COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sábado, 20 de julho de 2013

LEGALIZAÇÃO DA MACONHA NO COLOCARADO CRIA NOVOS NEGÓCIO COM POTENCIAL BILIONÁRIO

Grandes cidades como Denver e Colorado Springs vivem um boom de ‘cannabis’

FLÁVIA BARBOSA, CORRESPONDENTE
O GLOBO
Atualizado:20/07/13 - 20h27


Diversificação. A fazenda da família Loflin, que cultiva alfafa há quase um século, agora dedica parte de sua área de plantio ao cânhamo Divulgação


WASHINGTON - Ryan Loflin, 40 anos, é a terceira geração de uma família de agricultores de Springfield, Colorado, que planta desde a década de 1920 quase 6 mil hectares de alfafa todos os anos. Em 2013, porém, serão cerca de 5.400. O resto está sendo reservado para a primeira plantação comercial de cânhamo (maconha com quantidade residual de THC, o princípio ativo entorpecente) em 60 anos nos EUA. Ela foi possibilitada pela legalização do uso recreativo da maconha no Colorado, decidida em novembro do ano passado em plebiscito histórico. Ecos da decisão estão por toda a parte — nas grandes cidades do estado e além de suas fronteiras. Só no primeiro semestre deste ano, 32 dos 50 estados americanos discutiram algum tipo de flexibilização da legislação sobre a droga, que continua banida no plano federal.

Grandes cidades como Denver e Colorado Springs vivem um boom da maconha, com o cultivo particular de plantas, a criação de cursos de jardinagem com dicas para ser seu autofornecedor, o surgimento demarijuana clubs, onde adultos se reúnem para fumar, serviço de entrega noturna da erva para uso medicinal e a expectativa de arrecadação de impostos com a abertura das lojas que venderão a droga a partir de 1º de janeiro de 2014.

Loflin é parte do primeiro elo desta nova cadeia econômica que brota nos EUA. O cânhamo é matéria-prima para roupas, calçados, utensílios, cosméticos e alimentos, numa indústria incipiente nos EUA de estimados US$ 500 milhões. Mas com potencial para a casa dos bilhões de dólares.

— O que tenho em mente definitivamente é um hempire — brinca o agricultor, unindo as palavras hemp (cânhamo) e empire (império).

Da jardinagem à universidade

Com a Rocky Mountain Hemp, que fundou com um sócio, plantou os primeiros 60 hectares em maio. No mês passado, adicionou outros 70 hectares. Também está investindo no processamento das sementes, com múltiplos objetivos, desde separação da fibra até extração de óleo.

— Em breve, será senso comum, não tem sentido a proibição nacional da plantação de cânhamo. O impacto ambiental, por exemplo, é menor do que o do algodão, que consome 50% da irrigação agrícola nos EUA. E, enquanto posso fazer US$ 900 por hectare com cânhamo, o trigo rende US$ 140 — diz Loflin.

Como plantador de sua própria cannabis para uso recreativo, ele ajuda também a girar o segundo elo desta cadeia: o comércio. A nova legislação do Colorado libera o cultivo em casa de seis plantas por consumidor maior de 21 anos, e as lojas de jardinagem que enxergaram o novo mercado já estão acumulando lucro.

Entre equipamentos (como luz para locais fechados), sementes e material, pode-se gastar entre US$ 150 e US$ 500 para produzir 450 gramas de maconha a cada 12 semanas. A variação do preço explica-se pela quantidade de produtos novos que chegam ao mercado, como potencializadores de sementes e adubos turbinados, afirma Ted Smith, gerente-geral da The Grow Store, uma das grandes varejistas do gênero na região metropolitana de Denver.

— A aprovação da lei retirou o estigma de fumar maconha. Não são jovens ávidos por drogas que têm nos procurado, e sim casais, gente de meia-idade, aposentados. Há dinheiro a ser feito com a maconha, sem distúrbio à sociedade — defende Smith.

Ele também foi convidado a orientar interessados no autofornecimento na THC University, que abriu as portas assim que a Emenda 64, que legalizou a maconha, passou pelo crivo dos eleitores. O objetivo é treinar no cultivo, mas também abrir as portas para que os alunos transformem a recreação em negócio.

Um dos cursos básicos, de cinco aulas de duas horas cada (US$ 500 o presencial no campus de Denver e US$ 200 online), ensina as melhores técnicas de cultivo e de identificação de sabores e tipos, como extrair e preparar derivados, fabricar haxixe e “cozinhar como Martha Stewart”, a Ana Maria Braga americana, na preparação de bolos e biscoitos de cannabis.

— E temos a oportunidade de educar as pessoas, ensinando todos os aspectos e restrições legais. Até um dos principais advogados da causa da legalização dá palestra — relata Smith.

Este comércio só tende a aumentar com a abertura das lojas onde as pessoas poderão comprar maconha para uso recreativo, em 2014. E a expectativa é grande com a arrecadação que o mercado vai gerar. Os armazéns que vendem a droga para o uso medicinal — 300 abertos desde 2000 na Grande Denver, mais do que franquias do Starbucks — ajudaram a levantar US$ 5 milhões em 2012 aos cofres estaduais.

A legalização geral multiplica por mais de 20 este número, prevê o Centro Futuros da Universidade Estadual do Colorado. A regulamentação aprovada no fim de maio estabelece três impostos sobre a maconha: 15% no atacado (que serão destinados à construção de escolas), 10% no varejo e mais 2,9% do ICMS normal.

Os economistas Charles Brown e Phyllis Resnick projetaram ao menos 642 mil consumidores de maconha em 2014, girando um mercado de US$ 605,7 milhões. Isso permitiria ao erário recolher US$ 130,1 milhões em impostos. Atualmente, o Colorado tem 109 mil portadores do cartão que dá acesso à maconha medicinal.

Gastos com prevenção

Mas os autores das projeções alertam: os números deverão cair após os primeiros anos e os gastos com programas de prevenção associados vão crescer. Art Way, diretor da Drug Policy Alliance (um dos maiores grupos de defesa da legalização e de políticas não repressivas) afirma que estes mesmos programas fazem do Colorado um destaque no cenário americano.

Além da liberação do uso recreativo, nos últimos dois anos o estado legalizou programas de distribuição de seringas, lançou uma versão mais abrangente do programa de prevenção de overdose, reviu a política de punição para portadores de maconha — substituindo prisão por trabalhos comunitários e tratamento — e reformou a lei de acesso à maconha medicinal.

— O Colorado é hoje o epicentro da reforma da política de drogas nos EUA — afirma Art Way.