COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

domingo, 11 de setembro de 2011

ANABOLIZANTES DO SEXO


Terapeutas afirmam que o efeito em homens jovens e saudáveis é mais psicológico do que fisiológico - CRISTINA VIEIRA, DONNA, DIÁRIO CATARINENSE, 11/09/2011

O ambiente é uma balada. Ele tem 20 anos e está com ela pela primeira vez. Após goles de uísque, percebe que a noite renderá além de bons amassos. Um amigo saca do bolso uma pílula azul e oferece ao rapaz. Ele pensa na chance de ter uma noite de sexo intensa, de deixar a garota impressionada. O cérebro elenca, em seguida, o raciocínio matador para a decisão pelo sim: Se eu tomar, meu desempenho está garantido. Não vou falhar. Um arremate na bebida e o comprimido para disfunção erétil está a caminho do estômago.

O Brasil se tornou vice-líder mundial em vendas de remédios para impotência sexual em 2010. Entre agosto de 2010 e julho de 2011, o mercado movimentou R$ 621 milhões no país, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. O número de comprimidos vendidos pulou de 19,5 milhões, entre maio de 2009 e abril de 2010, para 40,5 milhões no mesmo período de 2011, de acordo com números da IMS Health – empresa que faz auditoria no setor, divulgados pela Pfizer. Diante de dados pomposos, é lógico pensar: os brasileiros andam às voltas com dificuldades de ereção – logo o Brasil, um país famoso pelo fervor sexual.

Raciocínio equivocado. À exemplo da cena descrita na abertura deste texto, a mudança de comportamento entre jovens de 18 a 30 anos é um dos fatores que explica a expansão no mercado – o que significa que os rapazes não estão ficando broxas.

– Estava numa festa com uma garota. Um amigo me ofereceu. Tomei. Otimiza bastante – contou um estudante de 28 anos do Departamento de Odontologia da UFSC.

O uso recreativo dos medicamentos para disfunção erétil é uma realidade, embora ainda não existam métodos de prevenção ou de alerta sobre o tema. Três estudos publicados recentemente comprovam a prática. A revista científica Saúde Pública publicou em 2008 um estudo da Faculdade de Farmácia, da Universidade Nove de Julho (Uninove), de São Paulo. A universidade investigou o uso dos remédios no campus. Questionários foram passados para um número de alunos que equivalem a 5% do total. Verificou-se que 14,7% dos entrevistados já haviam utilizado as pílulas, sendo que 83,5% usaram uma única vez e o restante pelo menos uma vez ao mês. O destaque é que nenhum dos entrevistados relatou dificuldade para ter ou manter a ereção. As motivações para o uso foram curiosidade (70%), potencialização da ereção (12%), ejaculação precoce (12%) e aumento do prazer (6%).

– O uso recreativo é comum no Brasil, e um alerta precisa ser dado logo. Isso acontece porque o governo brasileiro cedeu ao lobby dos grandes laboratórios e permite a venda sem receita. Em outros países, como EUA e na Europa, o controle é mais eficaz – afirma Eduardo Lopes, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

O urologista critica a apresentação do remédio em embalagens como a do recém-lançado Levitra ODT, que aparece na capa desta edição do Donna. A embalagem ugere um remédio “mais pop”, que derrete na língua, o que tende a ter mais apelo entre os jovens. Nelson Ambrogio, diretor da unidade de negócios Medicina Geral da Bayer, fabricante do Levitra, rebate a crítica, dizendo que estudos comportamentais mostram que homens com disfunção erétil têm certa resistência em assumir que precisam do medicamento.

– A nova apresentação traz mais conforto e discrição – completou.

Em 2010, a Sociedade Internacional de Sexualidade Humana veiculou artigo sobre o tema feito na Argentina. A pesquisa recolheu 400 depoimentos de homens entre 18 e 30 anos em universidades, academias e escolas. 21,5% dos entrevistados já haviam usado alguma pílula para disfunção erétil sem indicação médica. O que chamou mais a atenção é que as medicações foram usadas em 53,4% dos relatos combinadas com drogas ou álcool. Um estudo mais amplo foi publicado, em abril de 2010, pela Springer, publicação científica internacional. Nele, foram ouvidos 2 mil jovens de 497 instituições de ensino dos EUA – 4,5% usaram o remédio pelo menos um vez e, desses, 1,4% usam de forma recorrente. A publicação também identificou a falta de problemas de ereção entre os usuários e chamou a atenção para um comportamento de risco, pois os entrevistados usaram o remédio em relações sexuais sem camisinha e aliado ao uso de drogas. Os três trabalhos ressaltam a preocupação com a venda dos remédios sem receita e com- a falta de estudos dos efeitos dos remédios em jovens saudáveis.

A garota e o rapaz de 20 anos viveram uma maratona sexual naquela noite. Ela jamais soube do empurrão químico no vigor dele.

Dizem os terapeutas que o efeito do remédio em homens saudáveis é mais psicológico do que fisiológico. Não há trabalho de prevenção sobre o uso recreativo dos remédios.



Nas gôndolas, a variedade é farta

No mercado, existem 13 remédios para disfunção erétil, com preços que variam de R$ 8 a R$ 40. O mais vendido é o Cialis, do laboratório Eli Lilly. O Viagra virou o medicamento de referência por ter sido o pioneiro. Está no mercado há 11 anos e, ano passado, teve sua patente quebrada, o que fez o preço cair de cerca de R$ 30 para R$ 12 em média. O mercado para estes medicamentos é tão agressivo que um dia após a quebra da patente, em junho de 2010, já estava nas gôndolas das farmácias o genérico Sildenafila - hoje em dia campeão de vendas (leia mais na página 11).

A curiosidade fica por conta da forma como o Viagra foi descoberto. O remédio era pesquisado para tratamento de cardíacos. Mas nos testes com voluntários se evidenciou uma potencialização significativa da ereção nos participantes da pesquisa, enquanto os resultados para cardiopatias foram pífios. Assim, direcionou-se o remédio para a disfunção erétil, o que provocou uma revolução no comportamento sexual da sociedade atual.

– Eu tenho um casal de pacientes. Ele tem 87 anos, e ela, 82. Eles têm uma vida sexual ativa e feliz graças ao uso desse tipo de remédio – comenta o urologista Jovânio Fernandes Rosa.

Existem quatro tipos de substâncias (sildenafil, vardenafil, todalafil e ladenafil) que combatem a disfunção erétil. A mais comum é o sildenafil, princípio ativo do Viagra, Ah-zul, Dejavu, Escitan, Sollevare, Suvvia, Vasifil, Videnfil e do genérico Sildenafila. Vardenafil compõe o Levitra (na capa desta edição) e o Vivanza. Todalafil está no Cialis, e o ladenafil, no Helleva, único produzido por um laboratório brasileiro. As quatro agem da mesma forma (confira infografia). O que varia é o tempo de ação e o tipo de efeito colateral, o que também tem a ver com o organismo de cada um. O Cialis garante 36 horas ( se houver estpimulo sexual). O Viagra, 12horas, e o Levitra, 10 horas, de acordo com Jovânio.



Precisa de receita, sim!

A venda sem receita de remédios para disfunção erétil nas farmácias é tão frequente que virou lugar-comum dizer que não precisa de receita. Mas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esses medicamentos são de tarja vermelha, o que implica receita.

– De uns três anos pra cá, esses remédios viraram uma febre, uma modinha mesmo. Você pode comprar em qualquer farmácia sem receita. Não há controle. Isso é um risco e uma prática errada – afirma a farmacêutica Carolina Junkes, presidente do Sindicato dos Farmacêuticos e assessora técnica do Conselho Regional de Farmácias.

A conclusão de um estudo publicado pela revista Saúde Pública, em 2008, sobre o uso recreativo dos remédios, priorizou a falta de controle na venda do remédio: “Um resultado de certa forma preocupante foi o fato de 100% dos usuários terem adquirido o medicamento sem receituário médico, indicando a ausência de diagnóstico para o consumo desses fármacos. Contudo, têm sido utilizados de forma inconsequente e em desacordo com os princípios do uso racional de medicamentos”.

Urologista em Florianópolis, com especialização em andrologia (a área que estuda a saúde sexual do homem) pela Escola Paulista de Medicina, Jovânio Fernandes Rosa defende um controle rígido na venda do remédio.

– Tem alguns rapazes que vem consultar só para ter a receita. Não sabem que, hoje em dia, é só chegar na farmácia e comprar – contou.

Carolina reforça que o papel do farmacêutico é essencial. É ele quem vai exigir a receita e orientar sobre o uso.



A opinião deles

Uma volta de cerca de uma hora pelo campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, é suficiente para perceber que o uso de remédios para disfunção erétil sem indicação médica é conhecido e comum entre os jovens. Veja alguns comentários:

“Usei uma única vez e faz tempo. Mas eu não tenho nenhum problema de ereção. Usei por curiosidade. Eu estava numa festa com uma gatinha. Um amigo me sugeriu para dividirmos. Eu topei. Normal. Posso dizer que otimiza bastante, potencializa a ereção. E, ó, dá uma acelerada no coração. Mas hoje vejo que a turma está começando a usar bastante. Claro que eu não contei pra ela e acho que meu amigo também não. Eu acho que uns 80% usam só para se desinibir. Tenho a sensação que é para impressionar as meninas.” Estudante, 28 anos, do Departamento de Odontologia.

“O pessoal costuma usar com uísque. Pra mim, o pessoal usa por medo. Sabe aquele medo de falhar na hora? Está com uma menina que não conhece muito bem, e depois fica pensando o que ela pode falar. Eu nunca usei. Mas não tenho preconceito. Usaria por curiosidade.” Estudante, 21 anos, do departamento de Odontologia.

“Eu nunca tinha pensado sobre isso, nem ouvido falar. Mas, sei lá, talvez usaria por curiosidade.” João Paulo Fernandes, 20 anos, estudante de Jornalismo." João Paulo Fernandes, 20 anos, estudante de Jornalismo.

COMO O REMÉDIO AGE

- O comprimido é ingerido

- Cai no estômago e, após absorção, a medicação segue no sistema circulatório e é transportada pelo sangue até a região do pênis.

- O remédio chega aos vasos sanguíneos do pênis. Ali, ele inibe a ação da enzima chamada fosfodiesterase, que é responsável por contrair os vasos. Sem a ação da enzima, os vasos ficam relaxados, possibilitando a entrada mais rápida e mais fácil do sangue nos vasos para ocorrer a ereção. Isso acontece cerca de 30 minutos depois da ingestão da pílula.

- A ereção só acontece com a liberação de óxido nítrico, o neurotransmissor do pênis. E o cérebro só o libera a partir do momento em que o homem sente desejo ou estímulo sexual. O óxido nítrico provoca reações químicas que irrigarão de sangue os corpos cavernosos (entrelaçamento de vasos sanguíneos), agora já relaxados pelo remédio.