COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

MÃES DO CRACK

FANTÁSTICO Edição do dia 27/10/2013

Mães dependentes de crack lutam para se livrar do vício e manter guarda das crianças. Por que é tão difícil um dependente químico parar de usar o crack? Há um ano, você conheceu no Fantástico as mulheres que, mesmo grávidas, continuavam na droga.




Por que é tão difícil um dependente químico parar de usar o crack? Há um ano, você conheceu no Fantástico as mulheres que, mesmo grávidas, continuavam na droga. O doutor Drauzio Varella reencontrou essas mães e mostra quem venceu e quem continua nessa luta tão dura.

No ano passado, o Fantástico contou a história de meninas dependentes de crack que engravidaram enquanto usavam a droga. Procuramos acompanhar o esforço que elas faziam para enfrentar a dependência, com a intenção firme de proteger seus filhos que estavam para nascer.

Exatamente um ano depois, o Fantástico foi atrás dessas meninas para saber como estavam elas e os bebês.

Um ano atrás, Letícia, Samara e Fabíola queriam largar o crack de vez. Elas estavam para dar à luz, e a maternidade parecia a última chance de recomeçar.

"Eu tenho medo de não conseguir, mas eu vou conseguir", acredita Samara Cristina dos Santos.

Quando Ester nasceu, Samara foi para casa da avó. Isso foi um ano atrás. Agora, a Ester está no mundo. E o que aconteceu com a Samara?

“Aconteceu que ela voltou pra rua. Abandonou a filha com 11 dias. Voltou primeiro para rua, aí ficou passando uns dias na rua, aí seis horas da manhã chegava em casa. Isso todo dia. Nós só brigávamos. Ela chegava drogada. Aí eu falei ‘então aqui cê não pode ficar não’”, conta Maria de Lourdes de Araújo, avó da Samara.

E a Ester ficou com dona Lourdes.

“Ainda tenho uma esperancinha ainda”, diz a avó Samara.

Samara não sumiu de todo. Três meses atrás, por telefone, ela deu notícias.

“Ligou, falou que tava em Ribeirão. Falou: "ô vó, não preocupe não que eu tô aqui em Ribeirão’”, diz a avó.

Acompanhamos dona Lourdes tentando encontrar a neta. Samara tinha dito que estava em um hotel no centro de Ribeirão Preto, cidade paulista, que como tantas outras no Brasil, tem uma cracolândia. Samara não está mais no hotel.

Funcionária do hotel: A última vez que ela veio aqui ela tava bem, graças a Deus.
Drauzio Varella: E para onde ela foi?
Funcionário da hotel: Ela falou uma pracinha.

A praça é a mesma da cracolândia que você acabou de ver. Nas imediações da praça, Samara já é conhecida.

Já é noite quando um vulto magro, vestido rosa, aparece na praça. Samara está chorando. Pergunta pela filha e logo em seguida diz que não ser filmada. Daqui a pouco você saber o que aconteceu com ela e com a menina.

Fantasma do crack continua assombrando a vida de Samara

Três meses atrás, encontramos Fabíola e o filho em Mogi Guaçu, interior de São Paulo. Artur nasceu em fevereiro em boas condições de saúde.

“Eu precisava de uma força maior, e Deus me deu essa criança, eu acho que para mudar minha vida mesmo”, conta Fabíola Fernandes da Silva.

Depois de viver com o filho em um abrigo da prefeitura, ela se casou com o André que também fumava crack. Agora, tudo parece bem.

“Hoje graças a Deus meu marido trabalha, me dá de tudo, sabe? Não falta nada pra mim nem pro meu filho”, revela Fabíola.

Mas o fantasma do crack continua assombrando.

“Tenho medo de voltar para o crack de novo. Morro de medo. Não sei explicar. É uma coisa aqui dentro, sabe? Dentro da gente. Que fica, que fica chamando assim, sabe? Se a gente não for forte, a gente volta, perde tudo”, afirma Fabíola.

Nesse período, ela teve uma recaída. É fácil conseguir crack perto dali. Uma semana depois da entrevista, Fabíola e o marido sumiram.

“Chegou um dia, ela tava aqui dentro com um moleque, o marido dela tava aqui também. Aí chegaram aí dois policiais, ou acho que é o oficial de justiça e o conselho tutelar. Chamaram, aí ela pegou, já viu e já começou a chorar, porque acho que ela já sentiu que ia pegar o moleque”, conta Maiara da Silva, vizinha de Fabíola.

O menino foi levado para um abrigo.

Drauzio Varella: Quando foi a última vez que você viu a Fabíola?
Maiara da Silva, vizinha de Fabíola: A última vez... olha, faz um tempinho já.
Drauzio Varella: Onde ela estava? Tava na rua!?
Maiara: Tava na rua.

Ficamos frustrados quando vemos alguém, que estava sem fumar crack há meses ou anos, volta para droga. Dizemos que essas pessoas não têm força de vontade, são fracas. Casos perdidos. Estamos errados. Não são casos perdidos nem se trata de fraqueza.

“No crack, no caso do crack acontecem muitas recaídas, mas em qualquer dependência química acontecem recaídas”, explica o doutor Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra - Unifesp.

As recaídas fazem parte da doença que a droga causa no cérebro. A recaída deve ser entendida como um colapso, uma falência na capacidade de resistir ao impulso de sentir o prazer intenso que o crack provoca.

“Por que o crack é tão forte? Ele já vai direto para o pulmão, para a absorção imediata, e ele atinge um alto nível no sangue em poucos segundos. Quanto mais rápida essa absorção, quanto maior essa intensidade dessa concentração no sangue, maior o efeito e maior a dependência. Também o efeito acaba mais rápido. A fissura pela droga aumenta quando tem essas características”, relata Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra - Unifesp.

Terapia em grupo para dependentes que lutam contra a recaída

A terapia em grupo é uma das formas de ajudar os dependentes químicos na luta contra a recaída.

“Você percebe que você não tá sozinho nessa empreitada, né? Eu, ouvindo o outro falar, eu percebo que eu também posso fazer. E também, quando eu falo e percebo que o outro aproveitou aquilo que eu tô falando como um exemplo pra ele, isso também me fortalece”, conta a psicóloga Yara Cunha, psicóloga.

As sessões acontecem em um dos 341 Centros de Atenção Psicossocial para Usuários de Álcool e Droga disponíveis no Brasil. São os chamados CAPS-AD.

Em um CAPS-AD de São Paulo, existe um grupo de prevenção à recaída.

Nesse local, conhecemos o Antônio dos Santos Filho, que tem 30 anos. Ele usa crack desde os 16. Desde então, passou por três internações.

Agora, Antônio frequenta o CAPS todos os dias e faz um curso de ajudante de cozinha.

“Graças a Deus está me ajudando e muito, porque eu tô aprendendo novas coisas, eu tô voltando a me integrar à sociedade, e, assim, o que me ajuda também aqui é o companheirismo, né?”, comemora Antônio.

“Isso é muito importante pra gente. É você fazer uma pessoa se sentir gente, se sentir capaz, se sentir que o mundo tá abrindo as portas pra ele”, diz a nutricionista Tânia Fonseca e Silva.

Quando fomos à casa dele, em Osasco, na Grande São Paulo, Antônio estava há 26 dias sem usar droga. Ele fumava em uma favela que fica do lado da casa.

Drauzio Varella: Antônio, é aqui que mora o perigo, né?
Antônio dos Santos Filho, 30 anos: Isso. É aqui mesmo que mora o perigo que, assim, eu tenho que evitar esses lugares que tão me fazendo cair, né?

“Às vezes só o fato de você ir naquele lugar já deflagra uma série de memórias, uma série de lembranças, e daí vem aquela compulsão para o uso. São aquelas memórias associadas ao consumo, que isso tem um papel muito central nas recaídas”, explica o psiquiatra Dartiu.

Sirlene encontra o fim das recaídas mesmo sem tratamento

Um ano atrás, você conheceu a história da Sirlene Rodrigues Ferreira.

“Eu tinha vergonha até de chegar perto da minha filha”, diz Sirlene.

Depois de dar à luz o segundo filho, Sirlene foi morar no sítio da mãe, longe do crack.

A partir desse dia, mesmo sem tratamento, nunca mais teve recaídas. Nem saiu do sítio.

Drauzio Varella: Sirlene, você não tem medo do contato com a cidade outra vez, de cair em tentação.
Sirlene Rodrigues Ferreira: Ah, eu tô me preparando, viu, Drauzio. Eu tô me preparando, então acho que psicologicamente. Eu tenho pra mim que não, não posso, né? Não posso.
Drauzio Varella: O crack dá uma onda de prazer muito intenso na hora que você fuma, não é?
Sirlene: Na hora, sim.
Drauzio Varella: E agora você não tem mais essa onda de prazer. Sente falta dela, não? Nessa atividade comum aqui de rotina...
Sirlene: Não. A minha onda de prazer agora é meu filho me abraçando, me beijando, minha filha olhando pra mim, meu bebê me chamando de mamãe.

Não é fácil vencer a droga, e os filhos do crack também podem ter uma luta difícil pela frente.

“Dependendo da dose que foi utilizada durante a gravidez, pode ter afetado, pode ter destruído algumas células do sistema nervoso central. isso vai repercutir no futuro”, explica Coríntio Mariani Neto, diretor da maternidade Leonor Mendes de Barros.

Pesquisa sobre as consequências da droga para o desenvolvimento de crianças

Nos Estados Unidos, uma pesquisa que durou 20 anos é a mais completa que já se fez sobre as consequências da droga para o desenvolvimento dessas crianças.

O estudo foi feito com famílias de baixa renda. Em um grupo, mães que não usavam drogas. No outro, usuárias que fumaram crack durante a gravidez. Ao longo dos anos, foram aplicados vários testes padronizados.

O trabalho mostrou que filhos do crack têm os mesmos problemas de desenvolvimento e conhecimento que os filhos de quem não consome drogas, mas vivem em situação de pobreza, em famílias desestruturadas e sujeitas à violência.

Só que os resultados dos testes foram piores que os das crianças de classe média, como diz a chefe da pesquisa, doutora Hallam Hurt, neonatologista da Universidade da Pensilvânia.

“Crianças pobres que foram expostas ao crack e crianças pobres que não foram expostas ao crack são iguais, mas não vão bem. Isso não é uma coisa boa”.

Fomos ao Alabama, Estados Unidos, conhecer a Jaimee, que participou da pesquisa. A mãe dela fumou crack até entrar em trabalho de parto. Apesar do consumo pesado da mãe, Jaimee conseguiu ser boa estudante. Tem 23 anos e está na universidade. Segundo ela, o sucesso vem de um grande incentivo para seguir em frente:

“Minha irmã. Ela ficou com a minha guarda e do meu irmãozinho, éramos nós três no mundo. Se não fosse pela minha irmã, provavelmente ia ser mais difícil pra mim. Ela permitiu que eu tivesse uma vida sadia e estável”, diz Jaimee Drakewood, estudante.

Um olhar para o amanhã

Ainda é cedo para sabermos o que vai ser dos filhos de Sirlene, Fabíola, Samara e também de Letícia, que você viu no início desta reportagem.

A Letícia chegou a gravar, mas depois pediu para a entrevista não ser exibida. Depois do parto, teve uma recaída. E até hoje consome crack. A guarda do filho está com a tia.

A bisavó continua com a guarda da filha de Samara, e ela ainda não conseguiu evitar recaídas.

A Fabíola está vivendo numa comunidade religiosa no interior de São Paulo. O marido também estava lá.

“Fumei uma vez e não consegui parar. Eu usava minha droga, mas, nossa, eu cuidava do meu filho. Nunca deixei meu filho passar fome, nunca deixei meu filho com ninguém”, conta Fabíola.

Hoje o filho da Fabíola está em um abrigo em Mogi Guaçu. O menino é o quinto e último filho dela. Os outros quatro ela foi perdendo por causa do crack. Estão vivendo com famílias adotivas.

Fabíola não pode mais dar à luz, fez laqueadura. Nos próximos meses, assistentes sociais vão avaliar se ela tem condições de reconquistar a guarda do bebê que você viu no início da reportagem.

Drauzio: Por que com ele você acha que foi uma coisa mais forte, assim, essa coisa da maternidade?
Fabíola: Porque eu realmente queria cuidar dele. É o meu último filho. Eu não tive condição de cuidar dos outros, né? Então eu queria fazer tudo que eu não fiz para os outros pra ele.

“Quero que ela seja internada em um hospital, que ela não sai, não fuja e que ela faça o tratamento para ela não mexer com isso mais”, conta a avó de Samara.

“Quero ser um cozinheiro, quero tomar conta duma cozinha e futuramente abrir meu restaurante”, planeja Antônio.

“Quero voltar a trabalhar. Nossa, o meu maior sonho agora é seguir minha vida”, acredita Sirlene.