COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sábado, 25 de janeiro de 2014

HADDADOLÂNDIA


REVISTA VEJA - Blog Reinaldo Azevedo, 23/01/2014 às 19:07


Xiii… Policiais civis entraram sem passaporte num mundo estrangeiro chamado “Haddadolândia”


Xiii… A Polícia Civil pisou no Território Sagrado da Cracolândia, transformada pelo prefeito Fernando Haddad, na prática, em área livre para o consumo da droga e o tráfico. É a consequência óbvia do tal programa “Braços Abertos”, que dá salário, casa e comida para os viciados, sem lhes pedir nada em troca: nem que se tratem do vício nem que se comprometam com o trabalho. Se não aparecerem para as quatro horas obrigatórias, deixam de ganhar R$ 15. E só. Não é proibido nem mesmo consumir a pedra com o uniforme da Prefeitura. O que aconteceu?

Policiais civis prenderam um rapaz. Parece que não estavam identificados como membros da Polícia Civil. É preciso ver as circunstâncias, mas isso não é necessário. Frequentadores da Cracolândia atacaram os policiais com paus e pedras e quebraram o vido do carro. Aí, sabem como é…. Outras viaturas da Polícia Civil chegaram, e o confronto aconteceu, com bombas de gás e balas de borracha. Três pessoas teriam sido feridas, inclusive uma criança. Quatro foram detidas.

Eis aí uma outra ação da Prefeitura de São Paulo que está a pedir uma boa pesquisa de opinião, com perguntas bem-feitas, objetivas, para que os paulistanos deem a sua opinião sobre o programa.

É preciso apurar melhor o que aconteceu; sim, sempre existe o risco de a polícia ter errado e coisa e tal. Mas esse é um daqueles casos que boa parte da imprensa transforma na luta do bem contra o mal. E, por incrível que pareça, o mal será sempre a polícia, esteja certa ou errada; e o bem será sempre aquele ligado à droga, esteja certo ou errado.

Conheço poucas perversidades morais tão agudas como o programa “Braços Abertos”. De fato, ele condena o dependente ao vício. Dá-se de barato que tentar o contrário é inútil. Pior: ao lhe conceder uma área da cidade, cria um gueto, um Vale dos Caídos, em que vigoram leis muito particulares.

Para arremate dos males, a área da cidade mais bem dotada de infraestrutura é esterilizada, privatizada por dependentes e traficantes. Os moradores do Centro que não são dependentes estão condenados ou a viver segundo as regras impostas pelas drogas ou a cair fora, mudar-se dali — vendo, adicionalmente, se esfarelar seu patrimônio.

Reitero que é preciso ver direito o que aconteceu, mas noto que, em nenhuma democracia do mundo, policiais são recebidos com paus e pedras sem que haja reação muito dura. Não é preciso explicar por quê.

Mais um pouco, será preciso ter um passaporte para entrar na Cracolândia, que deixará de ser um gueto para se transformar numa espécie não de país, mas de mundo estrangeiro.

É o fim da picada! Sugiro, diga-se, a mudança do nome da região: agora é a Haddadolândia.


Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

LEGALIZAR O TRÁFICO DE DROGAS ADIANTA?


ZERO HORA 21 de janeiro de 2014 | N° 17680

ARTIGOS

Rafael Vitola Brodbeck*




Virou moda nos círculos intelectuais desconectados da realidade propugnar a legalização do comércio de entorpecentes. Acadêmicos, pesquisadores, muitos daqueles não vivem o cotidiano sobre o qual tantas palestras ministram, tantos artigos rascunham, tantas opiniões vociferam nos meios de comunicação.

Quando a ideologia toma conta – e ela é justamente prevalecer a ideia em detrimento do objeto –, os falsos argumentos são rapidamente sacados e entrecortados com críticas ao capitalismo, às elites, aos opressores e a todos os inimigos que a esquerda adora denunciar. O tema das drogas se insere nesse panorama, pois a regularização de sua venda por parte do Estado muito interessa aos lucros das Farc, amigas de certos partidos que lhes são irmãos no Foro de São Paulo, organização que muitos fingem que não existe, mas que, para espanto de todos, possui atas de suas reuniões publicadas e deseja retomar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu com a ruína da União Soviética.

Transformar o traficante em comerciante não vai diminuir a venda de drogas. A facilidade da mercancia de narcóticos fará com que a oferta aumente, e muitos daqueles que só os consomem nas sombras das bocas sairão à luz do dia, sem vergonha de comprar algo que se tornará lícito como a cerveja. Ademais, é provável que os traficantes não queiram se legalizar para não pagar impostos e assim a venda irregular continuará a ser combatida pela polícia.

Fala-se em legalização apenas da maconha. Qual o impeditivo de se legalizar a cocaína? Se os tais defensores da “erva natural que não pode te prejudicar” não pretendem que drogas pesadas tenham sua venda permitida, trata-se de uma hipocrisia descomunal. Já, se querem liberação de todo entorpecente, não estaria sua tese em descompasso com o que pensa a sociedade? Ou a vontade do povo, nada afeito a ver maconheiros e cheiradores por aí, só vale na hora de eleger políticos muitas vezes ligados ideologicamente aos mesmos intelectuais? Parte da academia quer impor seus desejos com prejuízo do que crê o brasileiro médio?

Legalizando-se só a maconha, é verossímil acreditar que os seus vendedores, para continuar no tráfico, migrem para a cocaína, e os de cocaína permaneçam traficando. E não sendo mais crime nenhum tipo de venda de droga, poderão partir para outras modalidades como o roubo, pondo suas quadrilhas a serviço dos mais desconcertantes ataques à ordem. Traficante vende drogas porque dá dinheiro fácil. Fosse só pelo dinheiro, seria empreendedor em busca de ganho lícito. Escolhe o tráfico para não dar satisfações a ninguém e lucrar com eliminação da concorrência pelo homicídio dos rivais. Com a droga lícita, ou continuarão a vendê-la em concorrência com os legalizados, ou adotarão outras formas de delinquir.


*DELEGADO DE POLÍCIA EM SANTA VITÓRIA DO PALMAR

domingo, 19 de janeiro de 2014

GUERRA E PAZ

ZERO HORA 19 de janeiro de 2014 | N° 17678

ARTIGOS

Luiz Antônio Araujo*




A coluna Informe Especial de Zero Hora, editada com primor por Tulio Milman, publicou na sexta-feira uma nota sugerida por um leitor a respeito da atitude dos traficantes depois da legalização da maconha. Diz o inspirador do texto que, para compensar a perda de receita, os narcoempreendedores de hoje poderiam escolher entre estudar sociologia, antropologia ou jornalismo, fazer palestras contra as drogas, se dedicar à política ou à vida monástica ou passar a vender drogas mais pesadas e cometer crimes mais violentos.

A leitura da nota me trouxe à mente a figura do francês Georges Clemenceau (1841-1929). Não porque o velho homem público tivesse algo relevante a dizer sobre drogas ou porque tenha se dedicado a três dos ofícios citados (foi jornalista, palestrante e político). Mas porque, nos últimos 20 anos, a política oficial em relação à maconha foi definida e conduzida como uma guerra em todo o hemisfério ocidental. E de guerra Clemenceau entendia. Quando foi preciso organizar um gabinete de emergência para evitar o colapso francês no sangrento front ocidental, em 1917, o escolhido para chefiá-lo foi esse combativo tribuno nascido na Vendeia. Um ano depois, quando a França e seus aliados assinaram o armistício com a Alemanha derrotada, os compatriotas chamaram-no de “Pai da Vitória”. Nesse dia, Clemenceau declarou:

– Ganhamos a guerra. Agora, devemos ganhar a paz, e isso será talvez ainda mais difícil.

Não há nenhum “Pai da Vitória” na guerra contra as drogas porque os que a moveram foram derrotados pelas próprias ilusões. No afã de combater a produção e o consumo de toda modalidade de substância ilegal, a maconha entre elas, os Estados Unidos optaram por banir qualquer forma de cultivo. Como as distintas variantes da Cannabis sativa são culturas tradicionais em regiões empobrecidas, essa política tensionou países e empurrou populações inteiras para a ilegalidade. Nada disso impediu o consumo de crescer no mundo inteiro, tendo como carros-chefes os Estados Unidos e a Europa, seguidos de um notável boom do mercado na América Latina. Obrigado a operar nas sombras e a recorrer à corrupção e à violência, o tráfico experimentou um processo rápido de cartelização. O narconegócio é como o monstro alienígena de Alien, o Oitavo Passageiro: uma criatura altamente resistente, que se reproduz com uma velocidade impressionante e luta com desespero e criatividade pela sobrevivência. Não respeita fronteiras, instituições ou ideologias e se torna um fator de profunda instabilidade política. Não há exemplo melhor do que a região de Michoacán, no México, uma das principais zonas de plantação de maconha e fabricação de drogas sintéticas do México, onde uma verdadeira guerra civil opõe o cartel batizado de Cavaleiros Templários e as milícias de pequenos agricultores que se opõem às gangues.

Prever o que farão os traficantes após a legalização da maconha é tão difícil quanto imaginar, antes do fim da Lei Seca, como se comportariam os negociantes americanos clandestinos de álcool. Muitos buscaram novos modelos de negócio, da infiltração de sindicatos à indústria do entretenimento. Outros investiram em conexões políticas, e alguns simplesmente desapareceram. Biógrafos do presidente John Kennedy levantam suspeitas, embora sem nenhuma evidência material, de que parte da fortuna da família tenha sido reunida com atividades ilegais durante a Lei Seca – os Kennedy eram comerciantes de bebidas antes da proibição, e o patriarca, Joseph, voltou ao ramo em 1933. O crime organizado não evaporou e tornou-se, sob muitos aspectos, mais sofisticado e perigoso. Mas ninguém atribuiu esse fenômeno às facilidades abertas para o consumo de álcool pelo cidadão comum. Talvez seja mais difícil ganhar a paz do que a guerra. Ignorar a realidade, porém, é o melhor caminho para perder as duas.

*Jornalista

sábado, 18 de janeiro de 2014

UMA CAVALGADA NO INFERNO

GNAT GLOBO 17/01/2014 às 16:35

Irene Ravache conta detalhes da luta pela recuperação do filho viciado



'Foi uma cavalgada no inferno!', contou a atriz

O "Marília Gabriela Entrevista" deste domingo (19) traz Irene Ravache. A atriz fala sobre sua carreira, seus papéis mais importantes e, quando assunto é sua vida pessoal, ela não foge da conversa. Entre os assuntos, Irene conta como enfrentou o vício do filho em drogas, e lembra detalhes de todo o processo de recuperação dele. "Foi uma cavalgada no inferno", desabafa Irene, que diz ter havido momentos em que olhava para o filho e não o reconhecia. "Houve um dia - ele já vinha em recuperação - em que eu olhei para ele e vi outra vez o meu filho. É uma coisa avassaladora!", recorda-se.

A atriz contou que diversas vezes ela e o marido tentaram interferir e internar o filho à força, mas que esse apoio da família só funcionou no dia em ele buscou ajuda sozinho. "Quando funciona mesmo é quando a pessoa diz 'eu cheguei ao fundo do poço'. Agora, o fundo do poço qual é?", questiona.

Confira um trecho da entrevista..



 
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Quando estava na ativa e inserido em Conselhos Municipais de Entorpecentes e Segurança Escolar, recebia familiares de dependentes totalmente desolados, desorientados e com medo. E, pior, sentíamos uma angústia conjunta diante da sensação de impotência para resolver o problema diante das dificuldades em encontrar vaga num centro de tratamento de dependências (só existia um na época), hospitais especializadas, e da pessoa querer se tratar. É muito descaso dos Poderes no enfrentamento de um problema que tem levado milhares de brasileiros serem aliciados pelas facções, cometerem crimes e morrerem pela lei do crime, por overdose ou nos confrontos com a polícia.

MACONHA NO QUINTAL


zero hora 17 de janeiro de 2014 | N° 17676

DROGAS


A Polícia Civil de Santiago apreendeu um pé de maconha na tarde de ontem, em Santiago, na região central do Estado.

Segundo o delegado Vladimir Haag Medeiros, o pé, medindo cerca de 2,5 metros de altura, foi encontrado nos fundos de uma residência, no bairro Itu. Quando chegaram ao local, onde estão situadas diversas casas no mesmo pátio, os policiais foram informados da existência do vegetal.

– Nos causou surpresa o tamanho da planta, que é bastante grande – conta Medeiros.

Conforme o delegado, o suposto dono do pé de maconha já vinha sendo investigado por tráfico de drogas. Ele não estava na residência no momento da apreensão. Porém, Medeiros adianta que o suspeito deve ser indiciado pelo crime.

Após ter uma parte retirada e encaminhada ao Instituto-geral de Perícias (IGP) para análise, a planta foi destruída.



FESTIVAL NA MACONHA EM PORTO ALEGRE



ZERO HORA 18 de janeiro de 2014 | N° 17677

HELOISA ARUTH STURM E KAMILA ALMEIDA

EVENTO POLÊMICO. Polícia mira festival da maconha

Quatro pessoas devem ser indiciadas nos próximos dias por terem organizado competição realizada em dezembro, na Capital



A Polícia Civil identificou quatro pessoas que teriam organizado a 2ª Copa Growroom, campeonato de maconha realizado no fim de 2013 na Capital. A competição, que tinha o objetivo de avaliar diferentes tipos da erva cultivada em ambiente doméstico, reuniu cerca de cem pessoas no dia 7 de dezembro, em uma pousada no bairro Lami, zona sul de Porto Alegre.

Apesar de reconhecer que alguns deles são ativistas que tentam sensibilizar as autoridades e a sociedade para a liberação do uso da droga, a polícia pretende ser dura com todos os participantes. O diretor de investigações do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), Heliomar Franco, classificou como um “deboche” a atitude do grupo de divulgar, na internet, um vídeo com imagens do encontro.

– Eles se expuseram nos vídeos. Além de terem feito uma coisa ilícita e inusitada, cometeram o grande equívoco de se autoidentificar. Parece que querem nos testar. Não se reuniram para fumar maconha, eles fizeram uma competição para outras pessoas provarem, trouxeram a droga de outros locais, e isso é tráfico. Se cada um estivesse com o seu pacotinho e provasse do seu, seria posse para consumo, mas não foi isso o que aconteceu. Aqui, se aplica a lei da repressão. Não tem margem para discussão – afirmou o delegado.

Pena pode chegar a 15 anos de reclusão

Para Franco, as imagens obtidas pela polícia por meio das redes sociais mostram um comportamento que se enquadra como tráfico, associação para o tráfico, posse de entorpecentes e apologia ao consumo da droga. Os quatro já identificados devem ser indiciados nos próximos dias. A pena pode chegar a 15 anos de reclusão. Já foram identificados usuários de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro no grupo. A polícia pretende esclarecer o caso dentro de 15 dias e estuda se vai intimar os participantes para que prestem depoimento ou se vai pedir à Justiça para que seja decretada a prisão temporária dos organizadores.

A competição é comum em locais onde a droga é legalizada, como na Holanda. Esta foi a segunda vez que o evento ocorreu no Brasil. Em 2012, o campeonato foi em Florianópolis.

sábado, 4 de janeiro de 2014

FAMÍLIA ARRUINADA PELO VÍCIO


ZERO HORA 05 de janeiro de 2014 | N° 17664

LETÍCIA COSTA

Mulher de 69 anos que sustentava a dependência de um neto em cocaína teria sido assassinada, há quatro anos, por um taxista a serviço de traficantes


Eram 21h de sexta-feira, 30 de outubro de 2009, quando Daniel da Silva Blanco chegou em casa na Rua Urussanga, bairro Guarujá, zona sul de Porto Alegre.

Viciado em cocaína, o jovem de 29 anos olhou para a avó, que assistia à televisão, e ordenou, antes de se trancar no quarto:

– Linda, resolve lá pra mim!

Resignada, Linda Alsira da Silva Blanco, 69 anos, sabia o que tinha de ser feito. Desde que Daniel tornara-se dependente químico, era a aposentada quem sustentava o vício do neto. Mas naquela noite a conversa com o taxista que chegara para cobrar a droga fora diferente. Linda não tinha R$ 80 para pagar – e morreu no colo de uma filha, com um corte profundo na cabeça, após conversar com o motorista.

A morte de Linda era tratada como um acidente, mas, em outubro passado, a telefonista Márcia Rosane Blanco de Moraes, filha de Linda, contou o que sabia ao delegado Lauro Santos, da 10ª Delegacia da Polícia Civil:

– Ela foi morta pelo taxista.

A tragédia vivenciada pelos Blanco expõe o drama de dependentes químicos e de seus familiares.

Conforme o laudo da perícia, Linda morreu em decorrência de hemorragia cerebral.

– Cada vez que batia alguém cobrando lá em casa, ela não deixava a gente sair. Chegou a entregar televisão, som, tudo que tinha. Ele (Daniel) acabou com a vida dela – resume Márcia.


Para delegado, idosa foi morta a coronhada


Com depoimentos e laudos em mãos, o delegado Lauro Santos acredita que o taxista tenha dado uma coronhada em Linda. Identificado em fotografias por Márcia, o motorista pode responder por lesão corporal seguida de morte ou homicídio doloso (quando há intenção de matar).

– Ela gritou “Márcia, socorro, chama a polícia”. Quando corri, já estava caída no chão – afirma a telefonista, que anotou o prefixo do táxi.

Ao reabrir o caso, Santos solicitou à Justiça a autorização para um mandado de busca e apreensão da arma e de prisão temporária – que não foram deferidos pela Justiça.

Na quinta-feira, 26 de dezembro, o homem se apresentou à polícia, e negou a agressão.

A destruição da família, incentivada pela facilidade de acesso à droga, começou ainda na adolescência de Daniel. Criado e registrado pela avó, o jovem, que estudava e trabalhava, chegou a ficar três dias sumido. Foi encontrado com roupas velhas, porque tinha usado a vestimenta como moeda de troca. A tia lembra de um dia de folga em que quis ouvir a coleção de CDs que mantinha e só encontrou as capas.

– Tinha de ter as coisas muito bem escondidas dentro de casa. Cansei de ter de colocar ele embaixo do chuveiro para tomar banho frio. Ele queria sair enlouquecido por causa da droga – conta Márcia.

Depois da morte de Linda, Daniel foi mandado embora pela tia. Perambulou entre residências de parentes. Em 22 de janeiro de 2010, foi de táxi na casa de familiares e de alguns vizinhos na tentativa de conseguir dinheiro emprestado para pagar mais uma “corrida”. Na última chance, recorreu ao endereço onde um tio trabalhava, na Rua Vigário José Ignacio. Na portaria, o taxista esperava o dinheiro, mas o parente do dependente químico estava de férias. Sem encontrar uma solução, Daniel pôs fim à própria vida.




ZERO HORA 05 de janeiro de 2014 | N° 17664

ENTREVISTA

“A dependência química é uma doença crônica"



Autora de uma pesquisa com familiares de dependentes químicos da capital paulista, a psicóloga Fátima Rato Padin salienta que alguns fatores de risco podem levar ao mundo das drogas. Pesquisadora ligada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (Inpad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a psicóloga concedeu entrevista a Zero Hora. A seguir, os principais trechos da conversa.

Zero Hora – O que leva uma pessoa a se envolver com a droga, mesmo que nenhum familiar seja viciado?

Fátima Rato Padin – A dependência química é uma doença crônica, recidiva e multifatorial. Os fatores de risco e de proteção são predisposição (genética /bioquímica), baixo monitoramento familiar, histórico familiar de doença mental, comportamento agressivo e antissocial, alienação ou rebeldia, baixo rendimento acadêmico, baixo vínculo escolar, pares usuários, atitudes positivas em relação a drogas por parte da comunidade e disponibilidade de drogas. Mesmo não tendo parentes usuários, outros fatores de risco podem levar ao uso e à dependência.

ZH – Como a família pode saber que um membro está se envolvendo com drogas?

Fátima – Percebendo mudanças comportamentais (mesmo que sutis), pernoites fora de casa, amigos usuários, queda no rendimento escolar ou interrupção do mesmo, alienação, falta de cuidados pessoais, fuga de contato com familiares.

ZH – Quais atitudes equivocadas dos familiares podem incentivar o vício?

Fátima – É preciso levar em consideração atitudes permissivas a consumo de qualquer substância lícita ou ilícita, falta de monitoramento, falta de diálogo, demora na busca de ajuda ou orientação.