COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

domingo, 25 de maio de 2014

O BRASILEIRO CAMALEÃO DO CRIME QUE ENGANOU TODO MUNDO

por Itamar Melo e José Luís Costa, ZERO HORA 24/05/2014 | 15h04

Um camaleão do crime

Paul Lir: o traficante brasileiro que enganou todo mundo

Catarinense criado em Porto Alegre fez de bobos um cartel colombiano e o governo americano


Paul Lir na juventude e após a prisão, efetuada nos EUAFoto: Reprodução


Paul Lir Alexander fez um grande bem à sociedade entre 1990 e 1993. E também demonstrou um profundo desprezo por ela, ao cometer seus piores crimes.

Ele morava em uma casa luxuosa de Miami com a segunda mulher, Erica Souza. Ao redor, possuía duas outras residências: uma para a sogra, outra para a irmã de Erica, Marjorie. Na mansão, mantinha uma central telefônica com 40 linhas e um centro de monitoramento onde espionava em seis televisores o que ocorria em seus imóveis. Apresentava-se como importador e exportador e mentia ser mestre em Economia.

Naquela época, o crack e a cocaína inundavam as metrópoles americanas, sob o olhar impotente das autoridades. A repressão praticamente se resumia a prender traficantes de esquina ou pequenos distribuidores locais. A polícia e a DEA, agência antinarcóticos americana, percebiam que era necessário atacar a origem do problema: os cartéis colombianos que abasteciam o mercado.

Eles só não sabiam como.

Em 1990, Jerry Speziale, policial que trabalhava infiltrado no submundo, sentia-se perdido na recém-criada força-tarefa da DEA em Nova York. Passava os dias tentando achar uma brecha para chegar aos cartéis, sem sucesso. Numa ocasião, vasculhando os arquivos da agência no computador, deparou com uma referência promissora na ficha de um traficante colombiano: "Negociado com o informante confidencial SGI-2002 em São Paulo, Brasil, em relação a 2 mil quilos de cocaína destinados a Nova York". Ao perguntar sobre o informante para um colega de Miami, ouviu um suspiro profundo do outro lado da linha, antes de receber a resposta:

— Paul Lir Alexander. Um informante incrível, impressionante, com contatos em todos os lugares. Trabalha por muito dinheiro. Fez até serviços de inteligência para o Mossad (serviço secreto israelense)... Mas tem um problema. Ele está na nossa lista negra. Estava fazendo algo para nós no Brasil, onde não só se envolveu em um escândalo de corrupção, mas também ficou sob suspeita de negociar cocaína enquanto trabalhava como informante. A imprensa brasileira o expôs, e a história saiu do controle.

O agente de Miami explicou que, enquanto trabalhava como informante da DEA, o brasileiro havia orquestrado um esquema de corrupção com a polícia fluminense e, ao mesmo tempo, negociado com os colombianos. Quando o escândalo estourou, fugiu para Miami. Inconfiável, tornara-se inútil.

— Qual é o nome dele, mesmo? — insistiu Speziale.

— Paul Lir Alexander. Mas também Pedro Chamorro, José Oscar Arguello, David Coleman. Ele tem uma dúzia de nomes e pseudônimos diferentes. Você nunca vai achá-lo.

Speziale voou para Miami no começo de 1990 e deixou recados em todos os lugares por onde o brasileiro já havia passado ou poderia passar: "Sou da DEA e quero limpar seu nome". Um mês depois, Paul Lir telefonou.

— Me encontre esta noite no lobby do Sheraton — disse o brasileiro.


"Eles vão farejar você a um quilômetro e te matar"

Então com 35 anos, Paul Lir vestia terno de grife, gravata, suspensórios e sapatos italianos. Carregava uma pasta de couro e tinha um Rolex no pulso. Speziale apareceu de jeans e camiseta de ginástica. O brasileiro embarcou-o em uma limusine. Speziale tagarelou durante todo o trajeto. Paul Lir abriu a boca apenas quando eles se sentaram à mesa de um restaurante.

— Deixe-me explicar algo a você, Jerry. Você age como um policial. Você fala como um policial. Você pensa como um policial. Você cheira como um policial. Se você pensa que vai chegar perto dos cartéis, você está louco. Eles vão farejar você a um quilômetro de distância e então vão te matar.

Paul Lir fez então uma explanação sobre como o tráfico funcionava. Os cartéis, explicou, eram uma complexa associação de traficantes, compartimentada em inúmeras células com especializações distintas. Havia produtores, investidores, transportadores, peritos em lavagem de dinheiro, distribuidores. Os grupos responsáveis por cada uma dessas tarefas mudavam de carregamento para carregamento. A compartimentalização garantia que, caso a polícia golpeasse uma etapa do negócio, não conseguiria chegar às demais. Todo o sistema era desenhado para manter o dinheiro separado das drogas, de forma que, se houvesse apreensão de um, o outro não seria localizado. Essa ampla estrutura era controlada por um pequeno grupo de famílias em Cáli.

No livro Without a Badge — Undercover in the World's Deadliest Organization (Sem Crachá — Infiltrado na Organização Criminosa mais Mortal do Mundo), inédito no Brasil, no qual narra a participação de Paul Lir como informante da DEA, Speziale relata que só naquele momento entendeu a magnitude e a sofisticação dos cartéis. Percebeu que os relatórios a que tinha acesso eram inúteis e que "a DEA não havia arranhado nem a superfície" do narcotráfico.

— Como é que a gente rompe tudo isso e pega esses caras? — questionou.

— A única forma de pegar o cartel é se tornar parte dele — rebateu Paul Lir.

A proposta do criminoso era montar uma célula de transporte, aquilo de que os cartéis mais necessitam. Segundo Paul Lir, essa era, também, a área que ele dominava. Seu plano consistia em a DEA criar uma empresa de importação e exportação de fachada, em algum país latino-americano, e oferecer aos cartéis um esquema de transporte entre esse país e os Estados Unidos. A célula fajuta receberia a droga colombiana em uma pista de pouso clandestina na América Central, reabasteceria a aeronave do cartel para que ela voasse de volta à Colômbia e se encarregaria de entregar a cocaína às redes de distribuição norte-americanas. Nesse momento, os policiais tratariam de apreender a droga e prender os distribuidores.

— Uma vez que entreguemos as drogas aos distribuidores, vamos embora com o dinheiro. Uma outra equipe apanha as drogas e os distribuidores. Tem só um detalhe, muito importante. É absolutamente imperativo que nós sempre possamos colocar a culpa pelo fracasso nas outras partes envolvidas no negócio. Porque quem estiver com o carregamento no momento em que o negócio cair estará morto — disse o brasileiro.

Virando o jogo diante de um tribunal do tráfico

Para montar o esquema, Paul Lir exigia que seu nome fosse retirado da lista negra da DEA e reintegrado como informante. Descobrira que a melhor maneira de ficar rico com as drogas não era ser traficante, e sim atuar como informante. A DEA garantia recompensas equivalentes a 20% do valor apreendido. Em troca, ensinaria tudo que sabia ao agente:

— Vou ensiná-lo a pilotar um avião e a construir uma pista de pouso no meio da selva. Vou recriar você.

Speziale conseguiu remover Paul Lir da lista. O brasileiro anunciou que eles iriam às compras em algumas das lojas mais caras de Nova York. Enquanto reconfigurava o estilo do agente, começou a fazer contatos. Conversou com duas figuras secundárias do tráfico colombiano, Avelino Devia Galvis e Alonso Tobon, e convenceu-os de que ganhariam muito dinheiro em caso de uma associação. Dessa forma, levou-os a dizer ao cartel que Paul Lir, conhecido pelos colombianos como Oscar Arguello, e Speziale, rebatizado como Geraldo Bertone, eram confiáveis.

— No momento em que os colocarmos a pensar em dinheiro, eles vão mentir por nós — disse Paul Lir.

Garantiu aos colombianos que estava transportando droga com um novo sócio, Geraldo Bertone, mas que surgira um problema. Eles haviam introduzido uma carga de 400 quilos de cocaína nos Estados Unidos, mas o cliente local não tinha dinheiro para pagar.

— Você sabe de alguém que queira essa carga? — questionou Paul Lir.

Chegaram a mostrar o suposto carregamento a um representante dos colombianos, Freddy Herrera, sobrinho de Helmer Herrera, um dos maiores traficantes de Cáli. A droga tinha vindo do depósito de evidências da DEA. Herrera relatou ao cartel que a mercadoria era autêntica.

Dias depois, quando os colombianos finalmente levantaram o dinheiro para pagar a carga, Paul Lir informou que a venda já não seria possível: o cliente original havia levantado o recurso. Os 400 quilos de cocaína estavam de volta aos depósitos da DEA, mas haviam alcançado o objetivo: convenceram os colombianos de que Arguello e Bertone eram de confiança e lidavam com muita droga.

Em abril de 1991, a primeira vítima mordeu a isca. Um grande traficante colombiano, José Lizardo Losada, recebera garantias de Avelino, Alonso e Freddy de que o esquema de transporte do brasileiro era autêntico e estava disposto a usá-lo.

Paul Lir foi à Colômbia e contou a Lizardo que tinha uma empresa de importação e exportação na Guatemala chamada Genesis, com pista para pouso no meio da selva. Garantia que poderia receber carregamentos da Colômbia e levá-los até Nova York. Lizardo propôs que o esquema do brasileiro transportasse 767 quilos de cocaína, US$ 2,5 mil o quilo. Avelino e Alonso, como intermediários, receberiam uma comissão polpuda.

Quando tudo estava pronto, incluindo a montagem de uma empresa de fachada na Guatemala, Lizardo convocou de novo Paul Lir à Colômbia.

— Seguiremos adiante se você nos der um membro da sua família como garantia — disse o chefão.

Paul Lir telefonou para a cunhada, Marjorie de Souza, em Miami.

— Preciso que você passe umas duas semanas com uns amigos meus em Bogotá.

Sem saber que era refém e seria morta caso algo desse errado, Marjorie viajou para a Colômbia. Ficou em um hotel de luxo, vigiada por guarda-costas — na realidade, eram assassinos.


Paul Lir com a segunda mulher, Erica | Imagem: Reprodução



Em 12 de agosto de 1991, o avião com 767 quilos de cocaína pousou na pista construída por Paul Lir no meio da selva guatemalteca para a DEA. A carga valia na época US$ 59 milhões (mais de US$ 100 milhões em valores atualizados). No dia seguinte, foi levada ao aeroporto em três caminhões e embarcou para Nova York em um avião da PanAm. Foi direto para os depósitos da DEA.

Como havia dito aos colombianos que o transporte seria por navio, só um mês depois Paul Lir confirmou o sucesso da operação.

— As camisetas estão aqui, meu amigo, e elas são muito boas — disse ele, por telefone, a Lizardo.

Mas uma dificuldade surgiu. Lizardo disse a Paul Lir que a droga deveria ser entregue a três destinatários diferentes. Era um teste: se todas dessem errado, o traficante saberia que a culpa era do brasileiro.

— Quem estiver com a droga quando o carregamento cair é a pessoa que vai morrer — disse Paul.

A primeira entrega, de cem quilos, deveria ser feita a um colombiano chamado Mario, que mobilizou um auxiliar, Julio Mendez Yepez. Julio chegou em uma van azul ao local do encontro, uma lanchonete. Paul disse-lhe que levaria a van até o depósito, colocaria a droga em seu interior e a deixaria estacionada em determinado ponto.

Num canto de mesa, um matador ostentava arma

A polícia descobriu que a van entregue a Paul Lir estava com o licenciamento vencido. Disfarçados de patrulheiros de trânsito, os agentes abordaram Julio, usando como pretexto o problema nas placas — e então encontraram as drogas, como se fosse por acaso. Também simularam a apreensão dos outros 667 quilos. O estratagema permitia a Paul Lir e a Speziale atribuir a culpa pelo malogro do carregamento à célula de Mario. Como parte da operação, Paul telefonou a Mario, simulando fúria:

— Tem alguma coisa acontecendo, porque a polícia acabou de dar uma batida no meu depósito.

Com o revés, veio a caça às bruxas. O brasileiro foi convocado à Colômbia. Quando chegou à sala de conferências de um hotel de luxo em Bogotá, percebeu que não era uma simples reunião. Havia grades em todas as aberturas, paredes de aço e seguranças. Em uma ponta de mesa, estava um assassino do cartel, com a arma à mostra. Se Paul Lir fosse considerado culpado pela perda dos 767 quilos, morreria ali mesmo. O brasileiro não se intimidou:

— Pagamos ao nosso pessoal na Guatemala muito dinheiro para garantir o sucesso desse carregamento. Mas agora nosso negócio foi infiltrado pela polícia. Teremos de mudar tudo. Sofremos uma perda tremenda e devemos ser ressarcidos.

Para reforçar seu discurso, entregou aos traficantes jornais de Nova York que noticiavam a apreensão. Eram exemplares falsificados pela DEA, dizendo que a polícia havia pego a droga por acaso. Enquanto os homens liam, o informante continuou:

— Onde está Mario? Eu estou aqui, mostrando minha cara. Mario, o culpado, não está. Por quê?

Também partiu para o ataque. Disse que alguém teria de se responsabilizar por sua perda, já que a culpa não fora dele. Foi tão convincente que o absolveram, pediram-lhe desculpas e prometeram indenizá-lo. Sua cunhada foi libertada, ilesa.

Atrás das grades, mas sem perder a pose

No dia 19 de abril de 1993, Paul Lir Alexander desembarcou em Miami com a segunda mulher, Erica Souza. Foi preso pela DEA no próprio aeroporto. Passaria os 17 anos seguintes encarcerado, primeiro nos Estados Unidos, depois no Brasil.

Não se sabe ao certo por que ele decidiu viajar a um país onde era procurado. Quando seu esquema foi desmascarado, correu a Bogotá para dar explicações a Pacho Herrera, o chefão do tráfico para quem transportava a droga. Herrera disse que o brasileiro deveria ficar por lá, onde seria protegido, e jamais voltar a pôr os pés nos EUA. Mas Paul Lir sabia que, quando vazasse a informação de que ele trabalhara para a DEA, seria um homem morto na Colômbia.

Uma possibilidade é que tenha acreditado que passaria a conversa nos americanos mais uma vez. Durante a vida toda, sempre conseguira enrolar todo mundo e tinha uma autoconfiança sem limites.

— Ele achava que nada era impossível — conta a primeira mulher, que morava em Miami na época e esteve na casa do ex-marido no dia da captura.

A Justiça americana condenou o brasileiro a 23 anos de prisão pelo tráfico de 1,8 tonelada de cocaína — o total apreendido nos dois últimos carregamentos de transformadores. Depois, a pena foi reduzida para 13 anos. A investigação apontou que o traficante amealhara US$ 20 milhões em dinheiro, sem contar valores em uma série de contas bancárias, empresas e imóveis, além de iates na Itália e na Espanha. Algumas listas apontam Paul Lir como um dos 20 traficantes mais ricos da história, com fortuna avaliada em US$ 100 milhões a US$ 170 milhões.

Fotos do tempo em que estava preso na Flórida mostram que, mesmo encarcerado, o traficante não abria mão da vaidade. Esculpia o corpo à base de musculação, andava sempre com óculos escuros de grife e fugia do uniforme da prisão.

— Não sou bandido — justificava.

— Quem fez o que tu fizeste é bandido, sim — disse-lhe a mãe.

A idosa visitou o filho três vezes no presídio, em 1995. Paul Lir mandou as passagens aéreas para ela viajar de Porto Alegre a Miami, onde passaria uma temporada de três meses na Flórida. A mãe permaneceu 18 dias na casa do filho em Miami, com Erica, e decidiu voltar ao Brasil por problemas de saúde.

— Foi a última vez que vi meu filho. Ele estava bem, mas magro, perdendo os cabelos. Na verdade, acho que ele me chamou para vigiar a Erica. Ela saía todas as noites para dançar nas boates. Mas eu não ia ficar de babá dela — conta a idosa.

Enquanto pagava por seus crimes nos Estados Unidos, Paul Lir tentava safar o butim amealhado no Brasil. Ele tinha duas dezenas de imóveis em Minas e no Rio, incluindo galpões, casas, salas comerciais, sítios e fazendas, além de nove veículos — automóveis e caminhões. Para evitar o confisco, simulou a venda de parte do patrimônio para o sogro — 12 salas comerciais no Edifício Barra Space Center, na Barra da Tijuca, e dois terrenos em um condomínio na mesma região. Sargento da PM do Rio aposentado, o homem nem de longe teria recursos para o investimento. Acabou implicado na Justiça. Erica abandonou o marido.

Paul Lir estava preso havia uma década quando voltou a ficar sob os holofotes em razão da publicação do livro do agente da DEA Jerry Speziale. Na obra, o policial revelava a colaboração com o brasileiro e contava como, usando o que aprendera com Paul Lir, continuara a realizar operações, a apreender toneladas de cocaína e a prender traficantes. "Paul estava na cadeia, mas a voz dele seguia sempre comigo, sussurrando em meu ouvido, dizendo que eu não era bom o bastante, esperto o bastante, habilidoso o bastante, para fazer as coisas tão bem como ele faria. Às vezes, eu penso em Paul, meu mentor no negócio das drogas. O trabalho que fizemos juntos provocou um estrago tremendo no negócio de cocaína de Cáli", escreveu Speziale.

O brasileiro não gostou de ser retratado. Mandou dizer que mataria Speziale e a família. Também se enfureceu com a notícia de que sua vida viraria um filme — que não chegou a ser finalizado.

Em 2005, Paul Lir foi extraditado ao Brasil para responder a processo por tráfico internacional em Minas Gerais. Ficou até março de 2006 na carceragem da Polícia Federal, em Belo Horizonte.

— Ele era bem falante e articulado. Passava os dias contando histórias para outros presos — recorda o advogado Adalberto Lustosa de Matos, seu defensor.

Em maio, foi condenado a 42 anos de prisão pela 9ª Vara Criminal Federal e recolhido à Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Recorreu e conseguiu reduzir a pena a 27 anos e nove meses — até janeiro de 2037. Foi recolhido a uma cela individual de dois metros quadrados, com TV e rádio, em uma ala exclusiva para condenados pela Justiça Federal.

Cereais via Sedex

Paul Lir gostava de conversar apenas com um boliviano e com um apenado conhecido por Jorge Tadeu, apontado como um dos coordenadores do tráfico na fronteira do Brasil com o Paraguai, integrante do bando de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Mantinha um celular dentro da prisão, no qual era sempre visto a falar em inglês.

Embora preso, não perdeu a pose. Vivia bem penteado e com óculos escuros. Vestia trajes esportivos e, nas duas horas de sol diárias, caminhava pelos corredor. Preocupado com a alimentação, evitava refrigerantes e mandava comprar sucos diet, leite de soja e outros produtos de baixo teor calórico. Cereais chegavam para ele via Sedex.

— Ele me ajudou muito. Quando eu não tinha dinheiro, mandava comprar comida para mim — lembra um ex-detento gaúcho que conviveu com Paul em Contagem, localizado por Zero Hora no Vale do Taquari.

Paul Lir convenceu o gaúcho a chamar a cunhada para visitá-lo.

— Ele tinha visto uma foto dela e queria namoro. Pagou passagem aérea para minha mulher e para a minha cunhada, mas ela se assustou e não passou da portaria da cadeia — relata o ex-apenado.

Das 17 pessoas que o visitaram, 11 eram mulheres, algumas até 30 anos mais jovens. Na cadeia de Contagem, as visitantes podiam dormir com os presos na noite de sábado para domingo.

Por ter sido extraditado dos EUA, Paul Lir exigia tratamento VIP.

— Era muito autoritário e tinha mania de grandeza. Queria uma vida de príncipe dentro da cadeia, cobrava que a cela tivesse pintura diferenciada, que a namorada não fosse revistada — recorda o advogado Adalberto Lustosa de Matos.

O criminalista lembra que Paul Lir insistiu para ser transferido para uma penitenciária administrada pela ONG Associação de Proteção e Assistência aos condenados (APAC), na qual presos ajudam na administração e têm as chaves da cadeia.

— Perdi a paciência com ele. Não iria passar atestado de burrice, pedindo à Justiça algo que seria negado — afirma o advogado, que também defendeu Fernandinho Beira-Mar.

Matos lembra que Paul Lir era muito "chorão". Tentava sempre protelar pagamentos — mas quitou em dia os honorários.

Cocaína escondida dentro de transformadores

A desenvoltura e a lábia de Paul Lir Alexander entusiasmavam a agência antinarcóticos americana. Os policiais celebravam a habilidade do brasileiro para enganar os colombianos, responsável por prisões e apreensões sem conta. Até o dia em que descobriram que também estavam sendo feitos de bobos. Em 1993, com a ajuda da polícia brasileira, a DEA deu-se conta de que seu precioso informante vinha introduzindo quantidades colossais de cocaína nos EUA.

Paul Lir começou a enganar os americanos em outubro de 1991, quando selou uma parceria com José Longuinho de Arruda, ex-condenado por tráfico de Minas Gerais que conhecera no escritório de advocacia de um amigo, na Cinelândia, no centro do Rio. A ideia da dupla era criar uma estrutura para enviar cocaína aos Estados Unidos dentro de transformadores de energia elétrica. Eles simulariam a exportação dos equipamentos, fabricados no Brasil, e os remeteriam pejados de droga.

A dupla formou uma quadrilha de 21 pessoas, recrutando parentes e conhecidos de Erica Souza (a segunda mulher de Paul Lir) e amigos de Longuinho, incluindo um compadre dele, Francisco Rebecchi, dono de uma transportadora semifalida em Belo Horizonte. Paul providenciou documentos falsos para os comparsas, divididos em células no Rio, em Minas Gerais, em Rondônia, em Miami, em New Jersey e, mais tarde, em Mato Grosso. O comando estava nas mãos de Paulo Ferreira e José Paulo Rothstein — dois novos nomes adotados por Paul Lir.

O esquema funcionou por meio de três empresas de fachada. No Brasil, a quadrilha abriu a Eletricbras Trading Importação e Exportação Ltda (depois chamada de Trafobras Comércio Exterior Ltda), com "fábricas" em Minas Gerais e "escritórios" no Rio de Janeiro. Essa era a companhia que exportava os transformadores fabricados no Brasil.

Em Miami, Paul fundou a Iluminare Manufacturing Inc e, em Nova Jersey, a Ameritraf Transformers Distributions Inc, sob controle de um brasileiro e de um nicaraguense, Walter Calderon, chamado de Comandante Tonho. Essas companhias eram as supostas importadoras dos transformadores.

O braço mineiro do bando estabeleceu galpões em Contagem (MG), onde trabalhavam Rebecchi, o gerente, e mais sete pessoas, incluindo um eletricista e dois engenheiros nicaraguenses, especialistas na montagem dos transformadores comprados legalmente da Siemens, em São Paulo.

No norte do país, o comando era de Longuinho, que arrendou uma fazenda em Jaru, Rondônia. Lá desciam pequenos aviões tipo Cessna que vinham da Bolívia carregados de cocaína. Depois de dois carregamentos realizados em março de 1992 (de uma tonelada e de 750 quilos), essa base foi transferida para uma fazenda de 1,6 mil hectares, em Nova Canaã do Norte (MT), comprada pela quadrilha. Os aviões abarrotados de cocaína começaram a descer lá, em uma pista pavimentada que dava inveja aos vizinhos, multinacionais e grandes latifundiários de soja. Para disfarçar, o grupo abriu uma empresa agropastoril de fachada.

Desembarcada na fazenda em Mato Grosso, a droga era escondida em subterrâneos. Na sequência, ia para dentro de toras de árvores. Caminhões com as toras viajavam até os galpões em Minas Gerais. Lá, os especialistas em transformadores recrutados pela quadrilha retiravam uma das bobinas dos equipamentos e colocavam no lugar uma caixa de chumbo do mesmo tamanho, com 37 quilos de cocaína pura. Por fora, punham um óleo isolante que impedia a identificação da droga até por cães farejadores.

De Minas, os transformadores seguiam para o Rio de Janeiro, onde a papelada de exportação era preparada por despachantes aduaneiros contratados por Paul Lir. Em seguida, os equipamentos seguiam de navio para os falsos clientes em Miami e Nova Jersey. Depois que a droga era vendida nos Estados Unidos, os dólares entravam no Brasil por meio de um esquema similar: vinham dentro de caixas de som e amplificadores importados pela empresa de um amigo de Paul, que jamais foi responsabilizado e atualmente tem uma transportadora na Califórnia.

Na primeira "venda", Paul Lir enviou, como um teste, apenas transformadores, sem drogas. Eles entraram nos Estados Unidos sem dificuldades. Em dezembro, remeteu cinco equipamentos para Miami, desta vez com 165 quilos de cocaína. Eles foram examinados na alfândega e liberados. Investigações da Polícia Federal apontaram mais tarde que a quadrilha enviou, ao todo, 343 transformadores com cerca de 37 quilos de cocaína pura cada um, o que totalizaria 10,6 toneladas de droga despejadas em território americano durante apenas um ano, de dezembro de 1991 a dezembro de 1992.

Agentes da DEA foram levados a show sertanejo

A traição eclodiu quando Paul Lir e Jerry Speziale tentavam uma operação que usaria o Brasil como escala para um carregamento de fachada da DEA. A escolha do país havia sido insistência do brasileiro. Entre uma remessa e outra de transformadores, Paul Lir recebeu Speziale e outros agentes da DEA em São Paulo. Usando ternos Armani e sempre cercado de guarda-costas, levou os americanos em sua limusine a um show de Leandro e Leonardo. Conduziu-os à beira do palco e disse que uma empresa sua estava promovendo o espetáculo. Na verdade, Paul Lir tentava entrar no ramo, chegando a fazer a sociedade com uma empresa paulistana.

O império de Paul Lir começou a ruir em 3 de dezembro de 1992, data da prisão de Francisco Rebecchi, o gerente do braço mineiro do bando, em Belo Horizonte. Ele foi capturado ao tentar vender 17 quilos de cocaína a um policial disfarçado. Na cadeia, no Rio, entregou o esquema à Polícia Federal. Daí para a frente, a quadrilha deu início a uma operação "salve-se quem e o que puder".

Paul Lir ainda tentou reverter a situação. Telefonou a Jerry Speziale e disse que tinha informações sobre um carregamento enviado a Miami por um traficante chamado José Paulo Rothstein. Já que a droga que enviara com outro nome seria apreendida, pensou Paul Lir, ele pelo menos poderia receber a comissão como informante.

Mas a equipe da DEA em Miami investigou e descobriu que Rothstein e Paul Lir eram a mesma pessoa. "Paul ensinou-me tudo que ele sabia sobre o tráfico de drogas. E então ensinou-me sobre traição. Olhando para isso agora, tenho de admitir que Paul era brilhante", desabafou Speziale em seu livro.

Quando o esquema foi descoberto, a quadrilha tinha estocados 1,5 mil quilos de cocaína na fazenda em Nova Canaã do Norte. As apreensões feitas com a quadrilha, somadas, foram as maiores registradas até então no Brasil.

O rastro indecifrável de um mestre da mentira e do despiste

Em agosto de 2010, Paul Lir Alexander, um dos maiores traficantes de que se tem notícia, fugiu da prisão e nunca mais foi visto. E quem abriu as portas para ele foram as autoridades brasileiras.

Uma semana antes, havia obtido a progressão para o regime semiaberto. Deixou o presídio em Contagem e foi para a Penitenciária José Maria Alkmin, em Ribeirão das Neves, nas imediações de Belo Horizonte. No dia 11, foi beneficiado com uma saída temporária de sete dias — que se estende até hoje.

Seu paradeiro é um mistério. Parentes e amigos que tiveram contato com ele por telefone nos dias que se seguiram à fuga concordam em um ponto: Paul Lir teria fugido com a namorada de então, uma mineira, e entrado no Paraguai por Ciudad del Este. Dias depois, a mulher ligou para um parente do traficante no Rio Grande do Sul e, aos prantos, relatou que ele havia desaparecido.

Segundo a namorada mineira, Paul Lir teria atravessado a fronteira para o lado brasileiro, indo de carro até a entrada de uma fazenda onde ficaria refugiado. Teria dito que faria contato em breve. Se não se comunicasse, é porque tinha morrido.

Cerca de dois meses depois da fuga, uma pessoa enviou e-mail para um amigo de Paul Lir que vivia em Miami, dizendo que o brasileiro tinha marcado um encontro, mas não aparecera. Pessoas próximas repetem essas informações como prova de que o foragido estaria morto.

Mas a mãe de Paul Lir, uma aposentada de 79 anos, garante que ele está vivo:

— O senhor acha que ele está morto? Está nada. Está vivo. E bem vivo. Mais vivo do que eu. Não sei se posso falar isso, mas ele está por aí. Diz que ele fez uma plástica na cara, implantou cabelo e tirou as identificações da mão. "A senhora nem vai conhecer seu filho", me disseram. Mas é claro que eu vou conhecer, até se o virarem do avesso.

Afirma que o filho continuou a telefonar depois da fuga. Teriam sido cerca de quatro ligações. O traficante fazia chamadas a cobrar e teria inclusive enviado dinheiro para ela cobrir o custo dos telefonemas.

— Quando ele fugiu, não fiquei sabendo. Depois, ele ligou pra mim lá do... Ai, tenho até medo de ele saber que estou falando isso aí... ele ligou lá do Paraguai. Ele disse que tinha passado da ponte, que estava bem, que estava com a namorada.

Segundo a idosa, Paul Lir disse na primeira ligação que estava com saudade e que mandaria duas pessoas buscarem-na em Porto Alegre para ela ficar com ele, porque ele estava fora da prisão. Os emissários designados seriam a namorada e um motorista. Ela se recusou a ir.

— Se tu estás com saudade, tu vens aqui. Esse pessoal pode até me matar no meio da estrada.

Pau Lir riu. Então, disse:

— Não posso ir. Fugi da prisão. Ganhei um semiaberto e não voltei.

— Mas onde tu estás? — questionou a mãe.

O filho custou a contar.

— A senhora não vai contar pra ninguém?

— Tu podes me dizer. Não vou falar, tu és meu filho, por que eu vou falar?

Foi então que Paul Lir revelou estar no Paraguai, com um carro alugado.

— E se uma blitz te pega? — questionou a mãe.

— Não tem perigo, eu tomo cuidado.

— Tu não estás usando o teu nome, estás? — quis saber a mãe.

— Isso aí é melhor a senhora ficar quieta, não falar nada — cortou o traficante.

Mãe do criminoso ficou duas vezes sem moradia

Em um telefonema posterior, segundo o relato da mãe, Paul Lir revelou que havia enganado a namorada, fazendo-a pensar que tinha morrido.

— É a primeira vez que estou falando isso, mas ele continuava falando comigo por telefone. Ele contou que tinha deixado a namorada no hotel e que tinha dito para ela que, se não aparecesse até certo horário, era porque alguém tinha matado ele. Mas ele mesmo que se matou. Fingiu, né? Se mandou. Queria começar outra vida, mas não ia levá-la junto. Foi ele mesmo quem me contou isso. Aposto o que quiser como está vivo.

Em outra conversa, a idosa não abriu mão de repreender Paul Lir:

— Tu mataste os filhos dos outros. Agora estão matando o teu — disse ela.

— Como assim, matei o filho dos outros? — perguntou o traficante.

— Mataste. Vendeste bastante droga e mataste os filhos dos outros. Agora estão matando o teu. Está lá, feito um louco.

Paul Lir ficou em silêncio.

Hoje, a mãe guarda rancor dele. Segundo a idosa, três anos atrás, tempos depois do último contato, ele mandou vender o apartamento em que ela morava havia duas décadas em Porto Alegre. Ela conta, entre lágrimas, que recebeu a notificação de que o apartamento tinha sido vendido e que precisaria desocupá-lo.

— Eu não tinha dinheiro nem para a mudança. Liguei para um filho que é pobre, coitadinho, para ele me buscar, que eu não tinha para onde ir — conta a mulher, que hoje mora de aluguel em uma casa de fundos, com quarto, sala e cozinha.

A primeira mulher de Paul Lir afirma que ele não teve nada a ver com a venda. Assume ter negociado o imóvel para pagar dívidas vinculadas a ele. Mas a mãe está convencida de que o filho está por trás do despejo e que inclusive teria sido visto em Porto Alegre, por um familiar, em uma vinda para tratar do negócio.

Segundo a idosa, foi a segunda vez em que se viu na rua por culpa de Paul Lir. Quando ele ainda vivia no Rio Grande do Sul, ela serviu de fiadora para um de seus negócios. Ele não pagou a dívida, e ela teve de entregar a casa em que morava, em Canoas.

— Não quero vê-lo nunca mais. Ele fez uma sujeira comigo. Tenho muito medo dele. Eu tinha saudades, mas depois que ele me botou para a rua, não tenho mais. Só raiva. Minha filha diz: "Mãe, a gente não deve ter raiva, que ele já morreu". Eu respondi: "Morreu? Ele já morreu três, quatro vezes. Morrer, para ele, é mudar de nome".

Um mês depois da fuga, mega apreensão no RS

Foto: Ronaldo Bernardi, Agência RBS



O nome Paul Lir Alexander passou a ser conhecido pela Polícia Civil gaúcha em 2010. Em setembro daquele ano, agentes do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) apreenderam 358 quilos de entorpecentes (201 de cocaína e 157 entre lidocaína e cafeína) em Mariana Pimentel, no sul do Estado (ao lado). A droga estava enterrada em tonéis plásticos em uma propriedade rural.

Dias depois, o delegado Luis Fernando Oliveira foi convidado para uma reunião no Consulado dos Estados Unidos em São Paulo. Foram recebidos por policiais da Drug Enforcement Administration (DEA), que trabalhavam na capital paulista. O objetivo do encontro era troca de informações sobre o narcotráfico. A origem da droga (Bolívia), a quantidade e o modo de escondê-la despertaram a atenção dos agentes norte-americanos. Paul Lir estava foragido havia um mês e poderia estar envolvido no esquema.

— Desde então, tentamos localizá-lo, descobrimos parentes e pessoas do círculo de amizade no Estado e até no Exterior — diz o delegado Luis Fernando.

Para fugir de credores e autoridades, Valdelir tornou-se Paul Lir

Antes de ser Paul Lir, ele se chamava Valdelir. E foi registrado duas vezes. Na primeira, a mãe seguiu escondida até o cartório. A relação com o marido era marcada por brigas e ameaças. Com frequência, ele ameaçava fugir com os filhos. Por isso, resolveu registrá-los com o nome do avô, Alexandre. O espaço reservado ao pai na certidão ficou em branco. Surgia assim Valdelir Alexandre, nascido no dia 27 de julho de 1956, em Tubarão, Santa Catarina.

O segundo registro ocorreria no Rio Grande do Sul, anos depois. A família havia se mudado para Porto Alegre em 1960. Valdelir passou a morar na casa do avô materno, na Vila Jardim, com a mãe e três irmãos. O pai deixou-os na Capital e viajou para São Paulo. Só reapareceu quatro anos depois.

Quando voltou, empregou-se como motorneiro nos bondes da Carris e levantou uma casa nas imediações da atual Avenida Castelo Branco. A família cresceu: nasceram mais duas crianças. Um dia, o pai decidiu que era hora de registrá-las em seu nome. O primogênito virou Valdelir Oliveira da Cruz.

De Porto Alegre, a família mudou-se para Cachoeirinha, em uma vila perto do Rio Gravataí e, a partir de 1969, para a Rua Machadinho, no bairro Rio Branco, em Canoas. Em 1972, graças a uma bolsa de estudos da Secretaria Estadual de Educação, Valdelir cursou a 4ª série do ginasial (equivalente à 8ª série do Ensino Fundamental) no tradicional Colégio Rosário, em Porto Alegre.

Em casa, a rotina era de brigas entre o pai e a mãe. Uma noite, quando chegava da escola, Valdelir presenciou uma discussão violenta. Tinha 16 anos.

— Vou acabar com a raça dele — anunciou.

Atravessou a rua, apanhou uma acha de lenha em um armazém próximo e deu uma paulada no pai.

— O velho saiu para a rua, e ele continuou batendo. Parecia que não era ele, o meu filho, uma criança fazendo aquilo. Depois o velho correu atrás dele e o jogou em uma cerca de arame. Os dois nunca mais se deram — conta a mãe.

Assustado com ameaças feitas pelo pai, Valdelir saiu de casa e deixou de ir à escola.

Aos 16 anos, Valdelir só usava calça social, cultivava uma vasta cabeleira e passava horas na frente do espelho. A vaidade do rapaz chamava a atenção na vizinhança da Rua Machadinho.

— Ele era um bonequinho. Bonito demais. Tinha mania de enrolar o cabelo, alisar, fazer umas voltas. Vestia terno até para ir na esquina. As pessoas pensavam que ele era bicha — conta a primeira mulher.

Ela começou a namorar Valdelir nessa época. Eram vizinhos em Canoas e trabalhavam no centro de Porto Alegre. Com frequência, tomavam o mesmo ônibus. O rapaz começou a puxar conversa e se oferecer para pagar a passagem da moça, alguns anos mais velha e mãe de uma menina de seis meses. Em 1975, os dois tiveram um menino.

A garota namorou Valdelir, mas se casou com Paul Lir. Por volta de 1984, ele foi a Minas Gerais disposto a adotar ares americanos. Entrou em uma delegacia e saiu de lá como Paul Lir Alexander, nome constante da carteira de identidade número 2391639. Safou-se de todos os credores que o procuravam com o nome antigo.

O menino nascido em SC foi criado em Porto Alegre I Imagem: Reprodução



Trambiques em Porto Alegre e empresa de fachada no Rio

Em janeiro de 1985, oficializou o casamento com a namorada e se mudou para um confortável apartamento de 153 metros quadrados no Residencial Quintanares, na Avenida Padre Cacique, em Porto Alegre, distante três quadras do Beira-Rio. Até então, era o melhor condomínio do bairro Menino Deus, com vista privilegiada para o Guaíba, ginásio de esportes e duas piscinas térmicas.

Como de costume, o aluguel não foi pago. Fiadora, a mãe teve de vender a casa para quitar a dívida.

— Ele e a mulher só queriam saber de viver bem, à custa dos outros — reclama a idosa.

O agora Paul Lir se apresentava como agente de exportação de sapatos e dono de fábrica em Novo Hamburgo. Depois foi para São Paulo, onde tirou uma nova carteira de identidade, sob o número 19555890, com o mesmo nome americanizado. Instalou-se em Franca, meca do calçado paulista. Criou uma empresa fantasma em uma casa na Vila Santa Cruz, onde ele nunca morou e jamais fabricou um pé de sapato. Sumiu da cidade meses antes de a polícia desarticular uma quadrilha que traficava cocaína para os EUA em embalagens de calçados.

A primeira mulher conta que, na sequência, passaram um ano no Panamá, onde o brasileiro posava de exportador de calçados. Em 1985, estabeleceram-se em Miami, nos Estados Unidos.

— Ele foi para lá sem falar nada de inglês e aprendeu rapidinho — afirma a mulher.

O começo da carreira de falcatruas, com o nome de Valdelir Oliveira da Cruz, está documentado nos arquivos do Tribunal de Justiça do Estado. Parte dos processos foi localizada por Zero Hora. O mais antigo é datado de setembro de 1975. Aos 19 anos, Valdelir foi fichado pela polícia por causa de um cheque sem fundos (equivalente a R$ 2,4 mil).

Em setembro de 1977, Valdelir comprou na Companhia Geral de Assessórios, uma concessionária da GM, um flamante Chevette azul metálico zero quilômetro. Pagou cerca de 40% do automóvel com um cheque frio (R$ 11,2 mil). Dois meses depois, o carro foi apreendido, e Valdelir acabou condenado a pagar uma multa (R$ 2,7 mil) que jamais quitou. Há também registros de apreensão de um Passat financiado e não pago. Por causa de dívida com um restaurante, ele chegou a ter decretada a sua prisão cível por 20 dias, em março de 1981. Até fevereiro de 1987 a Justiça cobrou da Delegacia de Capturas a prisão de Valdelir, mas ele jamais foi encontrado. Em Goiás, aplicou um golpe numa agência do Banco Real. A Justiça mandou apreender um caminhão e um Uno do avalista.

Em 1988, Paul Lir Alexander voltou de Miami com a meta de ampliar "frentes de trabalho" no Rio. O primeiro passo foi abrir a Anglobrás Mineração Ltda, que venderia diamantes brutos e manufaturados para a Diamondex Incorporated, com sede em Miami, da qual Paul também era o dono.

Nessa época, ele costumava chegar ao Rio de jatinho, fazia-se passar por empresário americano e forçava o sotaque de "gringo". Foi quando encantou-se com Erica Souza, ex-dançarina do programa de TV Cassino do Chacrinha. Paul levou a ex-chacrete para viver com ele em Miami.

No Rio, Paul Lir propôs uma parceria com delegados das polícias Civil e Federal. Pelo acerto, ele forneceria informações sobre carregamentos de drogas e ficaria com metade do que fosse apreendido. O esquema ruiu em 1990, levando o traficante a constar da lista negra das autoridades americanas, da qual foi resgatado pelo agente Jerry Speziale.

OS PERSONAGENS

Paul Lir Alexander = Começou a carreira criminosa em Porto Alegre, aplicando golpes com o nome de Valdelir. Com uma nova identidade, migrou para o tráfico internacional de drogas ao mesmo tempo que atuava como informante de autoridades antidrogas americanas.

Jerry Speziale = Agente da Drug Enforcement Administration (DEA), órgão de repressão às drogas dos Estados Unidos, usou Paul Lir como informante para desarticular cartéis da Colômbia. Ficou famoso com o trabalho e escreveu um livro contando a "parceria" com o brasileiro.

Primeira mulher de Paul Lir - Na juventude, namorou Valdelir, quando moravam em Canoas, e casou-se com Paul Lir em Porto Alegre.Viveram no Panamá e nos EUA. Separada, mora em Porto Alegre em casa de parentes. Pediu para não ser identificada.

Erica Souza - Ex-chacrete, passou a viver com Paul Lir nos Estados Unidos após ele se separar da primeira mulher. Mãe de dois filhos de Paul Lir, ela o abandonou quando ele foi preso. Mora em Miami.

Mãe de Paul Lir = Foi vítima dos trambiques do filho mais velho, ficando duas vezes sem casa para morar. Com ajuda de outro filho, vive em pequena casa alugada na Região Metropolitana. Pediu para não ser identificada.