COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A MARCHA DE DESINFORMAÇÃO


BRASIL SEM GRADES. Mai 14|14:07


por Fernanda Lia de Paula Ramos*




Li com muita satisfação o artigo da Zero Hora do Dr. Afif Simões Neto, juiz de Direito, que relatou com seriedade e preocupação sua experiência na interdição de pessoas com esquizofrenia, ressaltando a grande relação dessa doença com o uso abusivo de maconha. Essa observação condiz com diversas pesquisas realizadas nos últimos anos sobre essa droga. Um trabalho sueco recente avaliou homens por 35 anos e demonstrou que aqueles que tiveram um uso de maconha frequente (mais de 50 vezes durante a vida) tiveram quase quatro vezes mais chance de desenvolver esquizofrenia do que os que não usaram maconha. Vale salientar que o uso de 50 vezes na vida é obtido rapidamente por usuários diários da substância, tão comuns em nossos consultórios. Ou seja, tal estudo nos alerta para o fato de que a maconha, tida por alguns como apenas uma erva natural, pode causar uma das patologias mais graves da psiquiatria, gerando limitações significativas na vida diária, que podem culminar até com interdições, como bem lembrou o Dr. Afif.

Infelizmente, a verdade é que, quanto à maconha, parece que muitos desconhecem (ou fazem questão de desconhecer) os fatos graves (e cientificamente comprovados) que pessoas que lidam diretamente com as consequências dessa droga, como o Dr. Afif e eu, percebem diariamente. Atualmente, por exemplo, fala-se muito da redução do número de acidentes e de mortes no trânsito gerada pelas felizes medidas restritivas e punitivas de tolerância alcoólica zero ao volante, mas o que poucos sabem é que o uso de maconha duplica o risco de acidentes fatais por veículos motorizados. Além disso, pouco se fala sobre o fato de que o uso regular de maconha gera piora significativa do rendimento escolar, provavelmente associada com os déficits de memória, de concentração e da capacidade cognitiva gerados pela droga. Muitos desses estudantes abandonam o colégio e passam a ter dificuldade de ingressar em um mercado de trabalho qualificado e competitivo.

Usuários de maconha também têm maior prevalência de diversas outras patologias psiquiátricas, como transtornos de humor (depressão e transtorno de humor bipolar) e transtornos de ansiedade. Todos esses dados tornam-se ainda mais graves se observarmos, conforme o último levantamento nacional sobre uso de drogas no Brasil, que 62% do 1,3 milhão de brasileiros dependentes de maconha experimentam tal substância antes dos 18 anos. Segundo os estudos da neurociência, nessa idade, o cérebro humano ainda nem sequer completou sua maturação.

E o que será que aconteceria se a maconha fosse liberada hoje no Brasil? Provavelmente ocorreria o que um estudo americano identificou nos seus Estados em que o uso é legalizado. Nesses locais, observou-se um aumento significativo do uso de maconha (o risco de usar foi quase o dobro do que nos Estados em que a droga não é legalizada). Aumentando o consumo, aumentarão também todos os malefícios que a maconha pode gerar. E é isso que queremos para nossos filhos e para a nossa sociedade? Eu, certamente não.

* Fernanda Lia de Paula Ramos é psiquiatra especialista em dependência química e psicoterapia - Artigo publicano na Zero Hora de 15/05/13