COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sábado, 9 de março de 2013

AMOR, DROGAS E SOLIDÃO

REVISTA ISTO É N° Edição: 2260 | 08.Mar.13 - 21:00 | Atualizado em 09.Mar.13 - 11:02


Como as drogas afastaram o vocalista da banda Charlie Brown Jr. da mulher, o levaram à depressão e precipitaram sua morte

Natália Mestre, Rodrigo Cardoso e Suzana Borin

Em outubro de 2011, a equipe de ISTOÉ Online passou um dia com o grupo Charlie Brown Jr. Assista à entrevista, dividida em três blocos na fonte desta matéria:

 http://www.istoe.com.br/reportagens/281553_AMOR+DROGAS+E+SOLIDAO

Bloco 1 - A banda fala sobre a volta de dois integrantes da formação original, o guitarrista Marcão e o baixista Champignon, e sobre os preparativos do DVD “Música Popular Caiçara”



Bloco 2 - Chorão, que foi o único que passou por todas as fases da banda, fala sobre os 20 anos do Charlie Brown Jr.



Bloco 3 - Os músicos falam sobre o Santos, revelam o significado do número 13 para eles e contam a história dos apelidos de Chorão e Champignon




Chorão canta ao vivo uma versão inédita da música “De Olhos Abertos” para a equipe de ISTOÉ Online:





UNIÃO
Há um ano e meio Chorão voltou a consumir cocaína com muita frequência.
A estilista Graziela Gonçalves tentou usar a separação como um alerta para ele largar o vício

Ele transitou pelo sucesso e o fundo do poço com a fúria própria de quem é intenso em tudo o que faz. Em uma mistura de desordem e criatividade, moldadas a partir da separação dos pais e da mudança, na adolescência, de São Paulo para Santos, Alexandre Magno Abrão se transformou em Chorão, o vocalista da banda Charlie Brown Jr. Expoente do rock nacional, embalou sonhos e inquietações da juventude com sua música nos últimos 20 anos. Chorão, porém, sucumbiu à própria dor. Na madrugada da quarta-feira 6, foi encontrado morto em seu apartamento na zona oeste paulistana. Tinha 42 anos. Estava de bruços no chão da cozinha, com as mãos ensanguentadas, em meio a latas de refrigerante e energético, garrafas de bebidas alcoólicas, ansiolíticos e móveis quebrados. Havia, ainda, um pó branco que a polícia suspeita se tratar de cocaína. “Tentei de tudo para salvar o Chorão”, afirmou, em entrevista exclusiva à ISTOÉ, a estilista Graziela Gonçalves, 41 anos, ex-mulher do roqueiro.

Chorão tinha mergulhado em um processo depressivo após ter se separado de Graziela, com quem estava casado havia 15 anos. Essa é a tese defendida por amigos e familiares do cantor. Esse revés afetivo, isoladamente, porém, não precipitou a morte do roqueiro. À ISTOÉ, Graziela revelou que o cantor vinha usando drogas há quatro anos – e há um ano e meio, compulsivamente. Mais: ela, Thais Lima, a primeira mulher do músico, o filho de Thais com Chorão, Alexandre, 23 anos, e a empresária da banda procuraram um advogado para providenciar uma internação involuntária do artista. Queriam levá-lo à revelia para uma clínica de recuperação para dependentes químicos, pois o processo autodestrutivo do cantor vinha se acelerando. “Mas não deixaram que ele fosse internado”, diz a estilista (leia entrevista completa à pág. 52). Depois dessa tentativa frustrada, Graziela resolveu se afastar do marido.



A separação se deu em janeiro, mas os dois não deixaram de se falar pelo telefone. Ela apostava que, com o distanciamento, o cantor optaria por se livrar do vício para reconquistar o grande amor da vida dele. A situação, porém, só piorou. “O Chorão sempre teve dificuldade para lidar com momentos de pressão”, conta um parente do músico. E assim aconteceu. Enquanto a mulher ficou em Santos, Chorão passou a perambular por flats na capital paulista. Nas últimas semanas, esteve em quatro, segundo o delegado Itagiba Vieira Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga as circunstâncias da morte. A hipótese inicial é a ingestão combinada de drogas, bebidas e remédios. Quando a tristeza e a solidão batiam, o lado bad boy do roqueiro se manifestava e ele quebrava tudo o que via pela frente. No último dos hotéis, permaneceu até segunda-feira 4. Após um desentendimento com funcionários, o músico resolveu seguir para o seu apartamento. “Ele acreditava que os empregados do hotel estavam colocando câmeras no quarto para filmá-lo”, conta o motorista do cantor, Kleber Atalla, primeira pessoa a encontrá-lo morto. “Ele tomava remédios para dormir e esses comprimidos o faziam acreditar que estava sendo perseguido.”

A família de Chorão responsabiliza Graziela pelo fim trágico do cantor. Ricardo Abrão, irmão dele, bateu boca com a cunhada no Instituto Médico Legal, em São Paulo, enquanto aguardavam a liberação do corpo. Em Santos, durante o velório ao qual compareceram cinco mil pessoas, houve um novo desentendimento entre os dois, que só não partiram para as vias de fato porque foram separados. “O Ricardo acha que ela o abandonou no momento em que ele mais precisava”, conta um amigo da família. Tania Wilma Abrão, irmã do músico, também acusou, aos gritos, Graziela de ser culpada pela morte de seu irmão. Graziela era tida como o porto seguro de Chorão. Ela o conheceu em uma fase em que o vocalista do Charlie Brown Jr. ainda sofria pelo fim de seu relacionamento com Thais, a mãe de Alexandre, seu único filho. “O Chorão foi criado nas ruas de Santos, foi levado para a delegacia algumas vezes por causa de maconha e brigas. Depois que a Graziela apareceu em sua vida, ele emagreceu, parou com tudo”, lembra um de seus amigos de infância.



Graziela conta que quando Chorão voltou a consumir drogas, quatro anos atrás, ele estava cansado e ainda chateado com o fim da formação original da banda, ocorrida em 2005. Na época, o baixista Champignon, o guitarrista Marcão e o baterista Renato Pelado romperam com o amigo alegando “divergências musicais”. O baixista e o guitarrista retomaram a parceria com o roqueiro em 2011, mas as feridas, segundo ela, nunca cicatrizaram. “Pesou muito a separação do grupo. O Chorão se sentia injustiçado”, afirma Graziela. “Ele tinha seus dilemas, seus demônios e, quando estava mal, a coisa ficava mais problemática.” O encontro derradeiro do casal aconteceu na última semana de fevereiro, quando o cantor, de férias da banda e já afastado da mulher, foi até o apartamento da estilista, em Santos. Ali, Graziela voltou a insistir para que o ex-marido iniciasse um tratamento contra a dependência química e disse que sentia muita saudade dele. “Antes do Chorão ir embora, eu tive a certeza de que era a última vez que eu o via, porque ele me disse: ‘Eu quero que você me prometa que, se acontecer alguma coisa comigo, você vai ficar bem’.”

Ela diz que não deixou de monitorar o ex-marido e falou com ele por telefone com frequência até três dias antes da sua morte. A partir daí, Chorão teria deixado de atender as ligações dela. “Ele sempre me dizia, antes de desligar o telefone: ‘Não duvide do meu amor por você’”, recorda. Quando o encontrou morto, após inúmeras tentativas de falar com ele pelo telefone, o motorista Atalla acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). No apartamento – que não possuía muita mobília porque, segundo pessoas ligadas à família, era uma espécie de reduto de consumo de drogas de Chorão – além de manchas de sangue espalhadas por paredes, portas e interruptores quebrados, policiais encontraram um canudo feito com uma folha de cheque ao lado do pó branco e um catálogo de filme pornô.



Figura expansiva em cima do palco, fundador da banda de rock que lançou 11 álbuns, vendeu cinco milhões de cópias e ganhou dois Grammy Latino, Chorão, longe dos holofotes, vinha ultimamente oscilando entre momentos de desilusão e empolgação com o seu futuro na música. Ele dizia estar cansado da rotina de shows e mais empolgado com os momentos em que vivia com um skate debaixo dos pés do que com um microfone na mão. “Ele estava pensando em diminuir o ritmo de shows, almejando uma tranquilidade maior para a sua vida”, afirma Atalla. Na semana anterior ao seu falecimento, porém, o roqueiro resolveu visitar o estúdio de uma rádio em São Paulo sem aviso prévio. Chegou lá com o filho Alexandre e uma música inédita a tiracolo e passou duas horas no ar. Nos bastidores, ao final, comentou o quanto se sentia abalado com a separação. Uma pessoa do círculo de amizades do roqueiro ouviu durante a fase crítica do casamento a seguinte frase: “Acho que não sirvo para ficar com ninguém mesmo. Ninguém me entende, sou um destruído na vida”.

Essa montanha-russa emocional era testemunhada pela família. “Ele estava bastante atormentado, dizia que se sentia absolutamente sozinho”, conta a apresentadora de tevê Sonia Abrão, prima do cantor. Filho de uma empregada doméstica e de um empresário, Chorão passou a manifestar, ultimamente, intensa saudade que sentia do pai, falecido há cerca de dez anos, com quem viveu uma relação de amor e ódio. O cantor cresceu indignado com o fato de o pai não ter dado o devido suporte à sua mãe, Nilda, após a separação do casal. “O Chorão e a mãe, que vendia pastel, chegaram a ser despejados de uma casa porque não tinham como pagar o aluguel”, diz um amigo, lembrando que o cantor, em Santos, não concluiu o ensino fundamental e praticamente se educou nas ruas. Mas, nos últimos tempos, o roqueiro sofria por nunca ter conseguido dizer ao pai que o amava, segundo esse amigo. “Soube que ele disse a um primo que queria se encontrar com o pai”, conta Sonia.



A última vez que Chorão esteve reunido com a família foi no Natal, no apartamento do cantor, em Santos. Apenas sua irmã Kátia, que mora em Luxemburgo, não estava presente. Até mesmo a sua mãe, Nilda, de 80 anos, que mora em São Paulo e teve recentemente um acidente vascular cerebral (AVC) compareceu. O cantor já passava por uma fase complicada no casamento, mas mostrou-se animado e feliz. Não comentava com a família sobre a depressão que o abatia às vezes. Não era do seu estilo demonstrar fraqueza em público. “As pessoas só têm a imagem do meu tio como o louco skatista ou qualquer coisa assim. Ele era muito mais do que isso. Era extremamente amoroso em casa com todos, um pai para mim e um ídolo para nós”, afirma Amanda Abrão, sobrinha do artista. “Sempre foi amável e sempre nos ajudou financeiramente também.”



A generosidade era uma característica do cantor. Costumava distribuir gorjetas gordas nos bares e restaurantes que frequentava. Na semana anterior à sua morte esteve no Sujinho, no centro de São Paulo, deixou para o garçom mais de R$ 100. Depois de perder o pai, vítima de câncer, Chorão passou a contribuir com o Hospital do Câncer de Barretos, no interior de São Paulo. Atalla, seu motorista, também não se esquece do dia em que o patrão comprou um equipamento no valor de R$ 40 mil para um garoto deficiente físico. Nessa seara, a grande obra do roqueiro-skatista, que foi vice-campeão paulista na categoria freestyle, é o Chorão Skate Park, uma pista de skate indoor inaugurada há dez anos, no Jardim Quietude, em Santos. Ali, crianças aprendem os segredos do esporte, ganham refeições e, muitas vezes, são presenteadas com um skate. “Meu tio tinha um coração maior do que ele”, reforça a sobrinha. Era grande, mas não suportou a pressão da vida que ele escolheu viver.





Colaborou Thaís Botelho
Fotos: Wellington Cerqueira / Ag. Istoé; Iwi Onodera / Ego; Diogo Moreira/Frame; Leonardo Aversa / Ag. O Globo; Mônica Imbuzeiro / Ag. O Globo