COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

domingo, 24 de abril de 2011

SEM LIMITES

Sem Limites (Limitless) é um filme muito ruim. A história envolve um escritor fracassado que passa a se drogar com uma “pílula” ilegal, adquirindo condições excepcionais de inteligência e capacidade física. O sujeito, então, sem esforço, se transforma em um “vencedor”. Fica milionário, seduz as mulheres e entra, triunfalmente, na política. O argumento sustenta o mito de que “usamos apenas 20% das capacidades de nosso cérebro”. A nova droga permitiria o uso de 100% da capacidade cerebral (a propósito: cientistas como James Kakalios afirmam que usamos 100% de nosso cérebro em diferentes momentos e que se 100% de nossos neurônios fossem “ligados” simultaneamente todo o oxigênio disponível seria consumido e o indivíduo provavelmente morreria).

Bobagens à parte, Sem Limites é um filme de inspiração fascista que renova a noção de “seres superiores” – capazes de derrotar impiedosamente a todos em um mundo avesso à solidariedade – e que vincula a promessa de uma “super-humanidade” à indústria farmacêutica. Claro, a droga é perigosa e pode matar; mas o protagonista sabe o que faz e termina encontrando a “dose certa”, garantindo suprimento para o resto da vida. Em síntese: se o tráfico de drogas estivesse na bolsa, suas ações teriam aumentado muito depois desse filme.

Uma rápida menção em uma palestra na UFRGS, sugerindo política mais tolerante com relação à maconha, rendeu ao governador Tarso Genro críticas contundentes. Reinaldo Azevedo (da Veja, claro) chegou a sugerir sua cassação. Silvio Holderbaum escreveu em ZH artigo com o criativo título (especialmente para um publicitário) “Em boca fechada não entra mosca”, criticando o governador, entre outras coisas, por ter se referido ao seu tempo de luta clandestina. Para o articulista, isto seria “um modo sutil de dizer que vivia fora da lei”, concluindo: “ou será que traficantes, assassinos e outros fora da lei também não vivem na clandestinidade?”. Uau! Tarso Genro se referiu à luta clandestina contra a ditadura militar. Uma época em que a “legalidade” era ilegal, fonte de usurpação perpetrada por golpe de Estado. Uma “legalidade” contra as eleições diretas, contra a liberdade de expressão e contra as garantias individuais. Bem, é claro que as pessoas têm o direito de usar apenas 20% de sua capacidade cerebral, mas chama a atenção o que há de desproporcional nas críticas.

Observe-se: o governador não defendeu a legalização da maconha. Afirmou que uma política de drogas não deve tratar a maconha da mesma forma como a heroína ou o crack. Posição que, aliás, é política pública em quase toda a Europa Ocidental e, mais recentemente, mesmo em alguns países sul-americanos. Detalhe: quem defende a descriminalização da maconha é o ex-presidente Fernando Henrique. Ao lado dos também ex-presidentes César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), FHC tem afirmado que, para além dos eventuais malefícios à saúde, é preciso repensar a política criminal por conta dos efeitos muito mais perversos do proibicionismo. A começar pelo tráfico, claro. Posição com a qual estou de pleno acordo. Mas Fernando Henrique não foi, não é e não será criticado por conta desta posição. Todos sabemos a razão. A escolha de Tarso pelos críticos, assim, diz muito mais sobre eles do que sobre o governador.



*MARCOS ROLIM, JORNALISTA