COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ECSTASY NO LUGAR DA COCAÍNA


ZERO HORA 11 de setembro de 2012 | N° 17189

TENDÊNCIA DE RISCO

Pesquisa aponta mudança no comportamento de usuários de drogas no sul do país, que migram do pó para a droga sintética


ITAMAR MELO

A cocaína está cedendo espaço ao ecstasy nos três Estados do Sul, conforme dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad). Na semana passada, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgaram os números sobre o consumo de cocaína e crack, revelando que o Brasil é o maior mercado mundial da pedra e o segundo do pó.

Adiscrepância entre os dados nacionais e os dados do Sul, no entanto, chamou a atenção da coordenadora do levantamento, Clarice Sandi Madruga, oriunda de Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, a proporção de entrevistados que haviam consumido cocaína ou crack no ano anterior era muito inferior à verificada nas outras regiões, apesar de o consumo ao longo da vida não variar tanto.

Clarice cruzou dados e detectou que, ao mesmo tempo em que consumia menos cocaína do que o resto do país, o Sul usava o dobro de ecstasy. No último ano, 0,2% dos brasileiros usaram a droga sintética. Nos três Estados meridionais, o índice foi de 0,4%.

– É uma tendência observada na Europa e América do Norte, onde o consumo de cocaína está sendo substituído pelo consumo de drogas sintéticas como ecstasy. O sul do Brasil está apresentando esse fenômeno, e certamente é o Rio Grande do Sul que está encabeçando isso – afirma Clarice.

Polícia identifica fenômeno por meio de apreensões

Os dados reunidos pela pesquisadora sugerem que a migração da escolha, no Sul, ocorre principalmente da cocaína aspirada para o ecstasy, com mais ênfase entre os mais jovens. Enquanto no Brasil a cocaína foi aspirada por 2% dos adultos e dos adolescentes, nos três Estados sulinos ela foi consumida por 0,8% dos adultos e por 0,1% dos adolescentes.

– Essa é uma tendência de classe média, com um contexto cultural que envolve festas e raves – diz Clarice.

O avanço do esctasy já foi identificado pelo Departamento Estadual de Investigação do Narcotráfico (Denarc). Conforme o delegado Joel Oliveira, diretor do órgão, as apreensões têm sido significativas desde o ano passado, motivando a abertura de investigações. Ele confirma que a droga está associada aos jovens de classe média, principalmente em festas.

– É muito nocivo e prejudicial à juventude – alerta.


Aparência inofensiva, mas altamente perigosa

A substituição da cocaína pelo ecstasy significa trocar uma droga estimulante perigosa por uma droga estimulante perigosa com imagem de inofensiva.

O psiquiatra e psicanalista Sérgio de Paula Ramos, coordenador do serviço de dependência química do Hospital Mãe de Deus, afirma que não há diferença significativa entre os dois produtos.

– É trocar seis por meia dúzia. Cocaína e crack são da mesma família, atuam na mesma região cerebral e têm o mesmo efeito farmacológico. O perigo é que o ecstasy tem a fama de não ser agressivo, tanto que é chamado de “balinha”. Os dados mostram que drogas com uma percepção de risco menor têm consumo maior – afirma.

Segundo Ramos, hoje se fala muito mais na droga sintética do que na cocaína nos consultórios médicos. A impressão do profissional é de que há aumento no consumo de uma e queda no consumo da outra.

– De tempos em tempos, muda a droga de escolha. Como o ecstasy vem em comprimido, é muito mais fácil de tirar do bolso e de tomar no meio de uma festa, o que pode favorecer que se consuma mais. Existe a ilusão de ser uma droga mais limpa, o que não procede.

Vermífugo pode estar sendo usado na confecção da droga

Um problema adicional da droga sintética é sua formulação. Inicialmente, as pílulas eram sintetizadas a partir de uma substância conhecida como MDMA, considerada menos nociva. No entanto, o MDMA é caro e tem sido trocado por outros componentes.

– O ecstasy consumido hoje é um ponto de interrogação. Não se sabe o que há na pílula. Às vezes, vai até vermífugo. É muito perigoso, porque tem fama de droga menos agressiva – avisa a pesquisadora Clarice Sandi Madruga.

Segundo Sérgio de Paula Ramos, as pílulas costumam ser um mix de estimulantes – como anfetamina e efedrina. Combinadas, explica ele, uma droga potencializa a outra.


Sérgio de Paula Ramos, Coordenador do serviço de dependência química do Hospital Mãe de Deus - ‘‘ Existe a ilusão de o ecstasy ser uma droga mais limpa, o que não procede.