COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DROGAS: FACA DE UM GUME


ZERO HORA 13 de setembro de 2013 | N° 17552

ARTIGOS


Marco Aurélio Ribeiro de Oliveira*


“Leis inúteis enfraquecem as leis necessárias.” Montesquieu


Não recordo exatamente o ano, mas não me esqueço daquela peça publicitária fantástica sobre o perigo das drogas. Durante um breve tempo veiculou em meia dúzia (pena) de outdoors. Talvez alguém ainda se lembre de um bebê usando apenas fraldas, sentado, sozinho em cena. A criança manuseava, com impressionante realismo, um determinado objeto com suas pequeninas e delicadas mãos. Abaixo do dramático quadro de pureza e inocência, um alerta: Com as drogas é a mesma coisa. O objeto com o qual o bebê brincava era uma ameaçadora e pontiaguda faca de cozinha. Assustador. Revelador.

Hoje, muitas imagens associadas direta ou indiretamente às drogas já não causam tanto espanto, mas deveriam. Os conflitos bélicos entre facções em busca de espaço geográfico e ascensão criminal, os infames varejões do narcotráfico, que pulverizam drogas sobre comunidades inteiras, as armas de guerra locadas ou negociadas por entorpecentes, nas mãos de bandidos comuns e multidões, desconcertantes multidões arrastando-se até a pedra de crack mais próxima. Tudo isso, desgraçadamente, parece ter sido jogado num gigantesco triturador que mistura pessoas, barbáries e banalidades, necessariamente nesta ordem. E o fator droga está lá, feito mancha de óleo em folha de papel, capaz de percorrer a sinuosa trilha rumo à dependência química, em horas; a recuperação, contudo, vai durar cada minuto do resto da vida do dependente, e dos familiares.

Os “imperadores” da droga querem o mundo por inteiro – um império nunca é grande o bastante –, preferencialmente, sem resistência, elementar (e milenar) estratégia de guerra. Os Estados Unidos são criticados por sua política de guerra ao tráfico, que já consumiu trilhões de dólares desde os anos 1980. Se aquele país ainda é o maior mercado consumidor de drogas do mundo, imagine se não tivessem desembolsado um único cent, onde estariam agora? Não é difícil imaginar, a dificuldade americana reside em enfrentar um dos mais complexos fenômenos globais da atualidade, praticamente, só (ninguém mais investe tanto em inteligência e logística, doméstica e internacional). Não enfrentá-lo, ou pior, pseudoestatizar um comércio imune a quaisquer princípios econômicos, híbrido de letalidade e rentabilidade, beira a degradação política, com repercussões sociais, econômicas e culturais trágicas. E ainda há quem aposte (literalmente) nisso, ou seja, a região e o resto do mundo que se danem. Uma nação com livre acesso às drogas lembra muito aquela criança do outdoor com a faca nas mãos: absolutamente desamparada.

*PROFESSOR, MEMBRO DO NÚCLEO DE SEGURANÇA CIDADÃ (FADISMA)