COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

CRACK - A DROGA QUE PRENDE AS CRIANÇAS ÀS RUAS

ZERO HORA, 22 de junho de 2012 | N° 17108

FILHO DA RUA. Falta de preparo da rede pública para tratar a epidemia da droga agrava casos como o do garoto Felipe, acompanhado por ZH por três anos e mostrado em caderno especial no domingo - LETÍCIA DUARTE


Diante da epidemia do crack, tirar crianças das ruas virou sinônimo de luta contra a dependência. O problema é que a rede pública de atendimento não está preparada para remover esta pedra do caminho.

Como mostrou a história de Felipe, o menino de rua que teve sua história contada na reportagem Filho da Rua, publicada domingo em Zero Hora, o procedimento padrão é internar o dependente para 21 dias de desintoxicação. Embora ajudem a limpar o organismo dos pacientes, essas três semanas acabam desperdiçadas porque faltam espaços para dar continuidade ao tratamento. Sem acompanhamento, meninos como Felipe retornam instantaneamente para as esquinas e para as drogas após a alta.

Segundo o médico psiquiatra Rogério Alves da Paz, que durante dois anos estudou técnicas de tratamento à dependência química nos Estados Unidos, em programa vinculado ao National Institute on Drug Abuse, a recaída é quase certa se o paciente retornar para o mesmo ambiente de onde saiu.

– A desintoxicação só tira o sujeito do surto, não é um tratamento propriamente dito. E a aderência ao tratamento ambulatorial é muito difícil nesses casos. O ideal é que eles fiquem internados por mais tempo, para que aprendam a mudar comportamentos – defende.

O psiquiatra, que também é coordenador técnico da casa Marta e Maria, que acolhe adolescentes com dependência química na Capital, salienta que, nos Estados Unidos, casos graves de dependência associada a transtornos psiquiátricos costumam ser tratados com períodos de um a dois anos de internação.

Com duas décadas de experiência na área, o psicólogo Lucas Neiva-Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande e pesquisador do Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua da UFRGS, observa que as antigas estratégias de combate ao loló se tornaram ineficazes diante do crack, o que exige novas abordagens.

– A síndrome de abstinência do crack é muito forte. Se com apoio da família já é difícil o tratamento, imagina sem. Sem acompanhamento, a recuperação vai ser um fracasso em 99,9% dos casos – alerta.

OLHAR DOS PROFISSIONAIS PARA DEPENDENTES PRECISA MUDAR

Um dos reflexos da expansão da pedra é que, atualmente, a maioria dos bebês colocados para adoção são filhos de usuários de crack. A constatação é do juiz José Antônio Daltoé Cezar, da 2ª Vara do Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre, que lamenta a falta de opções de tratamento aos dependentes:

– Temos de catar lugar para atender essas crianças, porque não existem esses equipamentos. É uma epidemia nova, estamos tateando ainda.

Para Maria Cristina Gonçalves da Costa, coordenadora da Casa Amarela/Instituto Recriar – instituição que acolhe 13 adolescentes com idade entre 12 e 19 anos –, o olhar dos profissionais também precisa mudar. Ela questiona o conceito vigente de que os meninos de rua só devem ser internados se quiserem.

– Que condições um menino dependente tem de decidir se quer ou não se tratar? Se fosse um filho teu, tu deixaria ele decidir se quer ou não o tratamento? – questiona.