COMPROMETIMENTO DOS PODERES

As políticas de combate às drogas devem ser focadas em três objetivos específicos: preventivo (educação e comportamento); de tratamento e assistência das dependências (saúde pública) e de contenção (policial e judicial). Para aplicar estas políticas, defendemos campanhas educativas, políticas de prevenção, criação de Centros de Tratamento e Assistência da Dependência Química, e a integração dos aparatos de contenção e judiciais. A instalação de Conselhos Municipais de Entorpecentes estruturados em três comissões independentes (prevenção, tratamento e contenção) pode facilitar as unidades federativas na aplicação de políticas defensivas e de contenção ao consumo de tráfico de drogas.

sábado, 25 de junho de 2011

EPIDEMIA DAS DROGAS

Quando criança, vi, certa vez, minha irmã sair de casa, numa noite fria e chuvosa, para comprar cigarros. Ela alegou que não poderia esperar até o dia seguinte para fumar. Eram apenas cigarros, de alcatrão, mas para mim foi o bastante. Decidi que nunca iria fumar. Tinha então oito anos e, sem o saber, estava adotando um princípio para toda a vida: não me submeter a nenhum tipo de dependência química. De modo que me tornei adulta sem ter experimentado drogas. Ficou, no entanto, a reflexão sobre o problema.

Em minha prática profissional, convivo com adolescentes e me preocupo com o futuro deles, no sentido de que possam trilhar uma estrada segura, feliz, e livre de drogas. É também uma questão de responsabilidade social e de solidariedade. Difícil não se comover com os dramas familiares causados pelo uso de drogas quando se leem notícias do tipo: “Mãe mata filho viciado em drogas para se defender”, “Jovem, sob efeito de drogas, mata pai a facadas”.

É inegável que o problema afeta a sociedade como um todo, na medida em que o uso de drogas dissemina-se entre as diferentes classes sociais, sem fazer distinção. Urge, portanto, um empenho coletivo para conter o seu crescente avanço. Por isso, fiquei surpresa ao ler, recentemente, entrevistas de alguns políticos nas quais eles revelam ter feito uso de drogas e, pior, manifestam-se favoráveis à liberação de substâncias “leves”, como a maconha. Será isso apologia? Seja como for, é inaceitável que pessoas públicas assumam posições abertamente condescendentes com produtos tão nocivos quanto ilegais. Se os líderes já não servem de modelo, devemos dizer aos jovens que não os imitem. Afinal, a maconha é, muitas vezes, a porta de entrada para o uso de drogas mais pesadas.

Em nosso país, o crack integrou-se ao cotidiano urbano. Centenas de viciados se drogam à luz do dia nas grandes cidades, geralmente em espaços determinados: nas chamadas cracolândias. Muitas vezes, só sabemos que elas existem pelas imagens que aparecem nos noticiários. Elas nos mostram rostos desfigurados pela degradação do vício. Será que podemos ficar indiferentes? A mim, causam horror e piedade, pois como dizia Schopenhauer “o que faz um homem envergonha a todos os homens”.

O quadro não poderia ser mais dramático. São indispensáveis e urgentes ações para conter o avanço do uso de drogas. Se, de um lado, as campanhas contribuem para atenuar o problema – entre as quais, cabe lembrar, entre outras, a campanha “Crack, Nem Pensar”, do Grupo RBS – atuando na prevenção e na conscientização. Do outro, faltam medidas concretas por parte do Estado. O governo não tem o direito de descuidar de um problema que se tornou uma questão de saúde pública. Entre as providências inadiáveis, inclui-se a criação de clínicas e centros para dependentes. Sem medidas eficazes, a situação pode se agravar ainda mais.

Maria Luiza Khaled, Jornalista e escritora - ZERO HORA 25/06/2011