COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

DROGAS SÃO O VERDADEIRO MAL DO SÉCULO XXI


JORNAL DO COMERCIO 14/05/2014


EDITORIAL


As drogas estão de tal maneira disseminadas que não há mais segmentos sociais livres dessa autêntica praga do mal do século XXI. Não que tenha começado agora, mas jamais se traficou, consumiu e prendeu tantas pessoas envolvidas com drogas de todos os tipos. Nos laboratórios, ano após ano, são produzidas substâncias cada vez mais alucinógenas e que causam efeitos terríveis. Na mente e no corpo, provavelmente gerando assassinos em série como ocorre nos Estados Unidos, uma sociedade enferma. No Brasil, as mortes violentas por arma de fogo, segundo a polícia, geralmente envolvem disputas por pontos de venda de drogas ou acertos de contas entre traficantes e consumidores com dívidas. É um círculo vicioso terrível, parece, sem fim. Cabe à família monitorar o comportamento dos filhos adolescentes, tendo em vista a amplitude que está tomando o consumo de drogas na sociedade, dos mais pobres aos abastados. E o álcool é uma droga.

Com o alto valor das drogas e o que se paga para quem as transporta de um país a outro, inclusive cruzando oceanos, torna-se fácil recrutar gente para se arriscar. Com muitos desocupados, a falta de estrutura familiar e de estudo, a tentação é muito grande para centenas ou mesmo milhares de pessoas. Além disso, a interpretação legal no Brasil é um primor de impunidade. Por exemplo, uma marroquina foi presa no Aeroporto Internacional de Guarulhos com 4,7 quilos de cocaína na mala, mas acabou sendo absolvida após alegar que a bagagem com a droga não era dela. Simples, não?

Da geração em que a grande infração contra os mais velhos e os padrões sociais impostos era fumar cigarros e tomar uma “cuba libre”, pulamos para drogas como a maconha e, rapidamente, para a cocaína, além daquelas químicas, das quais a mais popular foi o LSD. Hoje, há o terrível crack. Fácil de ser obtido e muito barato para ser vendido. As crises financeiras escancaram as portas para a marginalidade em mentes e corpos não muito sadios. Não se justifica com a pobreza alguém enveredar pela marginalidade, mas que, em parte, explica, é uma verdade.

Além disso, o abuso no consumo de álcool no Brasil supera a média mundial e apresenta taxas superiores a dezenas de países. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), que alerta que 3,3 milhões de mortes no mundo em 2012 foram causadas pelo uso excessivo do álcool, 5,9% de todas as mortes. Segundo a entidade, não apenas a bebida pode gerar dependência, mas também poderia levar ao desenvolvimento de outras 200 doenças. Entre os 194 países avaliados, a OMS chegou à conclusão de que o consumo médio mundial para pessoas acima de 15 anos é de 6,2 litros por ano. No caso do Brasil, os dados apontam que o consumo médio é de 8,7 litros por pessoa por ano. Esse volume caiu entre 2003 e 2010. Há dez anos, a taxa era de 9,8 litros por pessoa.

O pior é que as meninas, que antes refugavam beber mesmo em festas, agora, nas chamadas baladas, fumam e bebem. No caso brasileiro, a diferença entre o consumo masculino e feminino ainda é profundo. Entre os homens, a taxa chega a mais de 13 litros por ano. Para as mulheres, ela é de apenas 4 litros, sendo 60% do consumo de cerveja e apenas 4% do consumo pelo vinho. A droga é o verdadeiro mal do século XXI.

domingo, 11 de maio de 2014

O DESABAFO DE UMA SOBREVIVENTE


ZH 11 de maio de 2014 | N° 17793


LARISSA ROSO



ADOLESCENTES E BEBIDA





Camila* embriagou-se com vodca e uísque em quase todos os finais de semana entre os 13 e os 22 anos, em festas ou na casa de amigos. Arriscava-se na carona de motoristas também bêbados, despertava na companhia de desconhecidos. Sofria ao ter de encarar os pais e mentir para eles. Não se recorda do que fez em incontáveis madrugadas. Perdeu oito celulares e seis bolsas.

– Cheguei ao fundo do poço. Meus pais foram coniventes, mas não tinham a mínima noção do que eu aprontava e sofria – conta.

Sóbria há dois anos e meio, a advogada de 24 anos, formada em instituições privadas da Capital, procurou ZH depois de ler a reportagem “Meu filho (não) bebe”, publicada no domingo passado. Reviveu quase uma década de excessos ao percorrer as cinco páginas com flagrantes de adolescentes que driblam a lei e os pais para consumir álcool. Queria desabafar.

– Passei pelas situações que muitos daqueles jovens estão passando. Quero que possam se identificar com a minha história.

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

“Meu primeiro porre foi aos *13 anos. Não lembro de nada. Apaguei e acordei no outro dia, de banho tomado. Comprávamos vodca no supermercado, fazendo cara de gente mais velha, maquiadas. Misturávamos com suco em pó, refrigerante. Bebíamos antes das festas ou na casa de alguém, sem os pais saberem. Tinha gente que entrava em coma alcoólico, convulsionava. Nunca achei que tivesse excesso. Não conseguia notar, nem meus amigos. Eles faziam também.

Quando você começa a beber sozinho, não tem noção do que é beber moderadamente. Comecei a beber em casa, com os meus pais, mas eles nunca imaginaram que eu tomasse cachaça e vodca do gargalo. Sabiam que rolava bebida nas festas, mas achavam que era só uma cervejinha.

Na escola, levávamos garrafas escondidas na mochila e bebíamos no ginásio, nos banheiros e nas salas vazias, só pela diversão. Participei de todas as excursões: Ferrugem, Bariloche, Ilha do Mel, Porto Seguro. Bebíamos o dia inteiro. Era muita loucura. Saía direto, todo final de semana. Sempre exagerei, nunca soube o limite. Meus pais me levavam e buscavam e não viam. Percebiam o porre das minhas amigas e não o meu. Nunca vi eles dizendo ‘que horror’.

Uma vez meu pai encontrou uma amiga minha que tinha ficado bebaça na véspera, deu uma risada e disse: ‘Mas que trago, hein?’ As coisas não eram encaradas como algo grave. E eu via isso nos pais de todos os meus amigos.

Gostava muito mais da sensação, da brincadeira, da glamurização do que do gosto da bebida. Tomava uísque puro. Usei maconha e ecstasy. Cheguei a experimentar cocaína, mas não achei nada de mais. Meu negócio era álcool.

Briguei com traficantes quando estava com uma amiga que usava drogas. Comecei a discutir, bati num deles. De tão bêbada, caí num mato, torci o pé. No outro dia, todo mundo riu: ‘Conta aí!’ Eu era a mais falada e exaltada, estava quebrando as regras. Quando chegava no colégio, era o centro das atenções.

Piorou no início da faculdade. As festas eram sempre open bar, pagava R$ 10 ou R$ 15 e consumia à vontade. Briguei numa festa. A polícia queria me levar para uma delegacia, mas fiz um drama, inventei que estava passando por problemas e me safei. Matava muita aula porque acordava de porre. Minha vida girava em torno de festas e bebidas. Saía terça, quarta, sexta, sábado. Sempre fui estudiosa, conseguia dar um jeito.

Meus pais me tiraram a chave para ver o estado em que eu entrava em casa, mas continuei chegando bêbada. Antes de eu sair, minha mãe dizia: ‘Filha, por favor, te controla’.

Sempre fui teimosa e me achei muito independente. Ouvia um ‘não’ e dava um jeito de manipular a situação. Nunca fiz nada proibido, mas conseguia tudo que queria. Eles viam que estava errado, mas se proibissem ficaria pior. Chegava de manhã ou até de tarde e mentia muito: ‘O carro do meu amigo estragou e tivemos que esperar o guincho’, ‘acabou a bateria do celular’. Voltava a pé, sozinha, pelo meio da Redenção. Andei a 100 quilômetros por hora na Nilo Peçanha com caras bêbados. Perdi oito celulares e seis bolsas.

Acordava e não lembrava o que tinha acontecido. Contávamos as histórias uns dos outros: ‘Fulano subiu no palco’, ‘Fulana tirou a blusa’, ‘Fulano foi pego transando atrás da cortina’. Uma amiga caiu, esfolou o rosto e quebrou três dentes. Um amigo atropelou um casal e respondeu criminalmente. Outro teve problemas no fígado. Uma conhecida foi estuprada por dois caras na saída de uma festa. Pelo menos três amigas deixaram a camisinha de lado e pegaram doenças sexualmente transmissíveis.

Quando eu lembrava, me arrependia de uma forma absurda. Vivia num misto de emoções, num momento sentia uma extrema alegria, depois pensava: ‘Putz, o que foi que eu fiz?’. Não tinha tanta ressaca, o abalo moral era muito maior, principalmente porque tinha de olhar para os meus pais e dar bom dia. Aquilo me matava. Sabia que estava machucando eles, mas conseguia me enganar: ‘Tá, não é algo tão horrível. É só um porre, todo mundo faz isso’.

Minha casa sempre teve um bar que era o orgulho da família, com vinhos e champanhas. Dividíamos garrafas. Nunca viram problema de eu beber em casa porque ali estava segura. Ia dormir meio tonta. Uma vez cambaleei, bati na parede e caí. Meus pais contavam histórias de bebedeiras minhas em churrascos com amigos: ‘Ela não conseguia abrir a porta e dizia que a chave estava estragada’. Claro que na hora eles achavam ruim, mas depois todo mundo ria.

Tinha 18 anos quando acordei pela primeira vez com um estranho. ‘Onde estou?’, me perguntei. Não sabia nem o nome do cara, não usei preservativo. Tive vergonha, me senti acuada, minha dignidade estava no chão. Achei que a culpa era minha. ‘Por que foi ficar bêbada? Agora aguenta’, pensei. Cheguei em casa às 10h e menti para os meus pais que estava com um guri com quem ficava na época. Não se espantaram tanto. Apesar de ter conseguido enganá-los, precisava desabafar e contei a verdade. De início, ficaram assustados, mas, com meu pedido de ajuda, foram mais acolhedores. ‘Você não pode confiar nesses caras’, falou meu pai. Ele estava me dando conselhos amorosos, não tinha entendido a gravidade da situação. Depois de irem comigo a uma farmácia para comprar minha primeira pílula do dia seguinte, me propuseram aprender a beber. Por um mês e meio, consegui. Passava a noite só com dois copos. Mas daí bebi dois e meio, depois bebi três...

A segunda tentativa de parar foi depois de chutar uma pedra, tirar um pedaço do dedão e não sentir. Minha mãe viu sangue no lençol e ficou apavorada. ‘Camila, você pode beber, mas são dois copos.’ Não é fácil porque ninguém te poupa. Acham você fraca se não bebe, te olham estranho, não aceitam. Mandei um e-mail para amigas pedindo ajuda. Vi que a minha situação era pior que a delas. Já era conhecida como bebum, pé de cana. ‘Gurias, preciso aprender a beber.’ ‘Claro’, a maioria respondeu. Meus pais ficaram mais aliviados. Degringolei de novo.

Aos 21 anos, era estagiária e faltei a um dia de trabalho. Minha mãe me acordou às 16h, aos berros: ‘O que você está fazendo da sua vida?’ Tentei mentir, mas ela sentiu o fedor de álcool e começou a chorar. Foi um choque. Chorei junto e falei que queria parar. Eu não aguentava mais passar por tudo que estava passando. Fizemos uma reunião familiar. Meu pai sugeriu o Alcoólicos Anônimos (AA), mas implorei para não ir. Fui a um psiquiatra, tomei antidepressivos por pouco tempo. Não queria fazer terapia. Precisava ter força de vontade. Minha formatura estava próxima, já tínhamos comprado horrores de bebida. Mas aí decidi parar.

Recusei muitos convites, não foi fácil. Nas festas, todo mundo bebia e eu ali, no suco ou na água. Então me falaram que no AA também tinha pessoas jovens. Fui sozinha, sentei lá no fundo. Acabei inventando uma desculpa e indo embora, mas vi que tinha gente de todos os tipos, não era o que eu pensava antes. As histórias tinham muito a ver comigo. Havia o cara que acordava e precisava tomar vodca, isso eu nunca fiz, mas tinha também a mulher que acordava na casa de estranhos. E outras situações me fizeram pensar: ‘Se eu não parar, isso vai acontecer comigo também’. Aquelas histórias ficaram na minha cabeça. Voltei, apesar da vergonha. Fui poucas vezes, mas me serviu como estímulo. Tinha que conseguir do meu jeito. Fiz minhas próprias regras.

Faz dois anos e meio que não bebo absolutamente nada. Meus pais foram muito presentes. Doaram o bar que tínhamos em casa, pararam de beber na minha frente. Ficamos mais amigos. Minha irmã não bebe nada, tem nojo, por causa do que passei. Meu pai chora quando fala nesse assunto. ‘Que bom que você parou’, diz. Eles não souberam lidar com tudo o que aconteceu. Entendo eles. Não sei se a liberdade que me deram foi o que acabou por causar tudo isso. Tento não criticar ninguém, até porque não deve ser fácil ver a sua ‘menininha’ passando por isso. Tenho certeza de que essa mesma liberdade que pode ter sido a causa de tudo foi também a solução. Senti na pele, e esse é o melhor aprendizado.

Hoje curto mais o dia, larguei um pouco a vida noturna. O esporte me ajudou muito: corro, jogo tênis, ando de bicicleta. Aprendi a lidar com o fato de ter que ir a uma festa, um casamento, uma formatura e não beber. Claro que me dá vontade. É inevitável.

Ao olhar minhas amigas bebendo e rindo, penso que queria me divertir como elas, sinto inveja. Nesses momentos, lembro do meu passado, mexo no meu ‘lixinho’. Tenho que ter aprendido algo com a minha imaturidade.”

quinta-feira, 8 de maio de 2014

MACONHA LEGALIZADA ABRE ROTAS E OPORTUNIDADES PARA O TRÁFICO

ZERO HORA 08/05/2014 | 05h01


Legalização da maconha deixa rastros de nova rota de tráfico. Volume apreendido na fronteira entre Brasil e Argentina, com provável destino ao Uruguai, foi de oito toneladas em abril

por Humberto Trezzi


Vista como uma política alternativa à guerra ao tráfico, a regulação do plantio e da venda da maconha no Uruguai ainda representa apenas uma coisa para os traficantes: oportunidade de negócios. De olho nesse mercado que começa a se formar no Cone Sul, os criminosos parecem ter se adiantado à lei da oferta e da procura. O volume de apreensões de droga destinada ao território uruguaio deu um salto nos últimos anos.

Em 2008, a polícia uruguaia localizou apenas 809 quilos de maconha. Em 2012, o confisco mais do que dobrou: 1,9 tonelada. E, em 2013, o número passou para 2,1 toneladas.

O volume é pequeno se comparado às apreensões na Argentina, que teria se tornado corredor de passagem da marijuana paraguaia a caminho do território uruguaio. Só no mês de abril, a Gendarmería argentina (polícia de fronteira) apreendeu mais de oito toneladas de maconha próximo ao Uruguai e na fronteira com o Brasil.

Ao longo do ano passado, as províncias argentinas contíguas ao Brasil apreenderam 13 toneladas. Tudo em cidades fronteiriças com o Rio Grande do Sul, como Paso de los Libres e Santo Tomé.

A Junta Nacional de Drogas do Uruguai calcula que um em cada três jovens de Montevidéu fuma maconha e cerca de 120 mil uruguaios a consomem pelo menos uma vez ao ano. Ou seja, 3,5% dos uruguaios (3,5 milhões de pessoas) fazem uso da cannabis sativa anualmente.

Para efeitos de comparação, é mais que o dobro do percentual brasileiro: a última grande pesquisa sobre maconha feita no Brasil, a cargo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgada em 2012, mostra que 1,5% da população consumiu maconha naquele ano.

— A maior parte do que é movimentado é direcionada ao Uruguai. Quando o governo daquele país autorizar o plantio, pode apostar que vão cultivar 10 vezes mais. Os traficantes são ligeiros – afirma o delegado André Luís Epifânio, chefe da delegacia da Polícia Federal em Uruguaiana.

Os caminhos do tráfico

(clique na imagem para abrir o infográfico em tamanho maior)


Dentro do território gaúcho também cresceu o movimento de marijuana. Foram 82 quilos confiscados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) de janeiro a março, sendo 50 destinados ao Uruguai, a maior parte disso em Santana do Livramento.

No primeiro trimestre de 2013 foram apenas 18 quilos de erva apreendidos. Outros 106 quilos destinados ao Uruguai foram apreendidos semana passada, em Cruz Alta.

— Os indícios de uma nova rota para o Uruguai são avassaladores. Basta ver as apreensões, que aumentaram — comenta Alessandro Castro, do setor de comunicação da PRF.

Autor de lei aposta em redução da ilegalidade

Especialista em segurança pública, o ex-deputado federal Marcos Rolim considera “precipitado” deduzir que a entrada de maconha no Uruguai aumentou. Ele diz que dados oficiais não necessariamente refletem tendência de aumento de atividades criminosas.

— As apreensões podem ter crescido porque a polícia trabalhou mais ou até porque algum traficante não pagou suborno — pondera o sociólogo, defensor da descriminalização do consumo da maconha.

Já o autor da polêmica Lei da Maconha, que regula o plantio e a comercialização no Uruguai, deputado Julio Bango (Frente Ampla), avalia que o tráfico possa ter aumentado frente à demanda crescente por marijuana entre uruguaios. Mas aposta na diminuição da ilegalidade ao longo do tempo.

— Quando o governo controlar o comércio, os traficantes vão perder espaço — afirma Bango.

Operação policial fecha bunker das drogas

Policiais federais argentinos e de fronteira receberam em outubro um informe que resultou em uma grande operação. Uma quadrilha transnacional teria locado uma estância em Santo Tomé, município argentino que faz fronteira com a cidade gaúcha de São Borja. De lá, enviavam cocaína para o Brasil e maconha ao Uruguai.

Em 14 de novembro, os agentes, munidos de ordem judicial, ocuparam a fazenda Santa María de Aguapey. Os 30 policiais entraram escondidos em um caminhão-frigorífico, de onde saltaram para a ação. O local era um verdadeiro bunker. Tinha pista de aterrisagem com quase mil metros de comprimento, um caminhão-tanque com mil litros de combustível para recarregar aeronaves e quatro aviões estacionados em meio a árvores.

Os aviões Super Skylane e Cessna 200 eram dotados de dispositivos que permitem driblar radares. A base do narcotráfico contava ainda com telefones via satélite, radiocomunicadores, GPS e gerador de energia própria. Na operação, os policiais descobriram 330 quilos de cocaína numa aeronave e prenderam oito pessoas.

Entre os presos, estavam argentinos, paraguaios, peruanos, bolivianos e uma brasileira. Ao serem interrogados, alguns dos presos admitiram que também vendiam maconha para o Uruguai.

— Portavam todo tipo de armas, incluindo fuzis norte-americanos — descreveu o secretário nacional de Segurança Pública argentino, Sergio Berni.

Outros dois aviões foram apreendidos em 17 de abril pela Gendarmería argentina em Paso de los Libres. Estavam numa fazenda, que tinha pista própria, ao lado do aeroporto daquela cidade. Ao todo, seis aeronaves foram confiscadas em cinco meses pelos policiais que atuam na fronteira Argentina-Brasil.

terça-feira, 6 de maio de 2014

MACONHA: SIM OU NÃO


ZERO HORA 06 de maio de 2014


O turista será
uma incógnita
que precisará
ser resolvida


MARCELLO BLAYA PEREZ
Médico psicanalista




A liberação da maconha no vizinho Uruguai, o primeiro país latino-americano a fazer isso, vai permitir a observação dos resultados. Os problemas que o presidente Mujica quer resolver e os nossos são os mesmos.

Podemos pensar em situações semelhantes ocorridas no passado com outros “vícios” como o álcool, o tabaco e o jogo do bicho e ver o que se pode aprender de suas “soluções”.

Os primeiros europeus nos Estados Unidos eram protestantes calvinistas, rígidos moralistas. Foram os primeiros a tentar uma “lei seca” no século 17. O “pai” da psiquiatria norte-americana, Dr. Benjamin Rush (1745-1813), um dos signatários da Declaração de Independência, tentou a segunda “lei seca” em 1784, por razões de saúde pública. A verdadeira lei seca foi decretada em 1920 e seus resultados foram o oposto do pretendido, pois houve um aumento do consumo de bebidas alcoólicas, graças sobretudo ao banditismo do qual a figura máxima foi Al Capone (1899-1947). Pressionado, o recém-empossado presidente Franklin Roosevelt (1882-1945) terminou a lei seca em 1933.

O uso do tabaco, já provado ser causador de doenças graves como câncer, enfartes e AVCs, continua livre graças ao lobby dessa indústria, fato bem demonstrado no filme O Informante.

Nós, que vivemos os anos 60, 70 e 80, assistimos à “cura” do jogo do bicho quando a Caixa Econômica Federal se transformou no maior “bicheiro” do Brasil. Com mais de 10 opções de jogo, uma delas com o nome de “jogo do bicho”, foi a solução que permitiu aos programas sociais receberem mais da metade dos valores apostados.

Quando a Holanda, que tentara a liberação, proibiu a venda de maconha aos turistas, o tráfico extinto voltou com força. No Uruguai, é preciso estar registrado para comprar 10 gramas por semana e cada residência só pode plantar seis mudas de Cannabis. Mas o turista será uma incógnita que precisará ser resolvida antes que a Holanda seja repetida no Uruguai.

domingo, 4 de maio de 2014

ADOLESCENTES BEBEM E DESRESPEITAM A LEI

ZERO HORA 03/05/2014

MEU FILHO (NÃO) BEBE

Longe de casa, adolescentes bebem brindando à ingenuidade adulta e ao desrespeito à lei.  Consequências podem ser observadas em postos de gasolina, clubes ou salões de festas de Porto Alegre


por Larissa Roso e Letícia Duarte



Em frente a clubes, jovens passam mal. O motivo: o uso abusivo de álcool antes das festasFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS


É comum pais externarem uma certeza em relação aos filhos que saem para uma festa no final de semana: “Meu filho não bebe”, “Minha filha só toma um golinho”, “Ele sabe o limite”.

Longe de casa, os adolescentes brindam à ingenuidade dos adultos e ao desrespeito à lei que proíbe a venda de bebida para menores de idade: “Eles sabem que eu bebo, mas não imaginam o quanto”, “Roubei Jägermeister do meu pai”, “Ninguém pede carteira de identidade”.

As consequências desse descompasso podem ser observadas em postos de gasolina, clubes ou salões de festas. Em pouco tempo, os jovens sucumbem ao alto teor alcóolico do que ingerem.

Nesta reportagem, ZH mostra um retrato dos exageros frequentes nas noites de Porto Alegre, a capital que lidera o consumo de bebida alcoólica por adolescentes no país.

Da festa para a enfermaria

A chuva não apressa meninos e meninas que desembarcam dos carros dos pais. Abrigam-se sob árvores, marquises e orelhões, retardando a entrada na Associação Israelita Hebraica, no bairro Bom Fim, na sexta-feira, 11 de abril, onde começa a festa Stop and Go, para adolescentes a partir de 14 anos. Compartilham garrafas de vodca, ingerida pura e em misturas com refrigerante de limão ou energético.

Dentro do clube, está proibida a venda de álcool, e do lado de fora se intensifica o consumo para compensar a restrição. Isis* é um dos muitos jovens já trôpegos pouco depois da meia-noite. Encostada na grade de um prédio residencial próximo, está alheia à negociação travada a sua frente. Mantém-se de pé porque um dos três amigos que a acompanha a segura contra as barras de ferro.

– Vamos, moça – insiste o segurança.

– Água – balbucia Isis, a saliva pingando do queixo.

Os jovens se apavoram com a possibilidade de a mãe de Isis ser alertada, em casa, sobre o estado da filha. Tentam demover o funcionário do clube da intenção de levá-la até a ambulância contratada pelos organizadores, estacionada perto dali.

– Ela já vai melhorar. Eu vou falar com ela – pede uma menina, engrolando as palavras.

Irritado com o diálogo desconexo, o homem interrompe os apelos das vozes arrastadas, ergue Isis no colo e a leva para dentro da Hebraica. Outros seguranças circulam pelas calçadas recolhendo garrafas vazias e dispersando as aglomerações mais ruidosas. Um menino cambaleante provoca gargalhadas: procura se firmar apoiando a bochecha na parede enquanto abre a braguilha para urinar. Com as calças caindo, logo é enlaçado em um beijo por uma menina. Abraçam-se, desequilibram-se, trançam as pernas e quase caem.

– Vamos lá, casalzinho apaixonado – alerta um segurança. – É uma creche – reclama.

Cheiro de vômito na sala de entrada

No tráfego intenso da Rua General João Telles, motoristas ignoram a ciclovia e param junto ao meio-fio. Uma mulher não arranca enquanto não se certifica de que a filha passou pela portaria. Logo transfere o olhar para um menino de camiseta encharcada sentado no chão, indiferente ao piso molhado, a cabeça apoiada nas mãos.

– É muito cedo. Já estão assim – lastima ela.

Afirma conhecer o garoto de vista. Observa-o por alguns minutos, atônita.

– Minha filha não bebe. Ela sabe que não pode beber – assegura, antes de partir.

Durante a semana, a Wazzap?!, produtora da festa, alertou no Facebook que não permitiria a entrada de menores de idade apresentando sinais de embriaguez. “Kkkkkkk”, desdenhou um adolescente em um dos posts, “rindo” na linguagem de internet. Muitos são admitidos apesar da bebedeira.

Joel Fridman, presidente da Hebraica, afirma que foi combinado com a Wazzap?! que haveria um bafômetro na entrada para impedir o acesso de jovens alcoolizados. Adolescentes com sinais de embriaguez seriam encaminhados à enfermaria, onde aguardariam a chegada dos pais, em segurança.

Gabriel Rodrigues de Freitas, sócio da Wazzap?!, alega que a empresa de segurança contratada não dispunha de bafômetro e que a produtora teve dúvidas quanto à viabilidade legal de impor o uso do aparelho a menores de idade.

– Temos entre 40 e 50 casos de embriaguez prévia por festa. Esta mos começando uma campanha para tentar diminuir o consumo.

Há uma enfermaria improvisada no térreo, de onde exala um fortíssimo cheiro de vômito. É o primeiro e último destino de quem não consegue subir a escadaria rumo à pista de dança – Isis é um dos pacientes em atendimento. Em um sofá em frente à porta guardada por um segurança, à vista de todos, dois rapazes dormem, encostados um no outro, caídos para a direita – um deles é o que, minutos antes, tentava fazer xixi na rua. Patrícia, representante do clube, não larga o celular, contatando familiares.

– Estou aqui com a Luciana. Ela está passando muito mal – informa por volta da 1h. – Ela está alcoolizada – esclarece.

Despertados de súbito, alguns interlocutores, desnorteados, custam a entender. No susto, cogitam até ocorrências mais graves, como acidentes de trânsito e lesões sérias. É frequente a incredulidade.

– Minha filha não faz isso – reage uma mãe.

Equipe se esforça para contatar pais

Patrícia recepciona pais de passo acelerado que demandam explicações. Um menino se adianta e detém a contrariedade do pai com um abraço.

– Desculpa – pede ele, recebendo um beijo.

A equipe se esforça para localizar os responsáveis por dois que estão desacordados – um não conseguiu pronunciar o telefone de contato, o outro forneceu um número errado. Uma enfermeira segura um cesto de lixo diante do que está em pior estado, aparando o vômito. Massageia as costas e os braços para reanimá-lo. O segurança aborda os passantes pedindo ajuda:

– Ô, meu, não conhece esse magrão aí?

Na porta da enfermaria, a mãe de Isis se apresenta. Encontra a filha em uma poltrona, incapaz de levantar. Conta que a jovem não costuma tomar nem o champanha para o brinde de Ano-Novo. É orientada a levá-la direto para o Hospital de Pronto Socorro. Isis sai como entrou: inerte, carregada por um segurança.

– E são recém 2h – lamenta Patrícia.

"Por favor, uma Natasha"

Com um litro de vodca Natasha e um copo de plástico vermelho revezando entre as mãos, as amigas Luana, 15 anos, e Paula, 17 anos, chegam de táxi ao Clube Farrapos no fim da noite de sexta-feira, 4 de abril. Como tradição, a festa começa na calçada. Antes de entrarem na festa, por volta da 1h, a garrafa comprada uma hora antes já está um terço consumida.

Com riso frouxo, as duas colegas contam como é fácil adquirir o álcool que em teoria seria proibido para sua faixa etária. Sequer precisaram de intermediários para fazer a compra, na loja de conveniência de um posto de combustível na Avenida Nilo Peçanha – conhecido point teen.

– A gente vai na cara dura mesmo – explica Paula.

– Tem que chegar segura de si e dizer: “Oi, por favor, uma Natasha”. Com atitude – conta Luana, que aparenta mais idade com figurino mulherão: blusa de oncinha, bota cano alto, microssaia preta.

Ninguém pediu a identidade quando compraram a bebida. Se pedissem, estariam prevenidas. Laura leva na bolsa a carteira de motorista da irmã mais velha – que tirou uma nova via quando pensou ter perdido o documento. Paula usou o scanner e a impressora de casa, no bairro MontSerrat, para emitir um documento falso.

– Essa eu fiz hoje às sete da noite – mostra a estudante, entre risos.

Aos 15, Luana bebe regularmente e já se sente experiente – como boa parte das colegas, seu primeiro porre foi aos 14 anos. Diz que seus pais sabem que bebe, mas não imaginam o quanto.

– Acham que eu não fico bêbada, que só fico feliz – ri.

Os seguranças da Festa das Tintas, que reúne mais de mil jovens naquela noite, impedem a entrada de garrafas no clube. Mas isso não significa que os frequentadores deixem de beber. Com os documentos falsos, Luana e Paula ingressam com pulseirinha de “maior”. Paula paga R$ 15 por uma cerveja.

– Dá pra ver que a identidade é falsa, mas eles deixam passar – diz.

O coronel Alcery Frota Pinto, vice-presidente administrativo do Clube Farrapos, diz que ficou “horrorizado” com o que assistiu naquela noite, com jovens caídos pelos cantos e um saldo de oito vidros quebrados no fim da noite:

– Não sabíamos que seria uma festa de jovens, alugamos o salão pensando que seria uma festa particular. Aqui dentro não pode beber, mas já chegam bêbados. Vi um pai que encostou o carro e desceram cinco jovens, já embriagados. Agora proibimos essas festas. Não vamos ser coniventes com esse tipo de coisa.

Mãe ajuda a comprar

Na casa de Paula, beber não é uma transgressão. Sua mãe não apenas sabe que ela bebe como chegou a acompanhar a filha na compra de destilados. O assunto veio à tona às vésperas de uma “noite” agendada pela turma da filha no condomínio onde moravam, no bairro MontSerrat, no ano passado.

– Mãe, a gente tem que comprar as comidas e as bebidas – avisou a filha, aluna do segundo ano do Ensino Médio.

– Tá, mas comprar o quê? – questionou a empresária de 39 anos.

A mãe já sabia que a turma da filha andava bebendo. No ano anterior, no primeiro encontro no condomínio onde moram, se surpreendera ao encontrar garrafas de vodca e tequila vazias no final da festa.

Em vez de proibir o consumo, imaginando que o veto seria facilmente driblado, desta vez a mãe preferiu acompanhar a filha ao supermercado. Entre as compras do carrinho, incluíram garrafas de vodca, tequila e energéticos.

– Eu não proíbo ela de beber, porque todo mundo um dia vai beber, mas converso para que respeite o limite dela própria. Na turma dela, a maioria acaba fazendo tudo escondido, o que é pior – justifica.

A estratégia de Magda segue a linha da redução de danos. Ao acompanhar a filha no supermercado, orientou a garota a dar prioridade à compra dos salgadinhos que seriam servidos na noite.

– Se deixar eles compram só a bebida – diz.

A mãe diz confiar na capacidade de discernimento de Paula. Mas já observou que nem sempre os adolescentes sabem respeitá-lo. Na terceira festa em sua casa, encontrou colegas da filha passando mal de tanto beber. E começou a repensar sua posição de fornecer álcool aos adolescentes.

– Agora já disse que chega, não quero essa responsabilidade. Vai que aconteça alguma coisa. Vão perguntar: quem comprou? – reflete.

Números

Porto Alegre é a capital brasileira campeã no consumo de álcool entre estudantes de 13 a 15 anos do 9º ano do Ensino Fundamental, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2013.

O estudo ouviu 1.455 alunos em 52 escolas.

36,7% dos entrevistados consumiram bebida alcoólica nos 30 dias anteriores.

81,9% das meninas já experimentaram álcool. Entre meninos, o percentual é de 75,3%

Em Florianópolis, a segunda colocada, o índice foi de 34,1%

Os menores percentuais foram encontrados em Belém (17,3%) e Fortaleza (17,4%).

A média brasileira foi de 26,1%

Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) do IBGE

A pressão pelo primeiro porre

Giovana sempre foi a certinha da escola. Enquanto os colegas aprontavam desde os 13 anos, levando doses de bebidas alcoólicas escondidas para festas em tubos de Cepacol, ela e suas amigas mais próximas se orgulhavam de não precisar beber para se divertir.

Mas, na medida em que o tempo passava, a curiosidade aumentava. Giovana queria entender que sensação era aquela, que fazia com que os colegas parecessem aproveitar bem mais a festa do que ela.

No final de 2013, aos 15 anos, decidiu que era hora de experimentar. A oportunidade surgiu numa formatura de oitava série. Como de costume, o pai de uma das amigas deu carona até a festa. Só que, em vez de entrarem no clube, ela e outras duas amigas se dirigiram a um posto nas redondezas. Chegando lá, compraram vodca. Quando saíam, um segurança da festa apareceu.

– Vocês tão bebendo, não vão entrar na festa – repreendeu.

As três meninas se olharam. Chegaram a hesitar.

– Ah, mas eu já tô aqui, já fiz o que minha mãe disse para eu nunca fazer, que era sair da festa, então vou beber – raciocinou Giovana.

Ao experimentar a vodca diluída em energético, Giovana sentiu repulsa. Achou o gosto muito ruim.

– Não tem um jeito de fazer isso mais rápido? – perguntou aos colegas que as acompanhavam.

– Só se tu tomar pura.

Giovana não teve dúvidas. Virou um copo de vodca em “gute-gute”.

Enquanto bebiam na calçada, uns conhecidos passaram por ela e zombaram.

– Ih, isso aí nem pega.

Sentindo-se desafiada, Giovana virou o segundo copo.

Enquanto voltavam para o clube, começou a sentir tonturas.

– Ah, não te faz – duvidaram as amigas, que haviam bebido o destilado com energético.

Ao chegar na festa, a tontura só piorou. Foi para um canto e encontrou um colega em estado parecido.

– Bá, vou vomitar – avisou ele.

Giovana vomitou junto, no canto do salão.

Ao perceberem seu estado, as amigas a carregaram para o banheiro. E foi ali que ela “morreu”, como dizem no jargão adolescente quando a pessoa passa muito mal. Foi levada para uma ambulância.

Horas depois, a mãe levou um choque quando a filha abriu a porta de casa, pedindo perdão.

– A gente sempre acha que na casa da gente não vai acontecer. Mas a pressão do grupo é muito grande – constatou a mãe.

O choque de uma mãe

Janaína estava encarregada, naquela noite, de buscar a filha Mariana e a amiga Renata ao final de uma festa. O telefonema da mãe de Renata, por volta da 1h, obrigou-a a sair mais cedo de casa:

– Tô levando a minha filha e não sei cadê a tua.

Renata nem chegou a entrar na festa – caiu bêbada do lado de fora, depois de comprar vodca em um posto de combustíveis. Janaína partiu imediatamente para localizar Mariana. Na frente de uma casa de eventos localizada no Jardim Europa, deparou com vans vendendo bebida e dezenas de adolescentes em atendimento junto a uma ambulância. Tentaram detê-la, transtornada, na entrada do evento. Pediram que se acalmasse. Quando conseguiu passar, a médica levou um susto ao abrir a porta: uma menina embriagada caiu por cima dela. O que viu a seguir a impactou profundamente.

– Era degradante, uma orgia. Jovens que pareciam em transe, meninos com a mão dentro das calcinhas das meninas no meio do salão, na frente de todos, quase cenas de sexo explícito. Estavam todos alcoolizados, os olhos arregalados, vários sendo carregados para fora. Não sou careta, babaca, moralista, mas fiquei apavorada. Estamos falando de pessoas de 13, 14 anos de idade – lembra.

Janaína demorou a localizar a filha, que estava um pouco alterada, “fora do prumo”. No dia seguinte, abalada, a mãe não conseguiu tocar no assunto, culpando-se pela demora em perceber o tipo de ambiente que a estudante começava a frequentar. Uma decisão foi tomada em seguida: Mariana estava proibida de frequentar eventos semelhantes, o que motiva frequentes confrontos entre ambas até hoje, quase um ano depois. As saídas noturnas não foram de todo suspensas.

Desde então, a jovem participou de comemorações de 15 anos, também marcadas por excessos – a gurizada é servida por barmen contratados pelos anfitriões, ficando à vontade para escolher quantas doses querem em cada drinque. Janaína determinou que Mariana não pode consumir qualquer quantidade de álcool.

– Não tem negociação. Sei que ela vai transgredir em algum momento, mas agora ela é muito jovem, muito imatura. Algo precisa ser feito, este é um sintoma de adoecimento cultural e social de grandes proporções que estamos deixando passar batido, enquanto nos ocupamos em pagar escolas privadas de alto custo, atividades extraclasse, viagens, roupas, próteses de silicone – revolta-se.

Tentativa de reação

Desde 2012, um ônibus do Ministério Público estaciona diante das festas de formatura, para identificar casos de adolescentes embriagados e chamar os responsáveis. A atenção ao tema começou há cerca de cinco anos. Provocada por um grupo de pais preocupado com as festinhas regadas a álcool, a instituição atuou junto às produtoras para assegurar a proibição de venda de bebidas alcoólicas para adolescentes. A medida deu resultado, só que produziu um efeito inesperado: para driblar a proibição, os adolescentes começaram a beber na frente dos clubes.

Para lidar com o problema, foi criado em 2011 o Fórum Permanente de Prevenção à Venda e ao Consumo de Bebidas Alcoólicas por Crianças e Adolescentes. Em reuniões mensais e abertas ao público, pais, professores, médicos, policiais, produtores de festas e representantes de instituições interessadas discutem como enfrentar o problema. Uma das propostas em estudo é a colocação de bafômetros na entrada das festas. Assim, adolescentes alcoolizados ficariam impedidos de entrar.

A vulnerabilidade a que os jovens ficam expostos quando bebem é uma das preocupações do fórum, coordenado pela procuradora Maria Regina Fay de Azambuja. Em um dos atendimentos, foi encontrada uma menina desacordada nas macegas, com vestidinho curto erguido e expondo as partes íntimas.

Para intensificar suas ações e proibir festas em residências onde menores de idade consomem álcool, o MP pede o auxílio da população. Segundo Maria Regina, o maior empecilho é a escassez de denúncias – sem saber antecipadamente a data e o local dos eventos, o órgão não pode notificar os pais.

Outro obstáculo é a interpretação da lei: o artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê como crime a venda e o fornecimento de “produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica”, com previsão de até quatro anos de detenção. Para alguns, o álcool não estaria incluído entre esses produtos, leitura que acaba inviabilizando a aplicação das penalidades.

Riscos que se estendem além do porre

Engana-se quem pensa que os efeitos do álcool no organismo se esgotam quando acaba o porre.

Especialmente entre os adolescentes, o risco é maior porque nesta fase o cérebro está em um período crucial de formação – e o álcool pode comprometer esse desenvolvimento.

Uma das consequências associadas é o maior risco a se tornar alcoólatra. De acordo com o National Institute on Drug Abuse, dos Estados Unidos, 15,2% dos que começam a beber aos 14 anos tendem a desenvolver o alcoolismo, enquanto, entre os que esperam até os 21 anos ou mais, o índice é de 2,1%.

A relação é química, explica o psiquiatra do Hospital de Clínicas Thiago Pianca, especialista em crianças e adolescentes. No cérebro adolescente, o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, ainda não está totalmente formado. Com o uso de álcool, pode nunca se desenvolver. Já o circuito de recompensa, associado ao prazer, está plenamente desenvolvido nesta idade.

– O adolescente está pronto para o prazer, mas não tem o mecanismo de freio – alerta Pianca.

Sem autocontrole, a tendência de abuso de substâncias químicas é cada vez maior. Com o tempo, o usuário precisa de doses para ter o mesmo prazer.

Autora de uma tese de doutorado sobre o uso de álcool entre estudantes de Ensino Médio, a enfermeira Efigenia Aparecida Maciel de Freitas tem percebido o aumento de um hábito conhecido como binge drinking – a ingestão de grande quantidade de bebida em um curto período para acelerar a embriaguez.

– Os jovens começam a ter essa cultura: “Quanto consigo consumir nesse tempo?” Querem ficar alterados logo para aproveitar melhor a festa – afirma Efigenia.

As consequências do consumo abusivo

Sem noção de limites, os adolescentes acabam expostos a riscos adicionais quando bebem demais.

E as consequências não se restringem a ver o mundo girar: não raramente, seus passos cambaleantes podem parar na delegacia, no hospital, em exposição íntima na internet.
Para Benício, o choque de realidade veio aos 16 anos, em uma noite no apartamento de um colega.

Nenhum dos 20 reunidos estranhou quando Jonatan bebeu demais e foi deitar num dos quartos quando não parava mais em pé. De tempo em tempo, Benício ia até o dormitório para ver como o amigo estava, até que, numa das aproximações, Jonatan agarrou seu pé e jogou seu calçado pela janela do segundo andar.

– Por que tu fez isso, cara? Fica aí que eu vou lá embaixo buscar – reagiu.

Enquanto Benício procurava pelo pátio seu sapato, ouviu um grito de pavor. Olhou para o lado e viu uma mão esticada no chão. Desesperou-se ao perceber que era Jonatan estirado no concreto. Embriagado, havia caído do segundo andar. A festa acabou no Pronto Socorro. Felizmente, os ferimentos de Jonatan naquele dia se restringiram a uma lesão no tornozelo.

Cristina, 16 anos, também exagerou na combinação de vodca e energético. Em um feriado prolongado recente, saiu à noite com uma amiga. A certa altura da festa, perderam-se uma da outra – Cristina não recorda de detalhe algum sobre o que fez até o amanhecer.

Despertou em uma casa distante, na companhia de dois jovens, ambos maiores de idade. Refazendo-se do susto resultante da imprudência, surpreendeu-se, semanas depois, ao saber que fotos íntimas suas estavam circulando na internet. Não teve coragem de olhá-las.

Mais números

O primeiro contato com álcool e cigarro costuma ocorrer aos 13 anos.

35,3% dos alunos afirmam terem experimentado bebida pela primeira vez na casa de amigos.

Para 28,7%, o gole inicial foi em casa, com pessoas do convívio diário.

O consumo abusivo é mais frequente entre os meninos:

70,2% deles relataram episódios de uso excessivo de bebida.

39,5% dos meninos e 33,2% das meninas praticaram o binge drinking (consumo de grande quantidade em curto espaço de tempo) no mês anterior à pesquisa.

47% dos pais nunca conversaram com os filhos, ou conversaram poucas vezes, sobre as consequências do uso de bebidas alcoólicas.

Fonte: Consumo de Bebidas Alcoólicas e Outras Substâncias Psicoativas entre Estudantes do Ensino Médio de Uberlândia-MG, tese de doutorado de Efigenia Aparecida Maciel de Freitas

A LUTA CONTRA O CRACK


OPINIÃO ZH 03 de maio de 2014


Campanhas
têm início,
meio e fim.
O problema
das drogas não


MARCELO LEMOS DORNELLES
Subprocurador-geral de Justiça e ex-presidente do ICNP




Há alguns anos, na AMPRS, decidimos fazer uma campanha, com apoio dos promotores de Justiça, visando esclarecer a população sobre os malefícios do crack. Uma droga presente nas principais ocorrências que chegavam ao MP com violência: urbana, doméstica e familiar. O movimento buscava, também, alertar para uma desarticulação dos setores público e privado para o enfrentamento do problema.


Na sequência, o Grupo RBS lançou a campanha publicitária Crack, Nem Pensar, que, com cenas fortes, chamou a atenção de toda a sociedade para o tema. O crack e seus efeitos foram para a agenda das autoridades públicas e de profissionais identificados com o tema. Com isso, houve uma grande mobilização buscando minimizar o problema. Contudo, todas as campanhas têm início, meio e fim. Mas o problema das drogas não. Ele é permanente e tem aumentado a cada dia. Por maiores que sejam os esforços gerais.


Por isso, surgiu do presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, a ideia de se criar um instituto para tratar do tema, para que as preocupações e problemas desvelados pelas campanhas continuassem com atenção permanente. Assim, criou-se o Instituto Crack, Nem Pensar, instituído por representantes da AMPRS, Ajuris, UFRGS e Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, com seus similares de SC.

Tive a honra de ter sido o primeiro presidente e, agora, cumpridos dois mandatos, repassei o bastão ao doutor Luiz Mathias Flach, eminente juiz de Direito aposentado, com extensos serviços prestados à causa.
Tivemos várias dificuldades inerentes ao início de uma atividade. Mesmo assim, somando esforços voluntários, conseguimos trabalhar alguns projetos na área de prevenção. Entre eles, Drogas: articulando redes _ Edição Fronteira Oeste, Cinema na Escola e Um Novo Amanhã _ Vencer esta luta é possível.

Além de inúmeros eventos, palestras, seminários, sempre buscando a discussão serena e técnica sobre os principais problemas relacionados à drogadição. O prosseguimento desta luta é fundamental e deve ser de todos. Boa sorte à nova diretoria e continuo soldado da causa.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

EU PRECISO DE TRATAMENTO

ZERO HORA 24/04/2014 | 13h45

"Eles trocam qualquer coisa por crack, eu preciso de tratamento", diz assaltante amarrado em Florianópolis. Homem diz que é usuário de crack e que nunca havia entrado no estabelecimento que assaltou


"Fumei tudo o que tinha", diz usuário de crack que assaltou comércio na CapitalFoto: Guto Kuerten / Agencia RBS


O homem de 33 anos, detido e amarrado por moradores de Florianópolis após um assalto frustrado a uma cafeteria, nega ter cometido outros delitos no mesmo lugar, como afirma a proprietária. Embora tenha duas passagens por roubo e seis por furto, ele diz que nunca havia entrado no estabelecimento que assaltou na manhã desta quinta-feira, no bairro Capoeiras.

O assaltante teria fingido estar armado para roubar uma quantia de aproximadamente R$ 107 e algumas caixinhas de suco do estabelecimento, localizado na rua Najib Jabor. Quando a vítima gritou, seis comerciantes que também abriam lojas na região perceberam o que acontecia e renderam o homem.

Eles o amarram ao corrimão de uma escada e aguardaram a chegada dos policiais militares. A PM encaminhou o assaltante à 3ª Delegacia de Polícia, no Estreito.

— Dormi normalmente essa noite e, quando acordei, saí caminhando até chegar à cafeteria. Foi uma escolha aleatória — relata o detido.

O autor do assalto também nega que o valor roubado ultrapasse os R$ 10, como informaram a polícia e os proprietários da cafeteria. Indagado sobre o que faria com as caixinhas de suco, disse que pretendia vender para comprar crack:

— Eles trocam qualquer coisa pelo crack. Se faltar R$ 2 e você oferecer a camisa, eles compram.

Ele conta que é usuário de crack há cerca de oito meses e que, nesse período, perdeu trabalhos, vendeu um carro e saiu da casa da mãe, com quem morava.

— Fumei tudo o que tinha, cometi um erro e preciso de tratamento.

Pai de vítima não defende "justiceiros"

O pai da garota assaltada nesta quinta-feira participou da detenção do assaltante, mas não concorda com quem faz "justiça com as próprias mãos". Ele conta que o homem foi amarrado para evitar que fugisse, e não para humilhá-lo.

A corda usada estava no carro do pai da vítima. Na delegacia, os policiais constataram que o assaltante não apresenta sinais de agressão.

— Sozinho, eu não faria isso. Foi uma coisa de momento. Mas a Justiça solta as pessoas rapidamente, quem não se sente amedrontado hoje em dia? — questiona o pai.

A cafeteria existe desde janeiro de 2012 e já sofreu três assaltos e dois arrombamentos nesse tempo. A proprietária diz que está pensando em fechar o estabelecimento depois de ser assaltada novamente.


DIÁRIO CATARINENSE