com trabalhos esporádicos ou autônomos, outros 12% pedem esmolas, enquanto 11% contam com o dinheiro da família. Ainda segundo a pesquisa, 7,5% afirmaram que se prostituem em troca de dinheiro ou drogas e 6,4% cometem crimes para conseguir comprar a drogas.

Estima-se que o número de pessoas que consomem drogas ilícitas nas capitais das cinco regiões do País chegue a 1,35 milhão.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DROGAS: FACA DE UM GUME


ZERO HORA 13 de setembro de 2013 | N° 17552

ARTIGOS


Marco Aurélio Ribeiro de Oliveira*


“Leis inúteis enfraquecem as leis necessárias.” Montesquieu


Não recordo exatamente o ano, mas não me esqueço daquela peça publicitária fantástica sobre o perigo das drogas. Durante um breve tempo veiculou em meia dúzia (pena) de outdoors. Talvez alguém ainda se lembre de um bebê usando apenas fraldas, sentado, sozinho em cena. A criança manuseava, com impressionante realismo, um determinado objeto com suas pequeninas e delicadas mãos. Abaixo do dramático quadro de pureza e inocência, um alerta: Com as drogas é a mesma coisa. O objeto com o qual o bebê brincava era uma ameaçadora e pontiaguda faca de cozinha. Assustador. Revelador.

Hoje, muitas imagens associadas direta ou indiretamente às drogas já não causam tanto espanto, mas deveriam. Os conflitos bélicos entre facções em busca de espaço geográfico e ascensão criminal, os infames varejões do narcotráfico, que pulverizam drogas sobre comunidades inteiras, as armas de guerra locadas ou negociadas por entorpecentes, nas mãos de bandidos comuns e multidões, desconcertantes multidões arrastando-se até a pedra de crack mais próxima. Tudo isso, desgraçadamente, parece ter sido jogado num gigantesco triturador que mistura pessoas, barbáries e banalidades, necessariamente nesta ordem. E o fator droga está lá, feito mancha de óleo em folha de papel, capaz de percorrer a sinuosa trilha rumo à dependência química, em horas; a recuperação, contudo, vai durar cada minuto do resto da vida do dependente, e dos familiares.

Os “imperadores” da droga querem o mundo por inteiro – um império nunca é grande o bastante –, preferencialmente, sem resistência, elementar (e milenar) estratégia de guerra. Os Estados Unidos são criticados por sua política de guerra ao tráfico, que já consumiu trilhões de dólares desde os anos 1980. Se aquele país ainda é o maior mercado consumidor de drogas do mundo, imagine se não tivessem desembolsado um único cent, onde estariam agora? Não é difícil imaginar, a dificuldade americana reside em enfrentar um dos mais complexos fenômenos globais da atualidade, praticamente, só (ninguém mais investe tanto em inteligência e logística, doméstica e internacional). Não enfrentá-lo, ou pior, pseudoestatizar um comércio imune a quaisquer princípios econômicos, híbrido de letalidade e rentabilidade, beira a degradação política, com repercussões sociais, econômicas e culturais trágicas. E ainda há quem aposte (literalmente) nisso, ou seja, a região e o resto do mundo que se danem. Uma nação com livre acesso às drogas lembra muito aquela criança do outdoor com a faca nas mãos: absolutamente desamparada.

*PROFESSOR, MEMBRO DO NÚCLEO DE SEGURANÇA CIDADÃ (FADISMA)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A CRACOLÂNDIA SE MULTIPLA

O Estado de S.Paulo 12 de setembro de 2013 | 2h 16


OPINIÃO


Uma consequência negativa da Operação Centro Legal - destinada a combater o consumo e o tráfico de drogas na Cracolândia, e que não primou pelo bom planejamento - foi a migração de parte dos dependentes para regiões próximas. Isso começou a acontecer pouco depois do início da operação, em janeiro de 2012, e desde então, apesar de promessas das autoridades de que medidas seriam tomadas para deter esse movimento, ele continuou. O mais grave é que, agora, a dispersão dos drogados está atingindo até mesmo bairros mais distantes do centro.

Num primeiro momento, eles se espalharam para a Praça da Sé e, logo em seguida, para Santa Cecília e Higienópolis, onde muitos se estabeleceram. Não demorou muito para que começassem a se deslocar para regiões mais distantes da Cracolândia, onde ainda se concentra a maior parte dos drogados. Como mostra reportagem do Estado, estão se multiplicando as minicracolândias. Ao mesmo tempo que se consolidam aqueles pequenos núcleos criados nas adjacências da principal concentração, outros surgem em locais afastados, como Santana.

A exemplo do que aconteceu em Higienópolis, a presença de grupos de drogados, principalmente dependentes de crack, já é notada em outros bairros nobres. É o caso da Avenida Paulista, da Rua da Consolação e também da Praça Roosevelt. Nesses locais, a desenvoltura dos traficantes e a tranquilidade dos dependentes são idênticas às que se observam na Praça da Sé, onde os dois grupos agem como se estivessem em casa. Indiferentes, no caso da Sé, à presença ali do Tribunal de Justiça e de um quartel do Corpo de Bombeiros, e, no da Paulista, à de centenas de milhares de pessoas que por lá circulam diariamente.

Em pequenas barracas improvisadas com sacos de lixo, onde moram e fumam crack, os drogados vivem num mundo à parte. E os traficantes que os abastecem agem livremente. Em entrevista à Rádio Estadão, o prefeito Fernando Haddad garantiu que essas minicracolândias são combatidas: "Fizemos várias ações de desmanche de instalações em praça pública, com muita efetividade, agora estamos incorporando a área de saúde, pois no caso do crack não se trata de um morador de rua usual, é uma pessoa que tem um problema adicional".

Deixando de lado a linguagem um tanto complicada do prefeito, é preciso assinalar que a realidade demonstra que o desmanche que ele afirma ter feito ficou muito aquém da necessidade. Por outro, a "incorporação da área de saúde" - cuja necessidade é evidente - já foi feita no governo anterior, na parte que cabe à Prefeitura, e pela atual administração estadual no que lhe compete.

O que os governos municipal e estadual devem fazer para combater o consumo e o tráfico de drogas tanto na Cracolândia original como nas minicracolândias que se multiplicam - a começar pela coordenação da assistência social e médica com a repressão ao tráfico - já é sabido. O que é preciso saber é que se esse esforço corresponde ou não ao que é necessário.

No que se refere à questão-chave da assistência social e médica aos dependentes, houve algum avanço quanto aos meios disponíveis, mas não se pode esperar resultado imediato. Avançou-se também na obrigação - agora possível - de dependentes serem tratados, seja por decisão de familiares ou da Justiça. Mesmo nesse caso, a recuperação demanda tempo. Mais ainda quando é preciso convencer o dependente a aceitar o tratamento. Esse trabalho de convencimento ficou mais difícil com a dispersão dos dependentes.

A outra ponta do problema é evitar a proliferação das minicracolândias e combater o tráfico, um desafio que a polícia até agora não soube enfrentar. Causa espanto a incapacidade - ou a falta de determinação - da polícia de reprimir o tráfico que corre solto, à vista de todos, tanto na grande como nas pequenas cracolândias.

Só intensificando o combate nessas duas frentes será possível melhorar a situação que não mudou muito desde o início da Operação Centro Legal há mais de um ano e meio.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

LEGALIZAÇÃO DA MACONHA EM DEBATE

ZERO HORA 10 de setembro de 2013 | N° 17549

ERVA POLÊMICA

Inspirada em lei uruguaia, discussão da liberação do consumo da droga é tema de evento na Capital



Defensores e críticos da liberação do consumo de maconha discutem o tema amanhã na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. O debate é estimulado pelo projeto de lei que visa ao controle estatal sobre a produção e venda da erva no Uruguai como forma de combater o tráfico.

Oseminário é promovido pelo vereador Alberto Kopittke (PT), autor de um estudo que esquenta a polêmica sobre o assunto. O levantamento aponta que 86,5% da maconha em circulação no Estado passa ao largo das autoridades, ou seja, não é apreendida. O dinheiro arrecadado, conforme o vereador, financia o crime organizado e alimenta a corrupção policial.

Ex-diretor de Políticas e Projetos da Secretaria Nacional da Segurança Pública – órgão do Ministério da Justiça –, Kopittke critica o programa de repressão às drogas no Brasil.

– O ministério precisa discutir uma nova política para as drogas baseada em dados científicos sobre violência e consumo – diz Kopittke.

O vereador também coordenou a elaboração do Plano Estratégico de Fronteiras, em 2011, e reconhece:

– A ideia que originou o programa é equivocada. O plano não tem potência para impactar na queda dos índices de consumo e violência. Deveria ser retomado o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) – lamenta.

Desde que foi criado, em 2007, o Pronasci teve verbas reduzidas em quase 80%.

O seminário A Nova Política sobre Drogas do Uruguai: Avanço ou Retrocesso? será realizado a partir das 19h no plenário da Câmara, com entrada franca. Entre os convidados, Marcos Rolim, consultor em Direitos Humanos e Segurança Pública, Salo de Carvalho, advogado criminal e professor universitário, Helena Barros, professora universitária, e Tião Santos, coordenador da ONG Viva Rio.


OS NÚMEROS. Consumo e apreensões no RS

- A partir de duas pesquisas da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e apreensões, o vereador Alberto Kopittke calculou que 602.390 gaúchos são usuários de maconha.

- O consumo estimado é de 103,1 toneladas por ano. As apreensões (dados de 2011) pelas polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal somaram 14 toneladas, o equivalente a 13,5% do que é consumido.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

NO OUTRO LADO DO FRONT DA LUTA CONTRA AS DROGAS

JORNAL DO COMERCIO 09/09/2013

Na Instituição Social Manassés, ex-usuários de entorpecentes viram exemplo ao ajudar outras pessoas a largarem o vício


Rodrigo Borba
MARCO QUINTANA/JC

Itamar e Wesley superaram o problema e hoje utilizam suas experiências para auxiliar os jovens

Uma cena traumática acendeu o alerta de Itamar da Silva Gonçalves, de 34 anos, sobre a sua dependência química. Após agredir a filha de apenas um ano, resolveu lutar contra as drogas. Maria Luiza queria apenas um presente, mas recebeu tapas. O dinheiro para o agrado à menina já tinha outro destino programado: sustentar o vício do pai. “Ela olhava para mim chorando e dizia: ‘papai você bateu no nenê’. Para mim, foi a gota d’água”, lembra.

Após esse momento marcante, Itamar buscou e atingiu a reabilitação. Natural de Foz do Iguaçu, no Paraná, atualmente auxilia jovens a trilharem o caminho. Na Capital, é monitor da Instituição Social Manassés, a mesma organização responsável pela retomada de sua vida. “Foi uma porta de saída”, afirma agradecido.

Aos cinco anos, uma influência negativa marcou a história de Itamar. O pai o fazia beber cachaça e se vangloriava para os amigos: “o meu filho é macho como o pai”. “Para ele, era uma ‘vantagem’ me levar para um bar”, lembra. Mais tarde, acabou usuário de todos os tipos de droga, inclusive o crack. Por 13 anos viveu essa dura rotina, mas há dois está limpo.

Por pouco não teve o casamento destruído por colocar o vício à frente dele. Após a reabilitação, Itamar recuperou a convivência e o carinho da família e, a cada três meses, viaja ao Paraná para revê-la. Os companheiros de bocas de fumo ficaram para trás. “Hoje em dia, o que mais influencia é a amizade. Através do álcool, o cara te apresenta a droga, aí já era. Quem não aceita, é chamado de ‘caretão’; quando vê, já foi”, conta.

Wesley Oliveira de Almeida, de 26 anos, também quase teve a trajetória arruinada pelo mesmo problema. Devido ao vício em cocaína, diz ter ficado cinco anos escravo da droga. Roubou objetos de casa e morou nas ruas de São Paulo, sua cidade natal, por um ano. Acabou preso por furto e receptação de veículo para matar a fissura por alucinógenos. Entre as perdas causadas pela dependência, cita a da confiança da família e a da dignidade. Lamenta o fato de o problema estar difundido no País, inclusive em áreas rurais, fazendo muitos jovens passarem pelo drama que conhece bem.

Há três anos e sete meses reabilitado, Wesley também é monitor do Manassés. “A história é sempre a mesma, só muda o personagem”, alerta, falando sobre a dependência. Wesley e Itamar mudaram suas trajetórias graças à instituição. “A gente não tinha mais solução, era banido da sociedade, não tínhamos mais solução”, salienta Itamar.

Devido à convivência no instituto, a dupla estreitou o relacionamento, baseado na confiança mútua. Atualmente, se consideram familiares, irmãos de drama. “Criamos um laço de amizade inexplicável”, sublinha Itamar. Os dois já passaram por pelo menos oito estados, ajudando outros dependentes a tomarem o rumo certo, assim como ocorreu com eles.

O Manassés existe há 16 anos no Brasil. São 29 unidades em 21 estados brasileiros. O começo do tratamento se dá a partir do “intercâmbio” dos dependentes, ou seja, os jovens são levados para outros estados, longe de sua cidade natal. A medida busca tirar-los de seu ambiente, onde o acesso às drogas é fácil e as más influências, abundantes. O custo do deslocamento fica sob responsabilidade da família, mas o tratamento é gratuito.

O instituto atua há sete meses na Capital e atende a 30 jovens em recuperação. A sede fica em um casarão na rua Pinheiro Borda, na zona Sul. O tratamento, de nove meses, é realizado em duas etapas. A primeira é a de desintoxicação, onde os internos ficam reclusos e responsáveis pela limpeza da sede. Na segunda, começam a ir para a rua e vendem kits com canetas e chaveiros nos ônibus, por R$ 2,00. Além disso, alertam os passageiros para a questão, contando seus dramas. O trabalho é a principal forma de manter a instituição, com custo mensal acima dos R$ 10 mil.

A rotina no Manassés é composta de cultos evangélicos, com música e cantos de louvor, e terapia ocupacional todos os dias. Aos sábados, há jogos de futebol e churrasco. Nos finais de semana, o jogo de sinuca é liberado e alguns podem passear pela cidade, sempre acompanhados por um monitor.
União tem projeto de R$ 4 bilhões para a área

O programa Crack, é possível vencer, do governo federal, visa combater o vício desse entorpecente e de outras drogas. Dos R$ 4 bilhões destinados ao projeto, que serão investidos até 2014, foram executados R$ 840 milhões no ano passado. Até dezembro, o investimento previsto é de R$ 1,6 bilhão.

Os recursos são aplicados na implantação ou qualificação de Consultórios na Rua, Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) e Unidades de Acolhimento (UA). Desde o início do programa, foram criados 1.851 novos leitos nesses serviços.

A iniciativa tem o objetivo de aumentar a oferta de tratamento de saúde e atenção aos usuários de drogas, enfrentar o tráfico e ampliar atividades de prevenção. As ações estão estruturadas em três eixos: cuidado, autoridade e prevenção.

Além disso, até 2014, o Ministério da Saúde promete repassar recursos para que estados e municípios criem 2.462 leitos, que serão usados para atendimentos e internações durante crises de abstinência e em casos de intoxicações graves. Ao todo, serão investidos R$ 670,6 milhões.
Caps AD são o principal serviço disponível em Porto Alegre

Na Capital, existem cinco Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), sendo três 24 horas, nos quais há dez leitos para o acolhimento noturno. O modelo é considerado a principal estratégia de combate à dependência no município. A maioria dos frequentadores é de usuários de crack, além de alcoolistas. Em 2012, do total de atendimentos na área de saúde mental, 63,7% foram a dependentes químicos. Além disso, dos 540 leitos na área, 280 são para esses pacientes.

O custo mensal de cada uma dessas instituições é superior a R$ 180 mil, sendo R$ 78.800,00 repassados pelo Ministério da Saúde e o restante via município. “Um serviço especializado em saúde mental não é barato, pois a nossa tecnologia é toda humana, relacionada ao vínculo, ao cuidado e à atenção. Não é como comprar um aparelho de tomografia e contratar um médico ou um técnico em enfermagem para operar”, justifica a assistente social da área técnica de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Sara Jane Escouto dos Santos.

Ainda para este ano, está prevista a implantação de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) exclusiva para essa área. A Capital também conta com o projeto Consultório na Rua, pelo qual são assistidos moradores de rua, frequentemente vítimas da dependência química. “O Consultório na Rua tem um trabalho muito importante, pois vai onde o sujeito está”, enfatiza Sara. Existem, ainda, 171 leitos em hospitais gerais para atender a esse público em caso de intoxicação.

A assistente social critica o fato da divulgação errônea na qual dizem ser impossível se livrar do crack. “Muita gente com uma estrutura emocional mais frágil acreditou que não teria mais recuperação. Aí fica aquela coisa assim: ‘Ah, se eu não vou me recuperar mesmo, vou continuar usando’”, analisa.

De acordo com Sara, a meta do tratamento não deve ser a abstinência. A teoria parte do princípio de ser necessário levar em conta as condições apresentadas pelo sujeito. “É preciso partir daquilo que é possível contratar com ele. O usuário de álcool e drogas é muito imediatista. O vínculo afetivo é a base da relação com o cuidado”, ressalta. Sara frisa como fundamental os dependentes químicos manterem-se ocupados. “Pode ser importante voltar a estudar, por exemplo. A droga ocupa um lugar na vida daquele sujeito”, resume.
Família de dependentes também precisa receber tratamento

O dependente químico não é o único a ter a vida arruinada pelas drogas ou pelo álcool. Toda a sua família fica doente e também precisa de tratamento, ressalta a diretora da Associação Porto-Alegrense de Amor Exigente (Apaex), Arlete Lugo. A instituição tem o objetivo de prevenir a dependência e apoiar os familiares.

Para Arlete, os parentes precisam tomar medidas para colaborar na modificação do quadro, contudo, isso não significa “passar a mão por cima dele”. Impor limites é imperativo. “Ajudar um dependente não é dar as coisas”, frisa. A diretora cita, inclusive, o caso de pais que permitem que filhos usem entorpecentes dentro de casa.

Após se aposentar como contadora, em 1990, Arlete conheceu a instituição e resolveu aderir à causa para ajudar um irmão vítima do álcool. Depois disso, continuou atuante, dessa vez para prevenir que os filhos Cláudio e Vanessa, na época com 17 e 11 anos, respectivamente, não passassem por problemas dessa natureza. Atualmente, o alvo de atenção são os quatro netos. Para isso, ela conta com a ajuda do marido Cláudio Lugo, presidente da Apaex.

A diretora salienta a importância de os familiares estarem sempre alertas para alterações no comportamento do jovem ou adolescente. Se ele começar a ir mal na escola, por exemplo, pode ser um indício. “As famílias vêm procurar ajuda quando a droga está incomodando, ninguém pensa na prevenção”, afirma. De acordo com Arlete, muitas vezes, os pais sentem-se culpados pela situação, mas não tomam atitudes para modificar o cenário. “Troquem a culpa por responsabilidade”, provoca.

O drama do irmão poderia ter tido um fim quando ele reconheceu ser dependente e pediu para ser internado. Chegou a ganhar uma casa de Cláudio e Arlete, mas, de acordo com a irmã, não teve forças para se livrar do vício e continua a beber, mesmo que em menor quantidade. “Ajudei até onde ele quis. Hoje, ele consegue sobreviver”, conforma-se.

Na Capital, existem 20 grupos de apoio da Apaex. Os encontros gratuitos ocorrem em escolas e igrejas. Ao todo, são 40 voluntários. O projeto é custeado por doações, vendas de livros, treinamentos e palestras para empresas. O trabalho tem como base 12 princípios. Um deles é fazer com que os familiares conheçam o seu papel durante os momentos de crise para saber como agir. A Apaex também oferece cursos com o foco na prevenção.

sábado, 7 de setembro de 2013

ARSENAL E 410 KG DE MACONHA

ZERO HORA 07 de setembro de 2013 | N° 17546

EDUARDO TORRES

AÇÃO NO SINOS

Polícia recolhe arsenal e 410 quilos de droga


Em duas ações praticamente simultâneas, na manhã de ontem, a Polícia Civil apreendeu cerca de 410 quilos de maconha em Novo Hamburgo e Campo Bom, no Vale do Sinos, além de um arsenal guardado por integrantes da facção Os Manos. Até a noite de ontem, os delegados responsáveis pelas duas ações não confirmavam relação direta entre os casos.

Depois de três meses de investigação sobre o tráfico de drogas entre os bairros São José e São Jorge, os agentes da 3ª Delegacia da Polícia Civil de Novo Hamburgo conseguiram flagrar Alexandro Maus, 33 anos, no momento em que ele organizava a maconha vinda de Foz do Iguaçu (PR). Foram pesados 360 quilos da droga.

– Ainda não sabemos a periodicidade com que vinham os carregamentos, mas seguramente já acontecia havia pelo menos oito meses – disse o delegado Alexandre Quintão.

A droga, ainda acondicionada como chegou, seria distribuída no Vale do Sinos. Em depoimento, o suspeito chegou a afirmar que venderia para um traficante de Porto Alegre, mas a conexão ainda é apurada pela polícia. Outros 50 quilos de maconha foram descobertos pelos agentes do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) em uma casa no bairro Celestina, em Campo Bom. O local, supostamente usado para distribuir a droga a outros pequenos pontos de tráfico na região, também servia de esconderijo para que criminosos ligados aos Manos acomodassem um arsenal.

– São armas provavelmente usadas em roubos a bancos e outros assaltos com muita violência – afirma o delegado Rodrigo Zucco.

Foram apreendidos seis revólveres calibre 38, duas pistolas 9 mm e uma submetralhadora 9 mm, de fabricação brasileira. Dois homens, de 24 e 27 anos, foram presos. Ambos confirmaram que fazem parte da facção que tem a base no Vale do Sinos.

PARA COMPRAR CRACK, PAI TENTA VENDER BEBÊ POR 10 REAIS


ZERO HORA 07 de setembro de 2013 | N° 17546

RENATO GAVA

FLAGELO DO CRACK

Pai tenta vender bebê por R$ 10. Rapaz que ofereceu filho de 11 meses a moradora da Capital foi preso


Um homem foi preso por tentar vender o filho de 11 meses, por R$ 10, para comprar crack. O caso ocorreu na tarde de ontem em Porto Alegre.

Anderson Machado Fonseca, 25 anos, foi preso em flagrante e encaminhado ao Presídio Central.

– Eu nunca tinha visto uma coisa dessas, é um fato totalmente atípico. Agora, o juiz que vai analisar – disse a delegada plantonista da 2ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), Raquel Dornelles.

A mãe da criança, 21 anos, foi ouvida na delegacia. Ela contou que saiu de manhã para trabalhar e deixou a criança com o companheiro. Quando voltou, ao encontrar a casa vazia, começou a procurá-los pelo bairro e, como não os encontrou, chamou a Brigada Militar.

Pouco depois das 14h, Fonseca teria batido na casa de uma estudante, na Rua Pio X, no bairro Bom Jesus. Quando ela atendeu, o rapaz teria dito que, se lhe desse R$ 10, poderia ficar com a criança. A estudante (o nome e a idade não foram divulgados pela polícia) chamou a mãe. A mulher pediu a duas vizinhas que fossem testemunhas e, sem que o jovem percebesse, acionou a Brigada Militar. Depois, trocou as roupas da criança e a alimentou.

Pais do suspeito ficaram com a custódia da criança

Policiais militares chegaram ao local, identificaram Fonseca e o levaram para casa, distante cerca de dois quilômetros dali. Na residência, encontraram a mãe da criança. Ela também foi conduzida à delegacia.

Conforme a delegada Raquel, a jovem pediu para ficar com a custódia da criança, mas o bebê foi entregue aos pais de Fonseca.

– A mãe sabia que o pai da criança é drogado e, mesmo assim, a deixou com ele. Correu um grande risco – justificou Raquel.

O pai de Fonseca também esteve na DPPA e, em depoimento, confirmou que o filho é usuário de drogas. Pediu que ele fosse encaminhado a uma clínica em vez de ser preso.

– Eu o orientei que procurasse um advogado – contou a delegada.

Fonseca, que responde por assalto praticado em 2006, negou-se a prestar depoimento. Devido à gravidade do caso, a delegada decretou uma fiança no valor de R$ 5 mil. Como ele não pagou, foi levado ao Presídio Central. Foi enquadrado no artigo 238 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê pena de uma a quatro anos de prisão para quem “prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiros mediante paga ou recompensa”.