COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

MACONHA LEGALIZADA ABRE ROTAS E OPORTUNIDADES PARA O TRÁFICO

ZERO HORA 08/05/2014 | 05h01


Legalização da maconha deixa rastros de nova rota de tráfico. Volume apreendido na fronteira entre Brasil e Argentina, com provável destino ao Uruguai, foi de oito toneladas em abril

por Humberto Trezzi


Vista como uma política alternativa à guerra ao tráfico, a regulação do plantio e da venda da maconha no Uruguai ainda representa apenas uma coisa para os traficantes: oportunidade de negócios. De olho nesse mercado que começa a se formar no Cone Sul, os criminosos parecem ter se adiantado à lei da oferta e da procura. O volume de apreensões de droga destinada ao território uruguaio deu um salto nos últimos anos.

Em 2008, a polícia uruguaia localizou apenas 809 quilos de maconha. Em 2012, o confisco mais do que dobrou: 1,9 tonelada. E, em 2013, o número passou para 2,1 toneladas.

O volume é pequeno se comparado às apreensões na Argentina, que teria se tornado corredor de passagem da marijuana paraguaia a caminho do território uruguaio. Só no mês de abril, a Gendarmería argentina (polícia de fronteira) apreendeu mais de oito toneladas de maconha próximo ao Uruguai e na fronteira com o Brasil.

Ao longo do ano passado, as províncias argentinas contíguas ao Brasil apreenderam 13 toneladas. Tudo em cidades fronteiriças com o Rio Grande do Sul, como Paso de los Libres e Santo Tomé.

A Junta Nacional de Drogas do Uruguai calcula que um em cada três jovens de Montevidéu fuma maconha e cerca de 120 mil uruguaios a consomem pelo menos uma vez ao ano. Ou seja, 3,5% dos uruguaios (3,5 milhões de pessoas) fazem uso da cannabis sativa anualmente.

Para efeitos de comparação, é mais que o dobro do percentual brasileiro: a última grande pesquisa sobre maconha feita no Brasil, a cargo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgada em 2012, mostra que 1,5% da população consumiu maconha naquele ano.

— A maior parte do que é movimentado é direcionada ao Uruguai. Quando o governo daquele país autorizar o plantio, pode apostar que vão cultivar 10 vezes mais. Os traficantes são ligeiros – afirma o delegado André Luís Epifânio, chefe da delegacia da Polícia Federal em Uruguaiana.

Os caminhos do tráfico

(clique na imagem para abrir o infográfico em tamanho maior)


Dentro do território gaúcho também cresceu o movimento de marijuana. Foram 82 quilos confiscados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) de janeiro a março, sendo 50 destinados ao Uruguai, a maior parte disso em Santana do Livramento.

No primeiro trimestre de 2013 foram apenas 18 quilos de erva apreendidos. Outros 106 quilos destinados ao Uruguai foram apreendidos semana passada, em Cruz Alta.

— Os indícios de uma nova rota para o Uruguai são avassaladores. Basta ver as apreensões, que aumentaram — comenta Alessandro Castro, do setor de comunicação da PRF.

Autor de lei aposta em redução da ilegalidade

Especialista em segurança pública, o ex-deputado federal Marcos Rolim considera “precipitado” deduzir que a entrada de maconha no Uruguai aumentou. Ele diz que dados oficiais não necessariamente refletem tendência de aumento de atividades criminosas.

— As apreensões podem ter crescido porque a polícia trabalhou mais ou até porque algum traficante não pagou suborno — pondera o sociólogo, defensor da descriminalização do consumo da maconha.

Já o autor da polêmica Lei da Maconha, que regula o plantio e a comercialização no Uruguai, deputado Julio Bango (Frente Ampla), avalia que o tráfico possa ter aumentado frente à demanda crescente por marijuana entre uruguaios. Mas aposta na diminuição da ilegalidade ao longo do tempo.

— Quando o governo controlar o comércio, os traficantes vão perder espaço — afirma Bango.

Operação policial fecha bunker das drogas

Policiais federais argentinos e de fronteira receberam em outubro um informe que resultou em uma grande operação. Uma quadrilha transnacional teria locado uma estância em Santo Tomé, município argentino que faz fronteira com a cidade gaúcha de São Borja. De lá, enviavam cocaína para o Brasil e maconha ao Uruguai.

Em 14 de novembro, os agentes, munidos de ordem judicial, ocuparam a fazenda Santa María de Aguapey. Os 30 policiais entraram escondidos em um caminhão-frigorífico, de onde saltaram para a ação. O local era um verdadeiro bunker. Tinha pista de aterrisagem com quase mil metros de comprimento, um caminhão-tanque com mil litros de combustível para recarregar aeronaves e quatro aviões estacionados em meio a árvores.

Os aviões Super Skylane e Cessna 200 eram dotados de dispositivos que permitem driblar radares. A base do narcotráfico contava ainda com telefones via satélite, radiocomunicadores, GPS e gerador de energia própria. Na operação, os policiais descobriram 330 quilos de cocaína numa aeronave e prenderam oito pessoas.

Entre os presos, estavam argentinos, paraguaios, peruanos, bolivianos e uma brasileira. Ao serem interrogados, alguns dos presos admitiram que também vendiam maconha para o Uruguai.

— Portavam todo tipo de armas, incluindo fuzis norte-americanos — descreveu o secretário nacional de Segurança Pública argentino, Sergio Berni.

Outros dois aviões foram apreendidos em 17 de abril pela Gendarmería argentina em Paso de los Libres. Estavam numa fazenda, que tinha pista própria, ao lado do aeroporto daquela cidade. Ao todo, seis aeronaves foram confiscadas em cinco meses pelos policiais que atuam na fronteira Argentina-Brasil.